quarta-feira, 16 de março de 2011

pai, feliz aniversário

Projectar o passado: ensaios sobre arqueologia e pré-história. Escrito em 1987, o livro, de Vítor Oliveira Jorge, é uma coletânea de ensaios escritos ao longo de vinte anos e aborda, principalmente, os problemas epistemológico-metodológicos da Arqueologia. Nunca terminei de ler suas 277 páginas. Mas ele está lá. Guardado. Reservado. Ao lado de "A pirâmide iniciática: onde tudo começou", de Joan Llarch, e de "Os filósofos gregos, de Tales a Aristóteles", de W. K. C. Guthrie. Minha trilogia: arqueologia, o passado; pirâmide, os objetivos; filosofia, o caminho a ser percorrido.

Pode parecer estranho, mas explico. Eu tinha apenas 13 anos, quando em um impulso adolescente comprei estas raridades em uma Bienal Internacional do Livro. Sim, para mim são exclusivos por traduzirem um momento ímpar em minha vida. Não sei dizer ao certo de onde surgiu o interesse pela história e pela filosofia. Mas não é o fator principal.

Diz o preâmbulo do meu livro "O passado só nos interessa enquanto repositório da experiência humana, capital acumulado em que baseamos a nossa segurança no presente, através do qual conferimos coerência aos nossos gestos, às nossas opções, e lhes damos um sentido de futuro." O passado nos garante a segurança? Para mim, esta questão é indiscutível. Lembro dos meus ideais. Minhas metas. A vontade de crescer, aprender e surpreender.

Volto àquele dia, à Bienal, e tenho força para prosseguir, mesmo diante dos desafios, das perdas, das desilusões. Eu tinha sede de conhecimento, estranhos para uma teenager. Mas ele nunca duvidou. Acreditou e investiu. Meu pai, sem questionar, foi comprando os livros que eu indicava. O ápice veio com a coleção completa da Enciclopédia Barsa, hoje, ainda cultuada, apesar da soberania da web wide world. Tudo em um único dia. Eu estava nas nuvens. No apogeu da intelectualidade que me era oferecida. Não poderia decepcioná-lo. Nunca.

E foi com muito desespero que, quatro anos mais tarde, deparei-me com a reprovação no vestibular. O que eu mais queria. A minha razão de tantos esforços. Luta contínua contra este sistema ingrato de avaliação. Esperava pelo momento do abraço, das lágrimas de alegria e do sorriso em ver a filha na melhor universidade do país. Como eu sinto por não ter tido esse momento. Houve, sim, as lágrimas. Minhas, e não de alegrias. Mas o sorriso estava lá. E o abraço, nunca vou esquecer. Não, não estava decepcionado. Não existem outras universidades? Com certeza. Prossegui. Triunfante com as lembranças que possibilitam "coerência aos nossos gestos", nas quais minha personalidade foi plasmada.

A minha filosofia teve um seguidor. Que nunca hesitou em me acompanhar, em oferecer subsídios. O dia em que decidi partir na ânsia por novos desafios. Fui amparada. Voei para novas terras. Não queria mais voltar. Felizmente, foi o único momento em que houve controvérsias. Diante de tudo que já tinha me dado, obedeci. Arrependimento? Só um. Não ter tido tempo de dizer o quanto agradeço por cada parte dessa trilogia, ainda incompleta. A pirâmide é muito alta. A filosofia é complexa, paradoxal. Já o passado é infinito e repleto de boas recordações. Sim, é ele que "dá um sentido de futuro". Projectar o passado. Pai, como eu o amo! Feliz Aniversário!

Texto escrito em 17 de março de 2003.
PS. E cuide bem do Goober e do Kiko.

Família

3 comentários:

  1. Muito expressivo e comovente o texto. Com destaque também para o importante PS...

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  2. Oi, Kátia,
    O que dizer de um texto tão repleto de emoção? Que seu pai certamente foi muito feliz,por ter uma filha como você. A maior alegria do pai é a felicidade dos filhos. Então, temos, em homenagem a eles, por aqui ou em outras jornadas, a obrigação de lutar para ser felizes. Um beijo,
    Carlos Thompson

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