terça-feira, 17 de janeiro de 2017

meio sol amarelo


"Este aqui é o mundo, se bem que as pessoas que desenharam o mapa resolveram pôr a terra deles em cima e a nossa embaixo. Mas não existe um em cima e um embaixo, entende?"

Terminei de ler "Meio sol amarelo" e me perguntei "será que tem continuação?" Mas logo pensei "o fechamento (ou a falta de) não poderia ter sido melhor". Este é o terceiro livro da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie que leio. E já quero mais. A autora nos seduz com seus personagens. Estou com saudades de Olanna, Ugwu, Kainene, Richard e Odenigbo.

O livro é baseado na guerra civil da Nigéria, que aconteceu entre 1967 e 1970. Tentativa de dividir o país e formar uma nova nação, Biafra. O conflito, centralizado em dois grupos étnicos, ibos e hauças, foi extremamente sangrento, deixou milhares de mortos e chamou a atenção do mundo. Contudo, Chimamanda sugere que o recorte apresentado pela imprensa mundial vai na linha do "vemos apenas o que queremos", ou seja, utiliza alguns personagens para mostrar que os 'brancos' registravam apenas o que lhes interessava.

Temos o ponto de vista de três pessoas: Olanna, moça linda e rica, mas que opta por ter uma vida mais simples; Ugwu, jovem de aldeia que arruma um emprego na cidade na casa de um intelectual, o Odenigbo; e Mr. Richard (como é chamado o tempo inteiro), inglês que leva o sobrenome Churchill (sem parentesco) que se envolve com Kainene, irmã gêmea (não idêntica) de Olanna. Aprende a falar fluentemente o idioma ibo e luta para escrever um livro que retrate fielmente o que presencia.


Bandeira de Biafra, que traz um meio sol amarelo
A história começa com Ugwu chegando à casa de Odenigbo. Passa a conhecer um universo bem diferente do que tem em sua pequena aldeia. Encanta-se com a fartura de alimentos, com a geladeira e, sobretudo, com os livros, espalhados por todos os ambientes. As reuniões entre os amigos do 'Patrão' também chamam a atenção do garoto, que não perde a oportunidade de absorver tudo o que ouve.

Logo conhece Olanna, a namorada de Odenigbo. À princípio, receia que ela possa atrapalhar a rotina da casa. Mas sua beleza extraordinária e carisma o conquistam. Já ela, trava um conflito com a família. Os pais são donos de empresas bem-sucedidas. Mas Olanna não concorda com os meios ilícitos que utilizam em suas negociações. Subornos, propinas, privilégios. Nada muito diferente do que vemos por aqui, afinal. Também não tem um relacionamento muito bom com a irmã.

Richard deixa a namorada inglesa logo que conhece Kainene. Ela não tem a beleza da irmã. Mas é mais decidida e fria. Toca parte dos negócios dos pais, mas de forma independente, do seu jeito. Por sua vez, ele está na Nigéria disposto a escrever um livro sobre o que sente e vê. Mas sofre com as páginas em branco e as indecisões sobre o que realmente deve ser descrito. É apaixonado pela arte ibo, o que o leva a se integrar ao movimento pró Biafra.

Juntos, os três nos guiam pelo antes e o durante a guerra. A vida da classe média alta em contraste com os mais pobres. E, mais tarde, como todos tiveram que viver nas mesmas condições. Há descrições detalhadas das atrocidades cometidas por ambos os lados. Estupros, assassinatos em massa, mães perdendo filhos, fome, doenças e tudo mais. Se procura algo sutil, esqueça esse livro. Lembre-se também que não é ficção. Embora seja um romance, a autora partiu de pesquisas para nos dar uma ideia do que aconteceu em seu país. Tudo em nome de extremas ideologias políticas, mascaradas sob o pretexto de melhorar a vida dos que as seguem, mas que, no final, tornam-se irrelevantes. E só pioram. Tudo. Na Nigéria. Na Síria. Na Turquia. No Afeganistão. No mundo.

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