sexta-feira, 31 de maio de 2019

as mulheres do castelo


"Apenas quando provarmos que o direito internacional e os direitos humanos de toda humanidade são maiores do que qualquer vilão poderemos derrotar o mal."

"As mulheres do castelo", de Jessica Shattuck, me foi indicado pela Amazon a partir das minhas leituras recentes. A história passa-se durante e após a segunda guerra mundial e, assim como o livro anterior que li sobre o tema ("Mulheres sem nome"), é contado sob o ponto de vista de três mulheres.

Marianne, Ania e Benita vão passar alguns anos juntas durante a reconstrução de suas vidas após a guerra. 

Os maridos de Marianne e Benita faziam parte da resistência alemã e morreram tentando impedir que o nazismo progredisse. Enquanto Marianne inseria-se no contexto político, mantendo-se contra o regime que se instalava em seu país, Benita fez parte da juventude hitleriana. Mais por estar na moda do que por acreditar no que estava sendo dito. As duas se conhecem durante uma festa dada no castelo do título do livro, que pertencia à família do marido de Marianne. Anos mais tarde, o reencontro dá-se em situação totalmente diferente, em um apartamento depredado em Berlim. Marianne, meio a contragosto por ver seu papel sendo reduzido, prometeu ao marido de Benita, por quem era secretamente apaixonada, que cuidaria dela e de todas as demais esposas dos envolvidos com a oposição. Embora seja bem empenhada com o compromisso assumido, as coisas não saem como planejado. Já Ania surge na sequência, como a esposa de um polonês envolvido com a resistência. Suas história foi a que mais me surpreendeu. Todas as três têm filhos e é por eles que mantém segredos e mentiras. 

Começando em 1933 e indo até 1991, o romance traz algumas surpresas, mas não chega a ser inesquecível. Foi bom para minha sequência de leituras sobre a segunda guerra mundial, mas sem acrescentar muita informação.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

paris é sempre uma boa ideia



"Queria ir (naturalmente!) à Shakespeare and Company para andar um pouco entre os livros e sentir o cheiro daqueles tempos quase esquecidos em que a literatura ainda movia mundos."

Mais um livro bobinho para minha coleção. Precisava depois de semanas estressantes e leituras pesadas. E, claro, "Paris é sempre uma boa ideia". Nada mais chamativo para o título de um livro, principalmente para quem é apaixonada por essa cidade. Aqui, o francês Nicolas Barreau segue a mesma fórmula de outro romance dele que li, "O sorriso das mulheres". Há pontos turísticos, restaurantes e confusões sobre quem escreveu este ou aquele livro. Mudam os personagens e suas profissões, apenas. Mesmo assim, vale pela viagem. O que me chateou, porém, foram os inúmeros erros de português. No prefácio, a publisher da Primavera Editorial, responsável pela edição brasileira, elogia a tradução. Acredito que ela não tenha se atentado ao texto final. Não foram dois ou três erros que encontrei. Quase posso dizer que havia um erro a cada cinco páginas. Descaso total com o leitor. 

Enfim, o romance até que é gostoso. Rosalie tem uma papelaria no boêmio bairro Saint-Germain. O diferencial é que ela ilustra cartões postais, personalizando a mensagem. Você diz uma frase ou um tema e ela desenha. Fiquei com vontade de encomendar um para mim. Apaixonada por rituais, todo ano, no dia do seu aniversário, ela sobe na torre Eiffel e joga um cartão com um desejo secreto. E não é que seus sonhos começam a se tornar realidade. A começar pelo convite que recebe para ilustrar o livro do seu autor favorito na infância. Claro que haverá uma paixão, coincidências improváveis, desencontros e um final feliz. Afinal, essa é a intenção. 

sábado, 18 de maio de 2019

mulheres sem nome




"Em um segundo ouvimos as armas. Atiraram nas leiteiras. Algumas balas atingiram o campo e mandaram lufadas de areia para os ares, mas outras atingiram as mulheres, derrubando-as no chão, derramando o leite no gramado. Uma vaca gritou ao cair, e o pop pop pop das balas perfurou os latões de metal cheios de leite. Os refugiados nos campos largaram as batatas e se dispersaram, mas as balas os encontraram enquanto corriam. Eu me abaixei quando os dois últimos aviões voaram novamente por cima de nós, deixando o campo lá embaixo coberto com corpos de homens, mulheres e vacas. Os animais que ainda podiam correr davam pulos para lá e para cá, como se estivessem meio malucos."


Assistindo a um programa que debatia o pós-humanismo, ouvi uma expressão, até fora do contexto do tema principal, que me marcou: "a maldade não tem limites, a bondade, sim."

Pois é exatamente assim que nos sentimos ao ler relatos de guerra e de estados autoritários de uma forma geral. "Mulheres sem nome", da norte-americana Martha Hall Kelly, mistura ficção com personagens reais, que vivenciaram os atos da segunda guerra mundial.

Caroline Ferriday é ex-atriz e socialite norte-americana que trabalha voluntariamente no consulado francês em Nova York. Sua missão consiste em arrecadar doações para órfãos na França. Acompanha de perto o desenrolar do conflito. Em Lublin, na Polônia, temos Kasia Kuzmerick, que vive uma vida tranquila com sua família e amigos até o avanço das tropas de Hitler em seu país. Ligada à resistência, é capturada e mantida prisioneira em Ravensbrück, campo de concentração exclusivo para mulheres. Foi para lá que a judia alemã Olga Benário, esposa do brasileiro Luís Carlos Prestes, foi enviada.

E é neste campo que trabalha a terceira personagem principal, Herta Oberheuser, médica que vai atuar a favor dos experimentos nazistas. Caroline e Herta de fato existiram. Já Kasia foi inspirada em sobreviventes de 
Ravensbrück. Cada capítulo é narrado por uma delas, nos dando uma boa visão desse período a partir de pessoas de classes, ideologias e nacionalidades distintas. Os tópicos de Kasia são os mais pesados. A começar pelo trecho em destaque no início deste post, que mostra a chegada dos nazistas. Como prisioneira, ela passou e presenciou várias torturas. Talvez um dos mais dolorosos foi ver a filha de apenas alguns meses de sua professora ser tirada de seus braços a força. Sabe-se lá o que fizeram com a criança. Mais tarde a mãe morreu sucumbida pelos maus-tratos e tristeza. Infelizmente, isso não é ficção. Situações assim aconteceram. Kasia também foi, junto com sua irmã e outras prisioneiras, selecionada para experimentos médicos, as coelhas de Ravensbrück. Passaram por procedimentos cirúrgicos para que fossem inseridos os mais variados objetos em suas pernas. A ideia era testar se a sulfonamida, espécie de antibiótico, tinha efeito em ferimentos graves, a fim de ajudar os soldados do Reich.

As sequelas ficaram para sempre nas moças que conseguiram sobreviver. Anos mais tarde, elas tiveram a ajuda de Caroline que, dos Estados Unidos, conseguiu fundos para que as prisioneiras tivessem o tratamento adequado. Herta foi uma das médicas que participou dos experimentos. No romance ela é retratada de forma fria e destinada a servir aos interesses da nação. Em alguns momentos, até chega a sentir alguma comoção, mas o sentimento é logo substituído pela ambição em se destacar. Foi julgada e condenada a prisão. Passado algum tempo, foi solta e conseguiu abrir uma clínica médica. Felizmente, foi reconhecida e teve seu título cassado. Tudo isso é verídico. Claro que as histórias ganharam aspectos romanceados, como a vida de Caroline, que teve até um namorado francês. V
ale muito a leitura. Principalmente para quem tem interesse em conhecer o que de fato aconteceu durante a segunda guerra mundial ou para quem ainda acredita que se matou pouco naquela época.
"Canções tristes não são tão tristes quando temos alguém que nos ama."

sexta-feira, 3 de maio de 2019

a costureira de dachau


"Algo tinha acontecido. Ela podia sentir o gosto de metal na boca, o estômago apertado. Suas mãos e axilas começaram a suar. Estava sozinha. Eles tinham ido embora. Seu maxilar começou a tremer e os dentes, a bater. Seu corpo todo tremia. Eles podiam voltar. Ela ia chorar de novo. Seus nervos se agitaram e as lágrimas surgiram, envoltas em uma valsa macabra."


Terminei de ler este livro com uma terrível dor de cabeça. Custou-me a aceitar o desfecho da história. Não que tenha sido ruim, do ponto de vista literário, mas inesperado, tamanho o realismo aplicado. Fiquei revoltada mesmo. “A costureira de Dachau”, da britânica Mary Chamberlain, passa-se durante a segunda guerra mundial. Ada Vaughan é uma jovem inglesa de 18 anos. Ambiciosa, sonha em ter sua própria casa de costura. Para tanto, não hesita em buscar formação. Dedicada, logo aprende as principais técnicas do ofício, destacando-se nos empregos que consegue.

Mas, infelizmente, acaba se deixando levar pelas promessas de um homem que se diz encantado por ela. Resultado: antes totalmente devota ao trabalho, acaba tirando uns dias de folga para passear em Paris, mesmo com o anúncio da guerra que pode começar a qualquer momento. É claro que ela se dá mal. De Paris, acaba fugindo às pressas com o moço para a Bélgica. Lá, ele simplesmente a abandona durante os bombardeios na cidade de Namur. Desamparada, consegue abrigo em um convento. Ao invadirem o país, os soldados alemães aprisionam todos os ingleses, seus inimigos, e isso inclui as freiras. Como Ada usava este disfarce, é também levada para Munique, na Alemanha. Em seguida, para Dachau, considerado o primeiro campo de concentração criado pelos nazistas.

Mas ela não ficava no campo propriamente dito, e sim na casa onde morava o comandante responsável por aquela área, bem como sua respectiva família. Escravizada, come o pão que o diabo amassou. Seu único consolo, entre surras, humilhações e violações sexuais, é poder costurar, mesmo que seja para embelezar seus algozes. Isso não é tudo, porém. Ela ainda terá que lidar com a dor de ver seu filho sendo arrancado de seus braços. Sim, ela engravida, mas isso não é spoiler. Há muito mais surpresas neste livro, que é dividido em três partes. Super recomendo, sobretudo para entender o preconceito da época, e que fez muitas mulheres, que como Ada tinham sonhos e corriam atrás deles, padecerem. 
O começo e algumas partes remetem a outro romance com nome parecido: "Tempo entre costuras", da espanhola Maria Dueñas.