terça-feira, 1 de maio de 2018

história da menina perdida





Onde está escrito que as 
vidas devem ter um sentido?

E terminei a saga de Lenu e Lila, da série napolitana de Elena Ferrante. Poderia facilmente ter lido os quatro livros na sequência sem me entediar ou cansar. A leitura é empolgante. Desde o primeiro volume, quando conhecemos as duas ainda meninas, suas brincadeiras, brigas e sonhos até esse último, quando já estão bem mais velhas e as desilusões se sobressaem. Características delas lá atrás permanecem, sendo que algumas são fortalecidas com o passar do tempo. Lila sempre destemida e em busca de algo novo para se apaixonar. Lenu, mais adepta às rotinas do dia a dia, apesar de se jogar na fase adulta. E assim elas vivem suas aventuras, capítulo após capítulo. 


O título, “História da menina perdida”, pode tanto fazer referência à infância distante das duas como a um fato trágico que envolve o sumiço de uma criança. Minhas pernas ficaram moles enquanto lia e sentia o desespero da mãe. Ainda agora não gosto nem de imaginar tal situação.

Perto de completarem quarenta anos, elas voltam a ser vizinhas no bairro em que cresceram. Retomam a amizade que mistura admiração e inveja. São envolvidas nas disputas e confusões locais. Também engravidam ao mesmo tempo. Lenu do terceiro filho. Lila do segundo. 

Fiquei com raiva de Lenu, que abandona a serenidade que sempre teve para viver um grande amor de infância. O problema é que ela larga tudo, inclusive as duas filhas pequenas. Tento não julgar, mas é impossível. Aliás, que cafajeste ela arrumou. Lila, que foi parar no fundo do poço no livro anterior, dá a volta por cima e, no início dos anos 80, destaca-se no desenvolvimento de sistemas. Ao mesmo tempo, mostra-se cada vez mais equilibrada e disposta a ajudar a todos. Não fosse ela, Lenu estaria ainda mais perdida. 

Vale lembrar que todo o relato é sob o ponto de vista de Lenu, que escreve a história das duas na tentativa de descobrir o paradeiro de Lila, que desapareceu sem deixar um único pertence. Se o enigma é desvendado ou não, leiam e me digam. Só posso dizer que as pessoas sempre podem nos surpreender. Para o bem e para o mal.

Trechos 

"Era maravilhoso ultrapassar fronteiras, deixar-se ir a outras culturas adentro, descobrir a provisoriedade do que eu tinha tomado por definitivo." 

“- Acalme-a.
- Como?”
Sorriu: - Com mentiras. Mentiras são melhores que tranquilizantes.” 

"Há tempos eu já percebera que cada um organiza a memória como lhe convém, e ainda hoje me surpreendo ao fazer o mesmo." 

“Está querendo dizer que um desejo pode ser tão forte a ponto de parecer já realizado?”

Se uma criatura de poucos anos morre, está morta, acabada, mais cedo ou mais tarde você se conforma com isso. Porém, se ela desaparece, se não se sabe mais nada a seu respeito, não há nada que reste no lugar dela, em nossa vida.


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