sábado, 29 de abril de 2017

orgulho e preconceito

A versão que li. Com a capa do filme de 2005

"Sem pensar muito bem de homens ou do matrimônio,
o casamento sempre fora seu objetivo."

Eu estava na livraria esperando para ser atendida e, aleatoriamente, peguei um livro. Era uma edição de bolso de “Orgulho e preconceito”, de Jane Austen. Eu tenho todos os seus livros, mas nunca os li. E olhe que até na casa dela eu já fui. Há treze anos, em abril de 2004. Era um bonito dia de primavera na Inglaterra. Lembro ainda hoje de ficar observando a mesinha em que ela escrevia. Saí de lá com duas de suas obras, que envelheceram na estante. Até o dia em que tive que ficar esperando na livraria. Bem, lá mesmo, em pé, comecei a ler o romance. Ri muito logo no começo. Voltei para casa e imediatamente baixei a versão para o e-reader. Na atual fase da minha vida, é mais fácil ler com esses dispositivos. Enfim, intercalei a leitura do meu original, em inglês, com a tradução muito mal feita que estava disponível gratuitamente na Amazon.

Minha edição em inglês
Este é o segundo romance da autora, escrito entre 1796 e 1797, quando ela tinha apenas 21 anos, mas só foi publicado em 1813. Seu título inicial era “Primeiras impressões”, mudado por conta de outros livros com o mesmo nome, mas que resume bem o seu conteúdo. Há várias menções sobre os erros que cometemos ao avaliar a pessoa a partir de um primeiro encontro. 

A história se passa na Inglaterra do século XVIII e descreve a sociedade rural do período de regência britânica. Tem final bem previsível, mas o que vale é a forma com que é contada. Tudo sob o ponto de vista de Elizabeth, a segunda de cinco filhas de um casal que vive no campo, próximo a Londres. Logo nas primeiras linhas vemos o desespero da mãe que tenta casar suas meninas. E um grande partido acaba de chegar na vizinhança. A mulher fica toda empolgada e implora ao marido que vá se apresentar, já com o intuito de transformá-lo em genro. Este trecho é hilário. Depois de lê-lo você não vai resistir. O rapaz, Mr. Bingley, chega com duas irmãs e um amigo, Mr. Darcy. A partir daí, tudo gira em torno de dias ociosos das moças, bailes e diálogos sobre relacionamentos amorosos. Divagações sobre o interesse ou não dos rapazes nelas. Enfim, algo atemporal se pensarmos bem. A diferença é que naquela época a comunicação era mais difícil. Levava alguns dias até terem a resposta para suas dúvidas por meio de cartas ou mensageiros. Jane nos apresenta a uma sociedade burguesa que só pensa em casar. Este é o objetivo de todas as diversões que as pessoas têm: bailes, viagens, passeios, apresentações à corte. O engraçado (ou não considerando que isso acontecia naquela época) é que bastavam algumas horas para se decidir quem seria o cônjuge. Claro que cabia à mulher o papel de esperar o pedido. Grande angústia que a autora, ironicamente, faz questão de ressaltar. Até Elizabeth, que tende a não concordar com os arranjos matrimoniais, tem lá suas expectativas com Mr. Darcy, relacionamento que vai da intolerância ao inesperado amor. Por causa de tanto papo fútil em torno de ‘ele me ama ou não’, a leitura torna-se maçante em alguns momentos. Mas superamos e encontramos até uma rebelde, a Kitty, irmã mais nova de Elizabeth. A única que não esperou por um pedido para ir atrás de quem desejava. Se acertou ou não, esse é o risco de ousar. Bem melhor que ficar em casa esperando um convite que pode nunca aparecer. Quero mais Jane Austen.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

para educar crianças feministas


Sou fã de Chimamanda. Este livro é a adaptação da carta que ela escreveu para uma amiga que lhe pediu sugestões para educar sua filha seguindo as premissas feministas. Bem, como ela mesma pode comprovar, é muito mais fácil dar sugestões para filhos dos outros do que aplicar as mesmas recomendações em suas próprias crianças. Mas gostei de sua abordagem. E devo dizer que concordo com absolutamente tudo o que escreveu. Abaixo, brevemente, suas 15 dicas. Por favor, leiam e divulguem este excelente livro.

1) "Seja uma pessoa completa." Não devemos nos culpar por não abandonar nosso trabalho e as demais coisas que gostamos de fazer por conta da maternidade. Continue sendo você e tudo ficará bem.

2) "Façam junto." Esta é uma máxima que sempre acreditei. Nada de dizer que o pai ajuda com o bebê. Ele tem tanta responsabilidade quanto a mãe. O mesmo vale para a casa. Por que devemos elogiar os homens que fazem tarefas domésticas como se fosse um favor?

3) "Ensine que papéis de gênero são totalmente absurdos." Nada de dizer: seja boazinha como uma menina. Ou menino não chora. Também não limite as brincadeiras e brinquedos às divisões que as lojas e sociedades costumam fazer. Carrinhos para menino. Bonecas para menina. Tudo isso pode impedir que surjam grandes engenheiras, por exemplo.

4) "Cuidado com o Feminismo Leve". Aquela ideia de que os homens são levemente superiores e devem tratar bem as mulheres. E que, por exemplo, uma esposa só alcança o sucesso porque o marido deixou.

5) "Ensine a ler". Ensine o gosto pela leitura, pelos livros. E se o seu exemplo não adiantar, dê recompensas para que a criança leia. O retorno será sempre satisfatório.

6) "Ensine-a a questionar a linguagem." Não use expressões que ensinam que a mulher é frágil, como princesa (que tem que esperar por um príncipe). Ou que são os meninos que protegem as meninas. Elas não precisam de proteção, mas de tratamento igual.

7) "Nunca fale do casamento como uma realização." Por se preocupar tanto em arrumar um marido, muitas mulheres deixam de fazer coisas que poderiam ser bem mais prazerosas. Ela também questiona o fato de as mulheres terem que assumir o sobrenome do marido. Por que não manter sua própria identidade?


8) "Ensine-a a não se preocupar em agradar." As meninas são sempre ensinadas a serem boazinhas, agradáveis e fingidas. O que pode ser bem perigoso, principalmente no caso de um abuso. O importante é que elas sejam ensinadas a serem honestas e bondosas. E, principalmente, a defender o que é seu.

9) "Dê um senso de identidade." Aqui o conselho é para a filha da amiga crescer com o orgulho de ser uma Mulher Igbo. Ou seja, a abraçar o que sua cultura tem de mais bonito. A valorizar sua cor, seu cabelo, principalmente diante da mídia que sempre enfatiza as mulheres brancas.

10) "Esteja atenta às atividades e à aparência dela." A dica é: "incentive-a a praticar esportes. Ensine-lhe a ser ativa. Façam caminhadas juntas. Nadem. Corram. Joguem tênis. Futebol. Pingue-pongue. Todos os tipos de esporte." Também ressalta a importância de deixar que ela encontre seus próprios padrões de beleza e não permitir que ela associe beleza a dor e ao sacrifício.

11) "Ensine-a questionar o uso seletivo da biologia como "razão" para normas sociais em nossa cultura." Principalmente para que ela questione os ditos privilégios dos homens, como sua força física ou a promiscuidade.

12) "Converse com ela sobre sexo, e desde cedo." Pode ser constrangedor, mas é importante para que ela entende que o corpo é dela e que nunca deverá dizer sim para algo que não quer. Também é preciso dar abertura para que ela converse com você sobre o assunto.

13) "Romances irão acontecer, então dê apoio." Mostre que o amor é uma troca. Ela não deve apenas dar. Também tem que receber. Reforçe que ela deve ser independente, o que inclui a questão financeira, mesmo se for casada. "Ensine-lhe que NÃO é papel do homem prover."

14) "Ao lhe ensinar sobre opressão, tenha o cuidado de não converter os oprimidos em santos." O que ela quer dizer é que há nos discurso sobre gêneros a ideia de que as mulheres são moralmente melhores do que os homens. O que não é verdade. "Mulheres são tão humanas quanto os homens. A bondade feminina é tão normal quanto a maldade feminina." Da mesma forma, nem todos os homens são misóginos.

15) "Ensine-lhe sobre a diferença." Um dos ensinamentos mais importantes: "ensine-lhe sobre a diferença. Torne a diferença algo comum. Torne a diferença normal. Ensine-a a não atribuir valor à diferença. E isso não para ser justa ou boazinha, mas simplesmente para ser humana e prática. Porque a diferença é a realidade de nosso mundo. E, ao ensinar-lhe sobre a diferença, você a prepara para sobreviver num mundo diversificado. Ela precisa entender que as pessoas percorrem caminhos diferentes no mundo e que esses caminhos, desde que não prejudiquem as outras pessoas, são válidos e ela deve respeitá-los. Ensine-lhe que não sabemos - não podemos saber - tudo sobre a vida. A religião e a ciência têm espaços para as coisas que não sabemos, e isso basta para nos reconciliarmos com esse fato."