segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

a livraria mágica de paris

Que livro chato! Antes de ler até achei que seria como o romance 'A senhora das especiarias', da indiana Chitra Divakaruni, ou o filme 'Chocolate', com Juliette Binoche e Johnny Depp. Um trazendo os temperos como cura dos males da alma e o outro o chocolate. Ambos irresistíveis. Vale a pena conferir.  'A livraria mágica de Paris', da alemã Nina George, até tenta ir por este caminho. Mas fora um trecho aqui outro acolá, o livro é bem, mas BEM cansativo. Jean Perdu tem uma livraria num barco em Paris. Costuma receitar livros para os clientes como se fossem remédios. Contudo, ele próprio não consegue se curar de suas dores. Há vinte e um anos sofre por amor. Tanto que evita dizer e pensar o nome da fulana que o abandonou para não aumentar o seu tormento. Até que conhece outra mulher depois de todos esses anos. Ela também foi abandonada pelo marido. E é justamente por meio dela que vai reencontrar a carta que a ex deixou e que nunca teve coragem de ler. Quando a abre, finalmente, descobre que ela partiu porque estava muito doente. Ah, ela era casada. Perdu era o amante. Desnorteado, sai com seu barco pelo rio Sena em busca de repostas e redenção. Quando está zarpando, um jovem escritor, que mora no mesmo prédio, se joga na embarcação. Max está em busca de inspiração para o segundo livro. E assim os dois conhecem o interior da França, fazem amizades, divagam. Mas o que realmente me irritou foram os trechos do diário de Manon, a tal mulher que deixou Perdu, que a autora teve a infelicidade de inserir aleatoriamente. Gente, como ela é mala. Nós, leitores, não temos culpa de sua doença e nem do seu egoísmo. Já pensou aturar alguém que fala assim:  "Eu sou meu corpo. Os lábios da minha vulva sorriem, suculentos, quando tenho desejo, meu peito transpira quando sou humilhada e em meus dedos fica o medo diante de própria coragem, tremem quando eu quero me proteger e defender." Ainda bem que Perdu consegue, mesmo que aos poucos, se libertar.

Mapa com o trajeto feito por Jean e Max

Uma coisa boa foi que fiquei morrendo de vontade de fazer o trajeto de Jean e Max. Gostei ainda das referências literárias. Só não entendi a indicação de Moby Dick para vegetarianos (eu poderia dizer o contrário). De todo modo, vou refletir mais sobre a relação. A autora colocou no final algumas receitas de pratos que aparecem no livro. Totalmente dispensável. Uma pena. Foi uma leitura que começou bem e prometia ser gostosa.

Trechos que (quase) salvam o livro

"Tudo ainda está lá. todo o tempo que passamos junto é eterno, imortal. E a vida nunca cessa."

"Queria tratar sensações que não são reconhecidas como doenças e que nunca são diagnosticadas por médicos. Todas aquelas pequenas emoções e todos os sentimentos pelos quais nenhum terapeuta se interessa, porque parecem pequenos demais e intangíveis."

"Obviamente, livros são mais que médicos. Alguns romances são amorosos, companheiros de uma vida inteira; alguns são um safanão; outros são amigos que o envolvem em toalhas aquecidas quando bate aquela melancolia outonal."

Cuisery: a cidade dos livros,
parte do percurso indicado no livro

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

história do novo sobrenome

As capas dos livros desta série são maravilhosas

Todos deveriam ter acesso à escola. Principalmente quem a valoriza. Infelizmente, não é o que acontece. E não foi o que aconteceu com Lila Cerullo. Ela era uma aluna brilhante e prometia um futuro promissor. No entanto, mesmo com o apelo da professora, o pai não permitiu que ela continuasse os estudos após a conclusão do ensino fundamental.

O resultado: ela casou-se aos dezesseis anos na tentativa de substituir a paixão que tinha pelos livros por um marido e por uma vida luxuosa. Tudo isso acompanhamos em "Amiga genial", o primeiro livro da série napolitana de Elena Ferrante.

Em "História do novo sobrenome" temos o resultado dessa sequência de fatos: um marido violento, que a espancava a todo momento. O pior é que todos viam, pais, irmão, sogra, cunhados, amigos. E ninguém fazia nada. Pelo contrário, davam razão a ele. Afinal, Lila era teimosa, queria tudo do seu jeito, não prestava. Mas nem isso a deixa para baixo, a garota segue buscando outros motivos para se destacar e entrega-se aos negócios da família.

Paralelamente, acompanhamos Lenu, a narradora dessa envolvente história, e seu desenvolvimento acadêmico. Apesar das dificuldades, da falta de dinheiro, ela prosseguiu com os estudos. Sempre achou que não era digna das boas notas que recebia. Sentia-se inferior por pertencer a um meio no qual a gritaria, os espancamentos e o dialeto ditavam as regras. Isso nunca vai sair de mim, pensa a todo instante. Talvez seja esse o motivo de não haver detalhes de sua vida na faculdade. Ela apenas faz um resumo do que se passa. O foco de seu relato é reservado para o bairro, em Nápoles, no qual cresceu e no qual, de certa forma, sempre habitará. Muito interessante acompanhar o desenrolar de todos os personagens secundários que ela nos apresenta.

A disputa silenciosa entre as duas amigas continua. Lila querendo provar que mesmo sem ter ido à escola pode ter uma vida boa, nem que seja na aparência. E Lenu, ao mesmo tempo em que quer bem a amiga, torcendo para que as coisas desandem. 

Ambas, porém, sempre se lembrarão da última férias de verão que passaram juntas, quando tinham dezessete anos. Cada uma estava lá por seus motivos. Lila porque disseram ao marido que banhos do mar ajudam a engravidar. Lenu para encontrar Nino, por quem era secretamente apaixonada. Para uma será o apogeu da paixão. Para outra uma grande desilusão. Para as duas, um momento que ditará definitivamente o futuro.

Ischia: férias inesquecíveis
Não dá para falar muito sobre o livro. Só lendo e acompanhando. É o tipo de leitura que não traz grandes acontecimentos. Não tem muita ação. Mas que atrai pelo desenvolvimento das personagens e pela passagem do tempo. Sem nos darmos conta, envelhecemos e deixamos para trás sonhos, amigos, lugares. Vou entrar no terceiro volume com saudades da infância e adolescência das duas, abordadas no primeiro livro. E, também, do verão que passaram juntas, no segundo.