domingo, 16 de outubro de 2016

o outro cão que guarda as estrelas



"Não me deixe aqui. Estou sem forças.
E não consigo andar."
Dois cachorrinhos foram abandonados na rua dentro de uma caixa. Um deles, o mais saudável, foi adotado por uma menininha e ganhou o nome Happy. Sua história, triste, é contada no mangá "O cão que guarda as estrelas".
Três anos depois, após o grande sucesso que teve, Takashi Murakami lança "O outro cão que guarda as estrelas". Não é exatamente uma continuidade, mas a narração do que aconteceu paralelamente à primeira história. Aqui acompanhamos a vida do irmão de Happy. Doente, é desprezado por todos. Com exceção de uma idosa que só pensa em morrer. Ao se deparar com o cão, vê nele uma ótima companhia para ir dessa para uma melhor, já que acredita que o animal também está com os dias contados. O que ela não contava é que o pouco de atenção que deu ao Pequeno, como passa a chamá-lo, seria suficiente para que ele recuperasse a saúde. A partir daí, acompanhamos a transformação que esse amor, entre ambos, realiza. Paralelamente, temos outra história. A de um garoto que é deixado pela mãe e que vai acabar sendo ajudado por outro cachorro, que por dois anos está à venda em um petshop. Essa criança aparece rapidamente no primeiro mangá e, aqui, acompanhamos melhor sua trajetória.
O fim desse segundo volume é bem menos trágico que o primeiro. Mas ambos falam em nome dos animais. Ouvimos suas vozes, suas emoções. Esses dois mangás deveriam ser lidos por todos que têm cachorro ou pretendem tê-los. Também por aqueles que um dia maltrataram algum. Falam do amor incondicional que nos dão e da inocência com que percebem suas relações com os humanos.
Emocionante.
E acabei de descobrir que tem um filme com a história de Happy. Vi o trailer apenas. Sei o desfecho e vou me poupar do sofrimento. Mas #ficaadica.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

jogo perigoso

"Estou aqui sozinha, meu marido jaz morto no chão,
e eu algemada à cama. Posso gritar até ficar roxa
e não vai adiantar nada; ninguém vai ouvir."



Bem que me avisaram para terminar as últimas páginas de “Jogo Perigoso”, de Stephen King, tomando chá de camomila. Cenas fortes, de fato, vieram. Se você não gosta de sangue, cortes e vidros, talvez tenha alguma dificuldade para prosseguir a leitura. De todo modo, junto com “Joyland” (que é fofo), esse livro entrou na lista dos meus favoritos do autor.

O enredo é tenso e curioso, e foi o que me levou a lê-lo. Mulher vai com marido para uma casa no meio do nada no Maine (sempre o Maine). A ideia é fazer alguns jogos eróticos usando algemas. Ele a amarra na cama e... cai morto. E aí? Como ela sairá desta?

"Esforçou-se par ampliar a oração e só lhe ocorreu uma coisa que Nora Callighan lhe ensinara, uma oração que hoje em dia andava na boca de todos os vigaristas de autoajuda e dos gurus de merda: - Deus, me dê serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as coisas que posso e sabedoria para saber diferenciá-las. Amém. Nada mudou. Não sentiu serenidade, nem coragem, muito menos sabedoria. Continuava a ser apenas uma mulher com os braços inertes e um marido morto, algemada aos pilares da cama como um cão vadio acorrentado ao poste de um quintal e condenado a morrer, sem ninguém notar nem lamentar, enquanto o dono cachaceiro passa trinta dias no xadrez municipal por dirigir sem licença e alcoolizado."

Toda a história é contada por um narrador onisciente e onipresente. Como está sozinha, a moça, Jessie, conversa com várias vozes do seu passado e presente. Uma amiga da universidade, sua versão da infância e também com um alter ego. Todas dando conselhos do que seria possível fazer naquela situação angustiante. Logo, vêm as cãibras, dores musculares, sede, fome, vontade de urinar, alucinações (ou não). Horrível. O livro não é curto, o que faz com haja algumas enrolações cá e lá para dar conta de todas as páginas. Para tanto, Jessie vai recordar de toda sua infância, adolescência, casamento etc. Um segredo guardado por toda a vida, e que sempre a atormentou, surge para tornar suas horas ainda piores.

"Devia haver uma lei obrigando as pessoas a tirarem uma carteira, ou pelo menos uma licença de aprendizagem, antes de poderem falar. Até passarem no Teste de Conversa, teriam de ficar mudas. Isto resolveria um bocado de problemas."

Você não vai querer largar a leitura até descobrir o desfecho desta encrenca em que a protagonista se meteu. Se bem que o fim poderia ter sido um pouquinho melhor. Mas a leitura não deixa de ser eletrizante.

Ilustração encontrada no blog Blood on Wax

Agora, o que realmente mexeu comigo não foi nem tanto o sofrimento de Jessie. Okay, fiquei com pena, sim. Mas há na história um cachorro abandonado que, de certa forma, passa a fazer companhia a ela. Não vou dizer aqui exatamente como, pois estragaria as surpresas do livro. Ocorre que tem um capítulo específico que vai detalhar a forma com que este cão foi literalmente jogado fora e em que condições ele surge. É de partir o coração. Um advogado o comprou por insistência da filha. Depois de algum tempo, a menina enjoou do animal. Como não concordava com a taxa municipal/estadual que precisaria pagar para manter sua guarda (parece que isso existe nos EUA), o pai aproveitou o desinteresse da filha e deu fim ao Príncipe (nome do cão). Ele foi largado numa estrada. Pelo retrovisor, o idiota do 'dono' ainda vê os olhos do animal acompanhando o carro. E tudo o que faz é assoviar, achando que o coitado do animal está melhor sendo livre. Resultado: em dois meses, o cachorro perde metade do peso, o vigor. Anda amedrontado e com muita, muita fome. 

Aqui estão alguns trechos que relatam a aparência dele. SK também entra nos pensamentos do animal, nos dando uma visão perfeita do que está passando. 
#nãocompre #adote #jamaisabandone

“O ódio e o medo do cachorro tinha desaparecido. Viu sua esqualidez e as bardanas presas no pelo embaraçado – uma pelagem fina demais para oferecer proteção contra o inverno que se aproximava. E, principalmente, viu a maneira com que ele se encolhia diante da luz, as orelhas caídas, o traseiro agachado. Não achei que fosse possível, pensou, mas acho que encontrei alguém ainda mais desgraçado do que eu.”

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

ex-príncipe

(Trechos extraídos de “Jogo Perigoso”, de Stephen King)


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Havia um movimento que vinha da parte traseira da forma sombria à porta: ele começara a abanar o rabo. Em um romance sentimental para mocinhas, o gesto provavelmente significaria que o vira-lata confundira a voz da mulher na cama com a voz de alguma dona que amara e perdera há muito tempo. Jessie não tinha ilusões. Cachorros não abanavam o rabo apenas quando estavam contentes; eles – como os gatos – também o abanavam quando estavam indecisos, quando tentavam avaliar a situação. O cachorro mal se encolhera ao som de sua voz, mas também não confiava na penumbra do quarto. Pelo menos, por enquanto.

O ex-Príncipe ainda não travara conhecimento com as armas, mas aprendera muitas outras lições espinhosas nas seis semanas ou pouco mais desde o último dia agosto. Nessa data, o sr. Charles Sutlin, um advogado de Braintree, Massachusetts, abandonara-o na mata para morrer em vez de leva-lo de volta para casa e pagar os setenta dólares do imposto municipal-estadual sobre cães. Setenta dólares por um canino de araque era uma grana muito alta na opinião de Charles Sutlin. Um pouco alta demais. Comprara um barco a motor para seu uso ainda em junho, verdade que fora uma compra de cinco algarismos, e só podia concluir que o governo andava maluco quando comparava o custo do barco e o imposto sobre cachorros – claro que podia, qualquer um podia, mas a questão era bem essa. A questão é que o barco fora uma compra planejada. Uma aquisição que passara dois anos ou mais na prancheta do velho Sutlin. Já o cachorro fora uma compra impulsiva numa barraca de hortaliças de beira de estrada em Harlow. Jamais o teria comprado se sua filha não estivesse junto e não se apaixonasse pelo filhote.

- Aquele, papai! – dissera apontando. – Aquele com a mancha branca no focinho, aquele que está de pé sozinho como um príncipe. – Então comprar o cachorrinho para ela – ninguém podia dizer que não sabia fazer a filhinha feliz –, mas setenta paus (talvez até cem se Príncipe fosse enquadrado na Classe B, cães de grande porte) era uma grana muito alta por um vira-lata que viera sem nem um atestadozinho. Grana demais, decidira o sr. Charles Sutlin quando se aproximou a hora de fechar o chalé no lago até o ano seguinte. Levá-lo de volta a Braintree no banco traseiro do Saab também seria uma aporrinhação – ia largar pelo no carro, talvez até vomitasse ou fizesse cocô no tapete. Sutlin poderia comprar uma casinha para transporte, mas aquelas belezas custavam mais de trinta dólares. De todo modo um cachorro como Príncipe não seria feliz em um canil. Seria muita mais feliz em liberdade, tendo toda a mata por reino. É, Sutlin dissera a si mesmo naquele último día agosto ao estacionar num trecho deserto de Bay Lane e em seguida convencer o cachorro a descer do banco traseiro. O velho Príncipe tinha o coração de vagabundo feliz – era só dar uma boa olhada nele para perceber isso. Sutlin não era nada burro e parte dele sabia que aquilo era uma baboseira conveniente, mas a outra parte também se animara com a ideia da coisa, e, quando embarcou no carro e se foi, deixando Príncipe na beira da estrada a segui-lo com o olhar, ia assoviando o tema de A História de Elza, a leoazinha, que entrecortava aqui e ali com um trecho da letra: “Naaasci liiivre... para seguir o meu coraçãããooo!” Sutlin dormiu bem aquela noite, sem sequer pensar no Príncipe (em breve, ex-Príncipe), o qual passara a noite enroscado sob uma árvore caída tremendo de frio, insone e faminto, ganindo de medo cada vez que uma coruja piava ou um animal se mexia na mata.

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O ex-Príncipe, com quem Catherina Sutlin, de 8 anos, em tempos brincara alegremente (pelo menos até ganhar de aniversário uma boneca caipira chamada Marnie e temporariamente perder o interesse nele), era parte labrador e parte collie... um mestiço, mas estava muito longe de ser vira-lata. Quando Sutlin o abandonara em Bay Lane no final de agosto, ele pesava 36 quilos e tinha o pelo macio e brilhante, uma mistura até bonita de castanho e negro (com a franja branca característica dos collies no peito e na garganta). Agora mal alcançava 18 quilos, e se alguém passasse a mão por seus flancos, sentiria cada costela esticada, para não falar na pulsação rápida e febril de seu coração. Uma das orelhas tinha um corte feio. A pelagem estava sem brilho, enlameada e cheia de bardanas. Uma cicatriz rosa quase fechada, lembrança de uma corrida por baixo de uma cerca de arame farpado, ziguezagueava por uma anca, e umas cerdas de porco-espinho projetava-se do seu focinho como bigodes tortos. Encontrar o bicho morto debaixo de um tronco havia uns dez dias, mas desistira depois de encher o focinho de espinhos. Sentira fome então, mas não desesperado.

Agora sentia os dois. Sua última refeição fora uns restos cheios de larvas que extraíra de um saco de lixo em uma vala que corria paralela à estrada 117, e isso fora dois dias antes. O cachorro, que aprendera rápido a trazer par a Catherine Sutlin a bola vermelha que ela atirava pelo piso da sala de estar ou do corredor, literalmente mal se aguentava em pé de inanição.

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O ódio e o medo do cachorro tinha desaparecido. Viu sua esqualidez e as bardanas presas no pelo embaraçado – uma pelagem fina demais para oferecer proteção contra o inverno que se aproximava. E, principalmente, viu a maneira com que ele se encolhia diante da luz, as orelhas caídas, o traseiro agachado. Não achei que fosse possível, pensou, mas acho que encontrei alguém ainda mais desgraçado do que eu.



Quantos ex-Príncipes não existem pelo mundo? Por isso, nunca abandone os animais. Jamais os compre. Adote. O amor deles é indescritível, incondicional. 

Veja abaixo excelente campanha de uma ONG francesa que trata desse assunto.