domingo, 28 de agosto de 2016

a caderneta vemelha


"Pode-se sentir a nostalgia daquilo que não aconteceu?"

Quando terminei a leitura de “A caderneta vermelha”, do francês Antoine Laurain, a primeira coisa que me veio foi a de que contos de fadas são possíveis. Basta estarmos atentos aos detalhes que a vida nos mostra diariamente. Muitos dos quais passam despercebidos. Impedindo, talvez, uma boa história de amor que, parafraseando o poeta Vinicius de Moraes, seja "infinita enquanto dure". Quem sabe?

E foi o que aconteceu ao livreiro Laurent Letellier. Durante uma caminhada ele vê uma bolsa feminina lilás em cima da lata de lixo em uma das calçadas de Paris. Com certo receio, resolve pegar o objeto e levá-lo à polícia para que a dona fosse encontrada. Mas na delegacia as coisas se mostram morosas e ele decide investigar o caso sozinho. Vai para a casa e começa a analisar tudo o que tem dentro da bolsa. Nada, porém, que o levasse aos dados da mulher que a perdeu. Chama sua atenção a caderneta vermelha com anotações pessoais, que trazem percepções da qual compartilha. 

Do outro lado, temos Laure, que levou uma pancada na cabeça durante um assalto na porta de sua casa. Nem preciso dizer o que vai acabar acontecer. Tudo se mostra previsível. Mas de forma gostosa e interessante. Outros personagens, como o amigo de Laure, a filha de Laurent e um gato, surgem como fadas madrinhas que vão trabalhar para o que o final seja feliz. Sem contar as boas referências literárias. Inclusive, autores entram como personagens, como o Nobel de Literatura, Patrick Modiano.

E assim, sem nenhuma discussão profunda, sem suspense, temos um romance que nos faz sorrir. Leitura rápida para aqueles dias em que tudo o que precisamos é um suspiro apaixonado. 

Frases

"Quantas coisas nos sentimos obrigados a fazer por princípio, por conveniência, por educação, que nos pesam e não mudam nada no curso dos acontecimentos?"

"Em outra prateleira exibiam-se os romances. Laurent encontrou ali muitos Modiano, tanto de bolso quanto em brochura. Só para verificar, tirou vários, e constatou que nenhum tinha dedicatória. Havia também livros policiais, ingleses, suecos, islandeses. Romances de Amélie Nothomb, vários Stendhal, dois Houellebecq, três Echenoz, dois Chardonne, quatro Marcel Aymé, Apollinaire inteiro, Nadja, de Breton, em edição antiga, O príncipe, de Maquiavel, em livro de bolso, e ainda uns Le Clézio, uns dez Simenon, três Murakami, mangás de Jiro Taniguchi. A ordem era totalmente aleatória, Poésis, de Jean Cocteau, era vizinho de Saga, de Toninho Benacquista, que, por sua vez, se encontrava junto de O banheiro, de Jean-Philippe Toussaint."

"Assim que pôs os pés na sala, experimentou aquela sensação que nos invade quando voltamos para casa após uma longa ausência. Os locais familiares estão como que restaurados do hábito que temos de olhá-lo e, em suma, de não mais os ver. Tudo parece intenso, à maneira de uma fotografia que tivesse recuperado as cores e os contrates originais."

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

a menina da neve

Mais um livro baseado em contos de fadas. Desta vez, "Snegurochka", do folclore russo. O enredo de "A menina da neve", da norte-americana Eowyn Ivey é bem parecido ao do conto: casal que não consegue ter filhos faz um boneco de neve que se transforma em uma menina que vai e volta conforme o frio. Muda a ambientação, que passa a ser o Alasca, fácil para a autora que mora lá. 
A adaptação, que foi finalista ao Prêmio Pulitzer, mostra Mabel e Jack nos anos 1920. Mabel teve um aborto e desde então não engravidou mais. Ela não consegue conviver com isso. Tanto que quer ir para um lugar onde não tenha vozes e passos de crianças. Nada melhor que o distante Alasca com suas florestas e rios congelados. Constroem uma cabana e passam a viver do que plantam. Eventualmente, Mabel ajuda no orçamento com suas tortas. Sem que ela queira, outro casal e seus filhos acabam entrando em suas vidas. Aos poucos ela se acostuma com a quebra de sua solidão. Até que em um dos raros momentos de felicidade, os dois brincam com a neve e criam uma menininha. Mabel coloca nela cachecol e luvas. Jack desenha cuidadosamente o rosto. No dia seguinte, o boneco está desmanchado. Conseguem ver apenas pegadas de uma criança saindo da propriedade. Mais tarde, passam a avistar uma menina junto com uma raposa, que logo tornam-se visitas frequentes. "Snegurochka" está em um livro que o pai de Mabel costumava ler quando era criança. Ela consegue com que a irmã o envie para o Alasca. Como sabe o fim da história, hesita em virar as páginas e encontrar o desfecho do sonho que está vivendo. Seria alucinação, a tal doença das montanhas, ou eles realmente estava diante de uma criança que vivia sozinha na floresta? 
Snegurochka está presente nas celebrações
de fim de ano na Rússia
O que mais gostei é que realmente sentimos frio ao ler o livro. Ele é congelante. Claro que está repleto de clichês e previsibilidades. Mas a mistura do real e imaginário não nos deixa largar o romance.
Foi por muito pouco que não o li. Ao folheá-lo na livraria, deparei-me logo de cara com o trecho em que eles comem carne de urso. Já fiquei tensa pensando no que mais eles comeriam. Resolvi encarar mesmo assim. E, de fato, eles comem de tudo. Ursos, alces, linces, cisnes, entre muitos outros bichos. Todos servidos com batatas, que parece ser a única coisa a dar naquele frio. Eles caçam, usam peles, penas. O livro é bem cruel nesse sentido, trazendo detalhes de como matavam e cortavam os animais. Jack e Mabel, contudo, também parecem não estar preparados para tanto sangue. Neles, seguro a leitura. Há momentos bonitos em que omitem a presença de determinado animal para evitar que seja caçado ou mesmo a proteção dada à raposa da menina. Sofrem ao terem que matar suas galinhas, todas com nomes. Decisão tomada para que elas não morressem de fome no inverno (?). Isso, porém, não os impede de comer carne, inclusive das pobres aves. O que reforça meu pensamento de que vemos os animais de várias formas distintas. Sem que uma comprometa a outra, infelizmente, para os bichos. 
Curiosa, fui ver se é possível para um vegetariano sobreviver nessas terras (ou geleiras). Sim, é. Inclusive, há associações até para veganos. Fiquei feliz. Resta saber se os 730 mil habitantes pensam da mesma forma.


"Ele nem sempre estava ali. Alguns dias Mabel atravessava a neve até o riacho atrás da cabana e o animal não se exibia. Era apenas um fio de água em meio à neve e ao gelo. Mas, se ela ficasse sentada, paciente e em silêncio, na base de um abeto, por fim ele aparecia. A cabecinha marrom aparecia numa abertura no riacho ou o rabo desaparecia num montículo de neve. 

Naquele dia de novembro, a lontra não a deixou esperando. Mabel ouviu o gelo se abrindo, um jato de água e ali estava o animal do outro lado do riacho. Ela esperou que a lontra corresse até um tronco ou que corresse com as costas curvas pelo barranco como sempre fazia. Em vez disso, ela parou à beira da água, virou-se e se levantou nas patas traseiras. A lontra era incrivelmente alta e se apoiava no rabo grosso, as patas da frente pendendo junto ao peito. Por um longo tempo a lontra a encarou com olhos que eram como turbilhões profundos. Depois ela ficou de quatro e sumiu no riacho. 

Até, dona lontra, até a próxima vez. 

......

Ela não falou sobre a lontra para ninguém. Garrett ia querer caçá-la, Faina pediria que ela a desenhasse. Mabel se recusava a prendê-la porque de certa forma pensava no coração da lontra. O músculo vivo se revirando sob o pelo brilhante e molhado. Irrompendo pelo gelo fino, nadando na água fria do riacho, deslizando de barriga pela neve. Alegre, apesar de tudo. 

Não era apenas a lontra. Mabel uma vez viu um coiote marrom acinzentado andando pelo campo com a boca semiaberta, como uma risada. Ela viu tagarelas-europeus que eram como sombras passando de uma árvore a outra, como se uma força maior orquestrasse seu voo. Ela viu um arminho branco correndo pelo celeiro com um rato gordo na boca. Sempre que via um animal, algo batia diferente em seu peito. Algo duro e puro."