sábado, 30 de julho de 2016

a rainha da neve


“O universo só pisca para aqueles
no quais ninguém acredita.”

O inverno começou bem frio este ano, ao contrário dos últimos anos. Se bem que as temperaturas baixas não duraram muito. Este fator, pelo menos para mim, é a grande desvantagem de quem vive nos trópicos. Paisagens de neve sempre me fascinaram. E, de repente, as livrarias trouxeram vários títulos com neve na capa. Queria todos. Eu já tinha "Neve", de Orhan Pamuk, que ainda não li. Decidi começar por outros dois. Um ganhei. Outro emprestei. "A rainha da neve", de Michael Cunningham, autor de "As horas", e "A menina da neve", de Eowin Ivey. Ambos trazem referências a contos de fadas. Neste post vou falar do romance de Cunningham.

"A rainha da neve" tem o título tirado do conto do dinamarquês Hans Christian Andersen, que também inspirou "Frozen", animação da Disney. No lugar de florestas encantadas, temos o Central Park, em Nova York, como cenário fantástico. E é ali, no meio do parque, que Barrett Meeks, que acaba de receber um SMS do namorado terminando a relação, vê uma luz celestial durante sua caminhada ao dentista. Aquilo o atinge de tal forma que o faz refletir sobre sua vida e, principalmente, sobre seus fracassos.

Ele mora com o irmão, Tyler, e a cunhada, Beth. Trabalha na loja da amiga Liz. Em comum, todos os personagens carregam a letargia. Eles têm sonhos, interesses, mas são incapazes de reagir aos obstáculos. Simplesmente deixam o tempo passar. Quando despertam, percebem que acumularam apenas frustrações. 

Tyler queria ser um astro do rock. Mas passa boa parte da vida consumindo drogas, sem nada produzir. Agora só quer escrever uma música que seja inesquecível, presente para a esposa que está morrendo. Beth tem câncer. Fraca, vaga pela casa como um espectro. Fantasma adorado pelos dois irmãos e que vai ressuscitar após a visão de Barrett. Para ele, um sinal de que tudo vai ser diferente e melhor. Liz coleciona namorados mais jovens e desinteressantes. Amores sem compromisso, sem riscos, sem ardor.

Tudo se passa entre 2004 e 2008, o que permite debates em torno da reeleição de Bush, em 2004, e a possibilidade de novo governo, com Obama, em 2008. Mesmo com a passagem de tempo, percebemos que nada muda na vida deles. Barrett também anseia por sua grande obra. Rascunha mentalmente o projeto recheado de aleatórias reflexões culturais, a Síntese de Absurdos, que nunca sairá do mundo das intenções. Aliás, há uma mudança. De casa. É nesse momento que descobrimos segredos e somos levados a outro patamar de dúvidas. Quem sabe este não seja o início que tanto almejam os personagens? Ainda não decidi se gostei ou não do romance. Fiquei empolgada com alguns trechos, mas de um modo geral foi uma leitura arrastada. Talvez a realidade, escancarada nesta suposta fábula moderna, seja mesmo difícil de engolir.