terça-feira, 15 de março de 2016

flush


Sinceramente, não sei o quanto Virginia Woolf gostava de animais. Mas o modo com que ela descreve os pensamentos de Flush é surpreendente. Quem tem cães, vai entender. Livro que merece ser relido no original. O mais bacana é que o cão existiu, embora ela não o tenha conhecido. Seu contato com ele se deu por meio de cartas trocadas entre os poetas Elizabeth Barrett (1806-1861) e Robert Browning (1812-1889). Poemas escritos por Elizabeth também serviram de inspiração.

Flush” foi escrito em 1933, mas retrata a época em que o cãozinho viveu. Interessante observar a crítica em relação à vida nas grandes cidades já naquela época. O comércio de animais de raça e suas consequências também estão presentes, como o roubo de cães, da qual nosso protagonista foi vítima. A descrição do que ele passou enquanto esteve preso é de partir o coração. Flush odiava Londres e todos os seus cheiros. Amava o campo. Lá ele podia correr, sentir o vento nas orelhas, ficar livre da coleira e da guia. No campo ele voltava a ser apenas um cachorro feliz. Não um cocker spaniel legítimo.

Sua história começa em um chalé inglês, onde nasceu. Passou os primeiros meses correndo de um lado para outro junto com outros animais, até ser doado, por sua dona, a poeta Mary Russell Mitford, para Elizabeth. Mesmo precisando de dinheiro e já tendo vendido outros cães, a Mitford não conseguiu fazer o mesmo com Flush.
"Vender Flush era impensável. Ele fazia parte daquela rara ordem de objetos que não se pode associar a dinheiro. Será que ele não era de um tipo mais raro ainda que, por incorporar tudo o que é espiritual e que se encontra além do preço, transforma-se em um símbolo perfeito para o desinteresse da amizade; e pode ser oferecido, sob este pretexto, para uma amiga que seja mais como uma filha do eu como uma amiga, se é que alguém tem sorte bastante para ter uma pessoa assim."
(Não, Flush nunca foi objeto). No dia em que é deixado na nova casa, ele se desespera ao ouvir os passos da dona se afastando. 
"As vozes cessaram. Uma porta fechou-se. Por um instante, ele parou, desnorteado, nervoso. Então, com a brutalidade do ataque de um tigre com as garras para fora, uma lembrança veio à sua mente. Sentiu-se sozinho - abandonado. Correu até a porta. Estava fechada. Arranhou-a com a pata, esperou. Ouviu passos que desciam. Sabia que eram os passos de sua dona. Pararam. Não - logo recomeçaram, e seguiram, escada abaixo. A Senhorita Mitford descia as escadas lentamente, com relutância, com pesar. E, à medida que avançava, à medida que o som ia ficando mais fraco, o pânico abateu-se sobre ele. Era uma porta sendo fechada depois da outra em sua cara à medida que a Senhorita Mitford descia as escadas; fechavam-se para os campos, para a liberdade, para as lebres; para a grama; para a sua adorada e venerada dona - aquela senhora tão querida que o banhara, que o repreendera com tapas, que o alimentara com comida de seu próprio prato, apesar de ela mesma não ter muito o que comer -, para tudo que ele conhecida como alegria, amor e bondade humana! Pronto! A porta da frente fechou-se em um estrondo. Ela o abandonara."
Rapidamente, ele entende que seu lugar é junto com Elizabeth, que na época vivia confinada em seu quarto por conta de uma doença. São raras as vezes em que sai de casa, ou mesmo desse cômodo. Por consequência, Flush tem que adaptar-se ao sofá, onde passa os dias. Ele aprendeu a amá-la e ela fez de tudo para retribuir este amor. Eram inseparáveis. E eu diria que fisicamente parecidos. Vi uma foto dela e seus cachos lembravam as orelhas de Flush. O livro é totalmente do ponto de vista do cachorro, sabemos apenas o que ele vê e sente. Nos poucos passeios que faz pelas ruas de Londres, tudo ele observa. São hilárias as comparações feitas com os outros cães.
"Logo Flush descobriu que os cães de Londres estão estritamente divididos em classes distintas. Alguns são cães com coleira; alguns andam soltos. Alguns saem para passear em carruagens e bebem água em potes vermelhos; outros não são tratados, não têm coleira e tiram seu sustento da sarjeta."
Quando Robert passa a visitar Elizabeth, ele se rebela, pois deixa de ser o centro das atenções. Mas é justamente esse relacionamento que vai levá-lo aos seus melhores dias. Eles fogem para a Itália. Lá Flush tem a liberdade de passear sozinho, de fazer amizades, de namorar. Aliás, ele tinha várias namoradinhas. E uma grande paixão, que conheceu durante uma manifestação. Passa ainda por outra crise de ciúme com a chegada de um bebê. Nas palavras de Elizabeth "... durante uma quinzena inteira, afundou-se em uma profunda melancolia e mostrou-se avesso a qualquer atenção que lhe fosse dispensada." Passou, porém, e Flush descobriu que ambos tinham muito em comum. O fim não poderia ser mais lindo.

Elizabeth Barrett Browning and her cocker spaniel Flush, por James Edwin McConnell

Recomendo muito essa leitura. E aproveito para dizer: jamais compre animais. Isso aumenta o abandono. Querer um cachorro porque ele é de tal raça é egoísmo. É acreditar que os animais são produtos. Você pode até amar o cachorro, gato ou passarinho que comprou. Mas entenda que contribuiu para esse terrível negócio, que muitas vezes termina com os animais sendo seriamente machucados. Basta dar uma olhada nas ruas e nos abrigos. Reflita. Adote. Ame menos suas vontades e mais a vida de todos.

2 comentários:

  1. Kátia, obrigado por insistir na atitude certa, com relação à compra de cachorros.

    Que pintura bonita essa que você colocou aqui. Me falta vocabulário artístico pra dizer porque gostei tanto da imagem. Mas estou baixando e guardando aqui no meu acervo.

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  2. A pintura é linda. E representa bem o livro. Não conheço o artista, mas soube captar muito bem a relação dos dois :-)

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