terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

para ver inglês


Cotswolds

Comecei a ler “Os catadores de conchas”, de Rosamunde Pilcher. O romance é ambientado na Inglaterra e nas primeiras páginas deparo-me com o nome de uma região: Cotswolds. Curiosa por ver as paisagens que vêm desse país, fiz a busca na internet. Quando vi as imagens, suspirei. Interessante como há lugares com os quais nos identificamos. Campos verdes, construções antigas, ruas estreitas. Exatamente a imagem que tenho do Reino Unido. Desde criança, sempre tive o sonho de conhecer a Inglaterra. Tanto que quando me formei, esse foi o meu presente: um intercâmbio em Brighton. A cidade foi escolhida sobretudo por não ser Londres. Não que eu não goste dessa capital, muito pelo contrário. Mas eu sempre me vi viajando pelas estradas que levam ao interior ou litoral inglês. E ainda hoje, depois de tanto tempo, ainda lembro exatamente a sensação que senti. Tudo era do jeitinho que eu havia pensado. Da janela do ônibus, com mesas, que peguei naquele primeiro dia em solo britânico, entre uma conversa e outra que ouvia e não conseguia entender pelo sotaque carregado, eu apreciava os campos, os carros na direção contrária. Era dezembro, o dia estava ensolarado, mas muito frio. Ideal. Perfeito. Melhor que isso, só ter chegado ao destino: uma casa linda, com papel de parede, escada, sótão e muitos, muitos detalhes que a tornavam aconchegante e muito parecida com uma casinha de boneca. Como não suspirar diante das lembranças que a literatura proporciona?

Eu facilmente me imagino morando aqui

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Meu contato com o inglês começou por meio de uma série de LP´s antigos que havia na casa dos meus pais: Curso Pop Music de Inglês, da editora Abril com consultoria da Cultura Inglesa. Eu tinha doze, treze anos quando me interessei por eles, na época já eram velhos. As aulas consistiam em acompanhar a letra das músicas, ler algumas dicas sobre gramática, treinar a pronúncia e fazer os exercícios. Tudo estava no encarte do disco. Uma delícia. Lá conheci "Lucy in the sky with diamonds", "Hello, goodbye", entre outras canções dos Beatles e de muitas bandas e cantores das décadas de 60 e 70. Os intérpretes não eram os originais, mas só descobri depois. E eu fazia tudo direitinho. Tanto que pedi para meus pais os Cursos de Idiomas Globo, que vinham com um fascículo e uma fita cassete. Compraram kits de inglês e alemão. Os de inglês eram todos ambientados na Inglaterra, o que contribuiu para meu apego ao sotaque britânico, aos campos verdes e à boa música. Ainda hoje me lembro dos diálogos que havia nesses cursos. Fecho os olhos e ouço as personagens falando: "- Why didn´t you consult me? - I didn´t want to waste your time, it was a very straightforward decision." Este é apenas o começo de um deles, que continua completo na minha cabeça. Incrível como guardamos certas coisas. Nada como aproveitar tudo o que está à nossa disposição. Saudades de uma época frutífera e que o compromisso era unicamente ser movida pela curiosidade e pela imaginação. Mas será que não podemos sempre seguir assim? ;-) 


6 comentários:

  1. Excelente texto que apresenta o retrato exato da Inglaterra. Realmente, um momento bom de nostalgia. So pleasant place. Quero ler o livro também.

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  2. O prazer da beleza e o prazer das memórias!

    Sobre o papel de parede, e os muito detalhes que você comenta: a Inglaterra é bem assim, né? Dedicam bastante atenção aos detalhes para que as coisas fiquem bonitas.

    Eu lembro da reação de dois amigos americanos que me visitaram na Inglaterra em datas diferentes. A primeira, depois de alguns dias por lá, observando os muros das residências, das igrejas e das lojas, e também as calçadas e as ruas, disse: "eles não podem fazer nada simples?" Ela se referia ao fato de que você raramente vê uma parede lisa. Sempre vai ter um relevo, ou uma arte de tijolo, ou uma variação de cor...

    O outro americano foi mais ou menos na mesma direção. Reparou bastante nos jardins, nos portais, nas portas, e disse: "tudo em que eles encostam precisa ter um elemento artístico. Tem muita atividade intelectual acontecendo aqui."

    O mesmo é verdade para a comida. Eu não gosto muito dos sabores. Mas seja uma torta, uma salada, um sorvete ou uma fritura, a refeição sempre vai vir bem apresentada.

    E a fala dos ingleses vem adornada também. Se você faz uma pergunta pra eles e a resposta é não, eles não conseguem simplesmente dizer "não." Sempre vai vir algo como "temo que não" ou "acredito que não foi desta vez", ou "é nesse ponto que eu acredito que eu discordaria de você."

    Pra onde você olha, tem beleza, porque é do comportamento da nação caprichar em cada passo. É um país acostumado a enfeitar os aspectos da vida. Você pisa lá e sente isso na hora.

    Agora é muito interessante também esse ponto da i-d-e-n-t-i-f-i-c-a-ç-ã-o que você fala. O Alain de Botton, por exemplo, foi criado na Inglaterra, e diz em um livro dele que ele se identifica muito mais com Amsterdan, justamente pela ausência de tanta sofisticação e detalhes. Ele diz que gosta da aparência mais modesta do lugar em comparação com a Inglaterra. Como se a cidade estivesse tentando viver em um meio termo financeiro, sendo bonita e simples. Ele olha pra Inglaterra, para os detalhes, percebe tudo isso, mas não sente a mesma satisfação.

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  3. Sobre os LPs pra treinar inglês: tenho uma memória parecida! Era uma fita de vídeo que o meu colégio recomendava. Assisti tanto, mas tanto, mas tanto aquilo! (rs). Na verdade, eu e meu irmão. Ele com dois anos, e eu com oito. Ao escrever isso me dou conta de que a nossa fluência na língua pode muito bem ter sido desencadeada por aquilo, em uma época em que o cérebro era tão plástico.

    Segue o videozinho: https://www.youtube.com/watch?v=PQtBrdWlxHI

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    1. Muito obrigada pelo seus comentários. Eles complementaram o post. Adorei! :-)

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