segunda-feira, 21 de setembro de 2015

um elefante no meu jardim

Se quiserem ler um livro que fala verdadeiramente sobre o amor, eu recomendo “Um elefante em meu jardim”, do inglês Michael Morpurgo.

Tem os clichês de todos os romances ambientados durante a segunda guerra mundial, como o amor entre a mocinha e o soldado inimigo, a destruição, a fuga dos sobreviventes. Mas traz algo diferente: o olhar dos animais. Especialmente do olhar de uma elefanta de quatro anos, Marlene. Ela nasceu no zoológico e, após a morte de sua mãe, entrou num profundo luto, como fazem os elefantes. Ocorre que sua tratadora, Mutti – diminutivo de mãe em alemão – tem grande afeição pelo animal e passa a tratá-la como filha. 

Ela própria tem dois filhos, Lizzie e Karli. O marido foi convocado pelo exército alemão e está na Rússia. Sozinha com as crianças, além da preocupação em mantê-los vivos, precisa salvar Marlene, já que o diretor do zoológico avisou que todos os animais seriam sacrificados quando os alarmes de ataques aéreos soassem. E isso estava cada vez mais próximo. Eles moram em Dresden, que foi bombardeada nos últimos meses da guerra. Antes, porém, Mutti já tinha encontrado a solução. Levou Marlene para morar no jardim da casa, e juntos atravessaram a Alemanha para escapar dos mísseis. Toda essa história é contada anos depois pela filha mais velha, Lizzie, que na época tinha dezesseis anos, e que agora vive em um asilo. 

A todo momento, a elefanta parece conversar com eles. Entende suas aflições. Ouve suas confissões. Rende momentos de risos quando faz cocô e é o que mantém todos confiantes, mesmo quando não têm abrigo ou o que comer. 

Mas tem lá seus antagonismos. O elefante é identificado como animal de circo. Isso fica evidente na passagem em que Lizzie recebe um cartão de aniversário com recortes de elefantes rodeados de elementos circenses, e outros animais, que ilustram supostos dias felizes antes da guerra. Ideia que será retomada no fim do livro que, aliás, me deixou a pensar em "Life of Pi" e seu desfecho. Também há o momento em que o irmão caçula de Lizzie está cansado e todos decidem que ele deverá ir no lombo de Marlene, pois está no 'sangue' dela, já que sua mãe passou anos levando crianças para passear no zoológico. Enfim, felizmente, predominaram no texto o respeito, a gratidão e a certeza de que precisamos de mais histórias assim.

Deixo para vocês a passagem mais linda, quando Lizzie encontra o olhar de Marlene. E é isso.

“Fiquei segurando o lampião enquanto a Mutti espalhava um pouco de palha aos pés da Marlene. Mas mantive distância da elefanta. Talvez porque ela fosse enorme demais, não sei como, porém ela parecia bem maior agora em nosso depósito de madeira do que no zoológico. Mas acho que eu estava nervosa, porque ela me olhava de uma maneira que eu achava um tanto incômoda e desagradável. A elefanta não olhava para mim, mas para dentro de mim. Por isso eu sabia que a Marlene conseguia ver o ciúme que eu estava sentindo por conta da intimidade dela com Karli. Porém comecei a perceber que ela não estava me julgando. Ninguém jamais tinha me olhado tão fixamente daquele jeito, que só posso descrever como um olhar repleto de curiosidade, bondade e amor. Assim, qualquer ressentimento que eu pudesse ter sentido contra Marlene desapareceu durante aquela primeira noite no depósito de madeira.”

Amor materno. Foto: Anda

Sobre circos, zoológicos e elefantes

Eu sempre fui contra zoológicos. O mesmo vale para circos. Não me interessa a opinião daqueles que têm algo positivo a falar tanto sobre um como outro. Ambos maltratam, sim, os bichos. Digitem “elefantes de circo” no Google e vejam se as imagens mostram animais felizes naquelas condições. Ou fiquem presos em jaulas num ambiente que não é o seu, sendo observado por uma plateia cheia de olhares vazios. Depois voltamos a conversar. 

Links:

domingo, 20 de setembro de 2015

jimmy´s hall (e o cavalo invisível que o acompanha)

Já faz algumas semanas que assisti a um filme bem bacana: “Jimmy´s Hall”, de Ken Loach. Conta a história real do irlandês James Gralton, revolucionário socialista que entra em conflito com a igreja católica por conta do estabelecimento que abre, um salão no qual as pessoas podem ler, cantar, dançar e discutir assuntos além dos que são permitidos pelo padre. Resultado: por duas vezes é expulso do país. Na primeira ainda é ‘perdoado’ e retorna, o que não acontece da segunda vez, quando é mandado definitivamente para os Estados Unidos. 

Enfim, o filme é bem produzido, bem interpretado. Eu consegui ter uma boa ideia da época em que é retratado, por volta de 1930. Vale sobretudo pela trilha sonora, que mescla canções tradicionais irlandesa com o jazz, que Jimmy trouxe de sua primeira viagem ao exterior.

Mas o que me motivou a escrever sobre o filme não foi nada disso. Foi o cavalo que aparece em praticamente todas as cenas. Para mim o paradoxo da liberdade que os personagens ativistas tanto pedem. Quem tem o direito de manter quem preso a rédeas, afinal? No filme e na época tratada, a igreja católica parece ter este direito ao limitar o acesso cultural da população local. Ao impedir que as pessoas possam ir e vir de acordo com seus desejos. Ao mesmo tempo, todos utilizam o animal para seus interesses pessoais. 

Jimmy retorna à sua casa depois de um longo tempo em uma carruagem. Quando chega, percebemos a dificuldade com que o amigo que o acompanha tem para descarregar sua bagagem. Eu mal consegui acompanha a passagem, pois estava a imaginar o esforço do cavalo ao subir as ladeiras irlandesas com a carroça, os dois homens e todos os seus pertences. Baseado em fatos reais, lembram?

Mais adiante, uma família é desabrigada. E todos se unem para fazer com que a propriedade seja devolvida. Para isso, mais uma vez está lá o cavalo com sua carroça repleta de móveis.

E assim em praticamente todos os momentos. Onde tem um homem reivindicando seus direitos ou chorando por suas perdas ou comemorando vitórias, o animal o acompanha. Invisível para todos,  já que em nenhum momento é mencionado, embora esteja sempre presente. Cabisbaixo, pois mesmo sendo tudo cenas, sabe que está preso. Pior, sabe que lá representa o que muitos ainda vivem. E sem nenhuma partido ao qual se afiliar ou recorrer. Políticas do homem.

Cenas iniciais com Jimmy retornando à Irlanda após dez anos nos Estados Unidos



O salão de Jimmy


A carga que carrega


Devolvendo à uma família sua casa


Cenas finais. Todos se despendido de Jimmy.


Há outros animais na filmagem. Abaixo, um burro de carga e bois.




















Todas as imagens foram extraídas do trailer oficial do filme.

domingo, 13 de setembro de 2015

queria que você estivesse aqui


Don't be sad, I know you will 
But don't give up until 
True love will find you in the end 
This is a promise with a catch 
Only if you're looking, can it find you 
'Cause true love is searching too
(trecho de 'True love will find you in the end', de Daniel Johnston, citado no livro)


E mais um dia com temperatura baixa. Estou feliz com esta súbita frente fria no fim do inverno que nunca chegou. 

Aproveitei para entrar ainda mais no clima com 'Queria que você estivesse aqui', do espanhol Francesc Miralles. O título é uma homenagem à música de Pink Floyd. Assim como os outros dois livros desse autor que li ('Amor em minúscula' e 'O melhor lugar do mundo é aqui'), traz inverno, pessoas sozinhas, animais de estimação, muitas referências literárias e musicais. 

Aqui, além da canção da banda norte-americana, o fio condutor é a história de 'O jardim secreto', de Frances Hodgson Burnett, obra infanto-juvenil de 1911, no qual uma orfã vai para a casa do tio e lá se encanta por um jardim proibido. Também é o que acontece com Daniel, o nosso narrador protagonista. Na noite em que comemora seus trinta anos, leva um fora da namorada e ganha um CD de uma amiga. Desnorteado com o fim do relacionamento de sete anos, tranca-se em casa e ouve o álbum que ganhou, da canadense Eva Winter (olhe o inverno aí de novo). Espantado, percebe que as letras narram sua própria vida. Inclusive seu desejo de ir para a Islândia (e o meu).

O Natal está chegando e na falta de algo melhor para fazer, arruma as malas e parte de Barcelona para Paris atrás da enigmática cantora que parece ter vivido as mesmas experiências que ele. Há um show marcado para os próximos dias na capital francesa e ele não resiste ao desejo de bater um papo com Eva e descobrir por que ambos têm tanto em comum.

Mas no meio de tudo isso, encontra o tal livro do jardim e passa a trocar mensagens com alguém que se faz passar pela personagem Mary, a orfã que já comentei. Infelizmente, eu já sabia o que estava por trás dessa fantasia. Tudo muito óbvio. Contudo, não deixa de ser uma leitura aconchegante. Justamente o que procurava para ler sob as cobertas.

"Quando tudo perde o sentido para alguém, só lhe restam duas alternativas: se aniquilar ou aniquilar o mundo que o cercou até então, dinamitar seu velho lar para procurar um novo."

sábado, 12 de setembro de 2015

dias nublados





E hoje eu era a única na praia. Corri por toda a orla tendo como companhia apenas os pássaros e um ou outro cachorro. Chuvisco. Nuvens.

Enquanto corria, lembrava de alguns livros em que as personagens correm. Como "Para sempre Alice" e "O lado bom da vida". De alguma forma, sempre associo a corrida a dias assim. Frios. Quando não posso estar nesse clima, fico feliz em me imaginar em tal cenário. Por meio da literatura. Por meio dos livros. 

Mas hoje eu estava lá. Sozinha.

Algumas ideias surgiram. Pistas para o doutorado. Ainda estou entre duas áreas. Formas distintas de abordar os animais. Suas representações. Mas o vento me trouxe títulos, autores, possibilidades.

Tempo fechado para mim é sempre inspirador :-)