domingo, 30 de agosto de 2015

para sempre alice



"Pensou nos livros que sempre quisera ler, os que adornavam a prateleira superior da estante de seu quarto, aqueles para os quais havia imaginado que teria tempo depois. Moby Dick. Alice tinha experimentos a conduzir, artigos a escrever e palestras a dar e a que assistir. Tudo o que fazia e amava, tudo o que ela era, exigia a linguagem."

Sonhei que precisava terminar "Dom Quixote" rapidamente ou não conseguiria mais lê-lo. Isso foi culpa de "Para sempre Alice", primeiro romance da neurocientista e escritora Lisa Genova, que escreveu outros três, sempre tendo problemas da mente como tema. Seu livro de estreia me conquistou. Profundamente. Tanto que quando terminei, voltei e reli o epílogo. E, na sequência, assisti ao filme que ele originou. Aliás, vale pela interpretação de Julianne Moore. Mas não substitui a leitura :-)

É a história de Alice, renomada professora de Harvard. Uma palavra esquecida aqui, um compromisso perdido ali, por alguns momentos sem ter noção de onde está e descobre que, aos cinquenta anos, tem o Mal de Alzheimer de instalação precoce. Algo raro, mas que avança rapidamente. O livro abrange exatos dois anos e é dividido por meses. De forma linear, mostra a evolução da doença, desde os primeiros sinais. Eu me envolvi tanto que praticamente me coloquei na pele da protagonista. O desespero com que recebeu o diagnóstico, a tentativa de manter a mente alerta, o sofrimento por ter de abrir mão de suas aulas, o inconformismo por ser especialista em linguagem e dia após dia perder a capacidade de se expressar. 

Ainda consciente de seus atos, deixa orientações para quando a Alice de logo mais não souber mais as respostas para perguntas que formulou, e que aparecem todos os dias em seu Blackberry. Precaução de quem conhece muito bem os últimos estágios. Torci para que tudo saísse como planejado.

Acompanhamos a revolta e o desejo de poder trocar o Alzheimer pelo câncer, doença que não exclui, mas que permite batalhas. Ganhando ou perdendo sempre teria apoio. Por fim, sua entrega. Suave. Sozinha. 

"Alice voltou para casa andando devagar, apreciando o aroma do ar frio de outono e o chiar estalado que seus pés produziam ao pisar nos montes de folhas caídas no chão."

O livro é delicado, não traz aquele apelo comum às narrativas que tratam de doenças. Não estamos aqui para sentir pena de Alice, mas para sentir o que ela sente. E é exatamente isso que fazemos na bela passagem em que ela mata o dia de aula para tomar um sorvete e relembrar seu percurso, sua rotina. A família e seus dilemas também estão presentes, mas de maneira distante, sem comprometer o enfoque que é dado às suas sensações. Seu marido, também pesquisador de Harvard, insiste na busca por uma droga que poderá retardar o desenvolvimento da doença, enquanto a todo momento gira a aliança no dedo e dá um sorriso desanimador. Li ou ouvi em algum lugar que quando giramos a aliança é porque algo nela nos incomoda. Será que podemos culpá-lo?

Seus três filhos tentam aceitar. E cabe à caçula, com que ela tem certo atrito, compreender realmente o que se passa dentro da mãe. Belissimo. Recomendado.

"Meus ontens estão desaparecendo e meus amanhãs são incertos. Então, para que eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente. Num amanhã próximo, esquecerei que estive aqui diante de vocês e que fiz este discurso. Mas o simples fato de eu vir a esquecê-lo num amanhã qualquer não significa que hoje eu não tenha vivido cada segundo dele. Esquecerei o hoje, mas isso não significa que o hoje não tem importância."

Mais trechos

"Ela o fitou diretamente nos olhos. Uma vez, um colega lhe dissera que o contato visual com outra pessoa por mais de seis segundos, sem desviar os olhos nem piscar, revelava um desejo sexual ou homicida. Pensando bem, Alice não acreditava nisso, mas era algo que a havia intrigado o bastante para que o testasse com vários amigos e estranhos. Curiosamente, com exceção de John, um dos dois sempre desviava os olhos antes de terminarem os seis segundos."

"Gostava de coisas que lhe lembrassem borboletas. Recordava-se de um dia, aos seis ou sete anos, em que havia chorado no quintal pelo destino dessas criaturas, ao saber que elas só viviam durante alguns dias. A mãe a havia consolado, dizendo que não ficasse triste pelas borboletas, porque o simples fato de a vida delas ser curta não significava que fosse trágica. Vendo-as voarem ao sol quente em meio às margaridas do jardim, a mãe lhe dissera: “Está vendo? Elas têm uma vida linda.” Alice gostava de se lembrar disso."

"Desejou estar com câncer. Trocaria o mal de Alzheimer pelo câncer sem pestanejar. Envergonhou-se de desejar isso, o que decerto era uma barganha inútil, mas, ainda assim, permitiu-se fantasiar. No câncer ela teria algo a combater. Havia a cirurgia, a radioterapia e a quimioterapia. Haveria uma possibilidade de que ela vencesse. Sua família e a comunidade de Harvard se uniriam a sua batalha e a considerariam nobre. E, ainda que no fim ela fosse derrotada, poderia olhá-los nos olhos, consciente, e se despedir antes de ir embora."

"E, enquanto a cabeça careca e uma fitinha na lapela eram vistas como insígnias de coragem e esperança, o vocabulário relutante e o desaparecimento das lembranças prenunciavam a instabilidade mental e a loucura iminente. Os pacientes de câncer podiam ter a expectativa de receber apoio de suas comunidades. Alice tinha a expectativa de ser banida. Até as pessoas bem-intencionadas e cultas tendiam a manter uma distância temerosa dos doentes mentais. Ela não queria transformar-se numa pessoa evitada e temida pelas outras."

"Sejam criativos, sejam úteis, sejam práticos, sejam generosos e acabem em grande estilo."

"Ele girou a aliança no dedo e deu um sorriso desanimado"


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

bruxa da noite e feitiço da sombra

Sabe a sensação de tempo perdido? Pois ela só não foi maior por conta das paisagens irlandesas. As capas da trilogia "Primos O'Dwyer" de Nora Roberts são lindas. Mas é só. Parece que Nora designou o trabalho a seus estagiários (sem ofensa aos estagiários). Na verdade, eu li os dois primeiros volumes porque precisava de uma leitura leve e ambos me foram emprestados, juntos, com este propósito. O terceiro ainda não chegou ao Brasil, mas já dei uma olhada em alguns comentários no site da Amazon e posso dizer que já sei o final. Quem sabe eu não o leia em inglês para fechar o ciclo e ver se a escrita é mesmo ruim ou se a tradução para o português brasileiro é que foi péssima, com vocabulário pobre. Vale dizer que os livros um e dois estavam cheios, mas cheios de erros de revisão. Como trocar prima por primo e avó por bisavó. Apenas para citar alguns deslizes que percebi mesmo sem ter tido acesso ao texto original. Fora os erros de português e de digitação. Uma pena, pois sei que muitas pessoas estão lendo essa série, que fala sobre bruxas e bruxos.


"A bruxa da noite" é o primeiro. A história começa lá em 1200 com uma bruxa que só pensa no seu 'homem'. É um tal de meu 'homem' pra cá, meu 'homem' pra lá que irrita. O homem morre, a mulher vai lutar com Cabhan, o bruxo que o matou, e perde, deixando três bruxinhos órfãos no mundo. 

Eles reencarnam nos dias atuais. Agora são dois irmãos irlandeses, Branna e Connor. Para se juntar a eles, surge do nada, enviada pela avó bruxa (rá!) a norte-americana Iona. Chata, intrometida e metida a falar o que pensa, o que para mim é desculpa para o fato de ser folgada. Sem rodeios, vai morar na casa dos supostos primos-irmãos de outra era, arruma também um 'homem', o não-bruxo Boyle, e por lá fica aprendendo feitiços. Há ainda um quarto bruxo, o Finn, e mais uma não-bruxa, a Meara. 

Seis amigos que passam o dia comendo, bebendo e pensando em maneiras de destruir Cabhan. Fiquei o tempo inteiro torcendo para que um deles fosse do mal e desse um pouco de surpresa à história. Mas que nada. Tudo como previsto. Esse primeiro volume, além de apresentar os personagens, foca no romance da mala da Iona com o sem graça do Boyle. Melaço. Amor à primeira vista, desentendimento por frescura da mocinha e final feliz.

Claro que, apesar das lutas, voos e cantos, o bruxo do mal não sucumbe, surgindo firme e forte no segundo volume. Os mesmos bla bla bla. Feitiços. Vinhos. Cervejas. Refeições para seis feitas a todo momento pela coitada da Branna, a mais agradável dos seis. Bem, o Finn, que quase não abre a boca, também é simpático. Em "Feitiço da Sombra" o foco amoroso vai para Connor e Meara. Mesmo melaço. Sei que "Blood Magick" vai falar de Branna e Finn. Esqueci de dizer que ele descende do Cabhan. Talvez alguma reviravolta, mas como disse antes, já vislumbro o final e não há esperança para ele ser o vilão disfarçado. So sorry.
Gostei muito dos animais, o cachorro de Branna, o gavião do Connor e o cavalo da insuportável Iona. Esse, sim, um trio que merece todo o meu respeito ;-)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

moby dick

A grande baleia apenas queria seguir seu caminho

Aquelas ilhas rochosas ultrapassadas pelo navio eram refúgio de grande número de focas e provavelmente alguns filhotes que haviam perdido suas mães e algumas mães que haviam perdido seus filhotes deviam ter se aproximado do navio, acompanhando-o durante algum tempo, chorando e soluçando com seu peculiar lamento quase humano.


Em 2014 eu me propus a ler clássicos da literatura mundial. Fiz a lista e resolvi começar por aquele que as pessoas consideravam mais chato. Deu ‘Moby Dick’, de Herman Melville. Claro que não entrevistei centenas de pessoas. Para ser sincera, perguntei para menos de meia dúzia. Mas não deixa de ser referência.

Comprei a versão bilíngue no formato digital e preparei-me para o pior. O livro abre com ‘Etimologias’, que traz os diversos nomes das baleias em todos os oceanos. Bem pesado.

Mas logo vieram as ‘Quimeras’ ou ‘Miragens’ (dependendo da tradução) do marinheiro Ishmael e eu me diverti muito com suas divagações. Fala sobre sua ânsia de novamente estar em um navio. Tanto que está disposto a fazer qualquer coisa, até mesmo trabalho considerado escravo. “Quem não é escravo? Dize-me”, questiona. Ele fala sobre a magia que envolve a água e do desejo do ser humano de estar sempre perto dela. Isso me lembra o trânsito nos feriados prolongados. Para onde todos vão? Para onde? “Coloca esse homem em pé e estimula-o a caminhar e infalivelmente seus pés o levarão à água, se houver água nessa região.” 

Desconsiderando as ‘Etimologias’, digo que esse é o início de livro mais bonito que já li.


“Trate-me por Ishmael. Há alguns anos – não importa quantos ao certo –, tendo pouco ou nenhum dinheiro no bolso, e nada em especial que me interessasse em terra firme, pensei em navegar um pouco e visitar o mundo das águas. É o meu jeito de afastar a melancolia e regular a circulação. Sempre que começo a ficar rabugento; sempre que há um novembro úmido e chuvoso em minha alma: sempre que, sem querer, me vejo parado diante das agências funerárias, ou acompanhando todos os funerais que encontro: e, em especial, quando minha tristeza é tão profunda que se faz necessário um princípio moral muito forte que me impeça de sair à rua e rigorosamente arrancar os chapéus de todas as pessoas – então percebo que é hora de ir o mais rápido possível para o mar. Esse é o meu substituto para a arma e para as balas. Com garbo filosófico, Catão corre à sua espada; eu embarco discreto num navio. Não há nada de surpreendente nisso. Sem saber, quase todos os homens nutrem, cada um a seu modo, uma vez ou outra, praticamente o mesmo sentimento que tenho pelo oceano.”

Só não gostei dessa colocação: “Esse é o meu substituto para a arma e para as balas
”. Há armas no mar, sim, Ishmael. 

E lá vai ele para seu encontro com as águas. Sua primeira parada é em New Bedford, no estado norte-americano de Massachusetts. Lá se instala numa hospedaria bem ruim. O dono logo avisa que terá que dividir a cama com outro hóspede. Sem ter mais opções, aceita. No recinto percebe que a outra pessoa ainda não havia chegado. Aliviado, dorme. Acorda assustado com uma figura enorme e toda tatuada. É Queequeg, arpoador selvagem da Nova Zelândia, que surge com seus rituais e deixa Ishmael morrendo de medo. Ri horrores quando Queequeg deita com ele como se nada demais estivesse acontecendo. Talvez não estivesse mesmo. Tudo é percepção e cultura, afinal. Ficam amigos e juntos vão para Nantucket, importante porto baleeiro, e conseguem embarcar no Pequod com a promessa de alguns anos em alto mar.

Daí acabam suas passagens e Ishmael passa a ser apenas o observador (e narrador) do que acontece no navio. As atenções são todas voltadas para Ahab, o capitão, e seus três comandantes, Starbuck (daí o nome da famosa franquia de café), Stubb e Flask. Na verdade, o mote do livro é o desejo de Ahab de se vingar da grande baleia Moby Dick, que lhe arrancou uma perna. Mesmo que os tripulantes tenham seus motivos particulares para estarem no Pequod, o que os guiará será o sentimento destruidor de Ahab. 

Durante toda a leitura fiquei curiosa em relação ao nome Moby Dick. A única informação que encontrei foi que sua origem pode ter vindo do artigo Mocha Dick: Or The White Whale of the Pacific: A Leaf from a Manuscript Journal, publicado em 1839 pelo editor de jornais norte-americano Jeremiah Reynolds, relato da captura de um enorme cachalote que afundou vários navios. Moby porque o animal era frequentemente visto perto da Ilha Mocha, no Chile. E Dick por ser nome comum. Mas são especulações.


O livro tem 135 capítulos. A história, embora seja linear, traz diferentes narrativas: pensamentos filosóficos, peças teatrais, passagens da Bíblia, sermões, explicações sobre os produtos extraídos dos cachalotes. Por vezes até nos esquecemos que tudo é sob o ponto de vista de Ishmael, das coisas que viu e ouviu. Algumas partes são bem maçantes, como aquelas em que a anatomia das baleias é detalhada. Senti-me em minhas aulas de biologia no ensino médio, tal a forma com que eram descritas suas estruturas. Ou quando cada equipamento dentro do navio é detalhado: a linha, o arpão, a perna artificial de Ahab e até um caixão (prestem atenção nele).

A obra não foi bem aceita durante seu lançamento. Consideraram a narrativa extravagante. Somente anos depois é que viria a ser considerada importante. Marcou ainda a decadência de Melville, até então um escritor em alta. Faz parte do romantismo norte-americano, mas com o pé no realismo e é baseado na história real de um navio que afundou após ser atingido por uma baleia. Parece que próprio Melville foi marinheiro, o que explica o tom didático de muitas passagens.

Há várias interpretações para esse texto, algumas dizem que o desejo de matar Moby Dick é, na verdade, a revolta contra a sociedade da época, marcada pela escravidão, novos arranjos comerciais e muitos latifúndios. Até análises freudianas tentaram explicar suas entrelinhas. Eu vejo de outra forma. É possível traçar as várias percepções em relação aos animais. Há de tudo: o animal como produto, o animal como selvagem, o animal como criatura de Deus, o animal como interlocutor, como inimigo e como esperança. Houve momentos em que vislumbrei respeito pelos bichos. Mas o antropocentrismo reina, basta considerarmos que Ahab quer matar a baleia porque ela se defendeu quando ele tentava matá-la. Cheguei a lembrar do ‘Velho e o Mar’, de Ernest Hemingway, escrito quase um século depois, que traz temática parecida. Lá Santiago, o velho, sofre demasiadamente com uma pesca. Diz que só consegue a carne do peixe por traição, já que o animal não lhe desejava nenhum mal, o que não o impede de seguir pescando. O mesmo vale para Moby Dick. Que mal a baleia queria ao homem? E mesmo assim, defendendo-se assustada, teve que passar a vida cheia de arpões e linhas espetadas no corpo, resultado das várias empreitadas dos baleeiros enfurecidos e gananciosos. Na vida real, quantos animais não viveram (e vivem) assim? No livro, escrito em 1851, havia a estimativa de mais de 13 mil baleias capturadas por ano somente pelos Estados Unidos. Quantas ainda existem hoje?

Não há tolice dos animais da terra que não seja imensamente excedida pela insanidade dos homens. Agarro-me a essa frase e ao final espetacular para indicar a leitura do livro. Felizmente aquela foi a última viagem do Pequod. Todos, com exceção do narrador, naufragaram junto com o ódio de Ahab. Já Moby Dick, mesmo velha e machucada, continuou a triunfar em seu lar. E é por ela que sempre vou torcer.


A edição que li
Trechos de Moby Dick

"Uma vez mais. Vamos dizer que te encontres no campo, em terras altas cheias de lagos. Toma o caminho que desejares e aposto dez contra um que ele te conduzirá a um vale e te deixará nas proximidades de uma lagoa ou corrente de água. Há magia nesse fato. Permite que o mais distraído dos homens mergulhe em seu mais profundo sonho – coloca esse homem em pé e estimula-o a caminhar e infalivelmente seus pés o levarão à água, se houver água nessa essa região. Se a sede te assaltar no grande deserto americano, caso tua caravana inclua um professor de metafísica tenta essa experiência. Como todos sabem, há uma união perene entre meditação e água."

"E qual o problema, se alguns capitães velhos e avarentos mandam-me pegar uma vassoura e varrer o convés? Se pesada, quanto valerá essa indignidade na balança do Novo Testamento? Será que o Arcanjo Gabriel terá menos consideração por mim porque, pronta e respeitosamente, obedeço a esses velhos avarentos neste caso particular? Quem não é escravo? Dize-me."

"Diante das circunstâncias até pensei em escapar pela janela, porém o quarto era nos fundos do segundo andar. Não sou covarde, mas não sabia o que pensar daquele patife roxo, vendedor de cabeças. A ignorância é mãe do medo, e por me sentir confuso e embaraçado com relação àquele estranho, confesso que agora estava com tanto medo dele como se o diabo em pessoa tivesse entrado no quarto na calada da noite. Na verdade, estava tão amedrontado que não tinha coragem de falar com ele e obter uma resposta satisfatória sobre tudo o que parecia inexplicável em sua pessoa."

"Não se pode esconder a alma."

"As práticas dos baleeiros logo o convenceram que até os cristãos podem ser miseráveis e maus, e muito mais que todos os selvagens governados por seu pai."

"Não faço qualquer objeção à religião de uma pessoa, seja qual for, desde que essa pessoa não mate ou insulte os outros porque não acreditam em sua crença."

"Mas quando um homem suspeita de que há algo errado, certas vezes acontece já estar tão envolvido no assunto que luta para esconder suas suspeitas até de si mesmo."

"Queequeg fez-me compreender que, devido à ausência de cadeiras e sofás, o rei, os chefes e as pessoas importantes tinham o costume de fazer engordar os servos para lhes servirem de assento e para “mobiliar” a casa confortavelmente. Só precisavam comprar oito ou dez preguiçosos e espalhá-los pelas salas e alcovas. Além disso, eram muito cômodos nas excursões. Muito melhores que essas cadeiras de jardim que podem ser convertidas em bengalas." 


"Poder-se-ia comparar o convés escorregadio de um navio baleeiro à repulsiva imundície dos campos de batalha, dos quais tantos soldados retornam para beber sob os aplausos de todas as damas?"

terça-feira, 11 de agosto de 2015

uma curva no tempo



Terminei a leitura anestesiada. Realmente o livro tomou um rumo que eu não esperava. Foi surpreendente e me deixou a pensar sobre algo que sempre tive curiosidade, mas que não vou falar aqui ou estragarei a surpresa da história. 

Uma curva no tempo”, primeiro romance da inglesa Dani Atkins, nos traz a vida de Rachel Wiltshire, que se desdobra em duas após trágico acidente no jantar de despedida com seus amigos de infância, antes de todos irem para a universidade. 

Passam-se cinco anos e Rachel mora em Londres, em cima de uma lavanderia, sozinha, tem um emprego que nunca sonhou, uma feia cicatriz no rosto e o remorso pela morte de um dos melhores amigos, Jimmy, na fatídica noite. Seu pai está com câncer e tudo mais parece o inferno. Voltar à cidade natal para o casamento de sua amiga Sarah a faz reviver todos aqueles instantes angustiantes que a arruinaram. Reencontra a velha turma, o ex-namorado e o túmulo do amigo. E é exatamente no cemitério que sua vida dá outra reviravolta. Desta vez para melhor. Após forte dor de cabeça, ela acorda no hospital e percebe que sua vida é totalmente o oposto do que ela se lembra.


Seu pai está curado, aliás, ele estranha quando ela questiona sobre a quimioterapia. Ela é jornalista, bem-sucedida, noiva do namorado de infância e, o melhor de tudo, Jimmy está vivo. Tudo é muito estranho. O diagnóstico é amnésia. Mas o rumo da história nos leva a inúmeras hipóteses. Cheguei até a cogitar algo parecido com os planos paralelos de ‘1Q84’, do japonês Haruki Murakami. Ou algo bem clichê, estilo comédia romântica que volta no tempo e tal. Enfim, tudo é possível. Inclusive, a própria protagonista sugere algumas teorias. Mas é bem interessante acompanhar a caminhada dela para descobrir o que está acontecendo. Sobretudo porque ela consegue dizer endereços, telefones e até históricos das pessoas que fazem parte de sua outra vida.

Logo de cara, lembrei do filme “Como se fosse a primeira vez”, no qual a mocinha ficou presa em um único dia de sua vida, mas lá a falta de memória de curto prazo é explícita e o dilema é como fazer com que ela não sofra com o problema que tem. O mesmo acontece no suspense “Antes de dormir”. Enfim, a memória é um tema bem interessante e amplamente explorado. Gostei muito do livro, embora eu tenha que confessar que nas primeiras páginas imaginei estar lidando com um livro YA. A linguagem é bem simples. Pode ser lido em poucas horas. Mas isso não o torna menos interessante. O fim é lindo e me deixou a pensar sobre a importância das coisas simples e da rotina. O que fica é isso, apenas.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

destino la templanza

"Mas faltava algo. Algo impreciso, algo intangível."

É esse o sentimento mais presente no terceiro romance da espanhola María Dueñas. Ao contrário dos outros dois que trazem protagonistas femininas, fortes e determinadas, “Destino La Templanza” traz um homem que conduz todo o enredo. Mas esse foi meu único estranhamento ao começar a leitura. No mais, estão presentes todas as características dos livros anteriores, “O tempo entre costuras” e “O melhor da história está por vir”: pessoa que se vê no fundo do poço, terras colonizadas pelos espanhóis (ou tentativas), muito trabalho para se reerguer, paixões e certo melodrama no final. Além de histórias paralelas, tão envolventes quanto a principal.

Mauro Larrea é espanhol, viúvo e com dois filhos. Sua vida nunca foi muito fácil, não conheceu o pai e foi abandonado pela mãe com quatro anos. Ainda jovem, como muitos compatriotas, vai para o México, o 'novo mundo'. Lá descobre as minas e a prata. Após anos trabalhando arduamente como minerador torna-se rico empresário do ramo.

Contudo, vê tudo ir por água abaixo ao fechar negócio com um norte-americano. Estamos por volta de 1861, quando explode a Guerra Civil Norte-Americana e com ela a fortuna de Mauro, que fica presa entre os dois extremos da nação em conflito. 

Sem dar o braço a torcer, e sem querer mostrar à alta sociedade mexicana, da qual agora faz parte, que está falido, ele – contrariando todos os conselhos de seu amigo e procurador – vai buscar ajuda de um agiota, com o qual já tinha tido várias desavenças. Consegue sanar parte de suas dívidas e mudar-se para outro país, tentativa de buscar outros empreendimentos. O destino é Havana, em Cuba, sempre acompanhado do seu fiel escudeiro, Santos Huesos, índio que há anos está com ele. Chegam a ser comparados no texto com Dom Quixote e Sancho Pança. 

Bem apessoado, ele atrai todos os olhares femininos. E são as mulheres que vão mudar o rumo de seus planos e testar seu caráter. Jogar sujo não é com ele. Mas em determinado momento uma proposta extremamente imoral parece ser a única oportunidade que tem. Ele sofre horrores com isso. E nós também. Será que vai sucumbir?

Enfim, depois de sua breve estadia em Cuba, a sorte o leva à Jerez de la Frontera, cidade espanhola. Lá, mais emoções, histórias cruzadas e um amor digno de dramalhão mexicano. Desnecessárias algumas passagens, assim como o ritmo acelerado das últimas páginas. Parecia que o tempo estava acabando e a autora ainda tinha que dar conta de explicar o que estava em aberto. Contudo, o livro é excelente. Leitura agradável com contexto histórico e até aula sobre vinhos. A narrativa, que mescla diálogos com pensamentos do que poderia ter sido dito e não foi, lembrou-me "Os enamoramentos", de outro escritor espanhol, Javier Marías. Interessante recurso que ressalta nossos próprios diálogos com o mundo.

Li praticamente sem pausas e sem parar de pensar que a insistência em ter o que consideramos ideal nos aprisiona. De repente, podemos mudar da prata para o vinho e ver que nada poderia ser mais prazeroso. Quem sabe.

Trechos

"Há muitos anos a vida vem me ensinando que o mais conveniente é que cada um cuide de seus próprios assuntos, sem intromissões."

"Dentro dos barris de carvalho acontece o milagre que aqui chamamos de a flor: uma camada natural de pequenos organismos que cresce sobre o vinho e o protege, o nutre e lhe dá fundamento. Graças a ela conseguimos os cinco efes, os requisitos que sempre se considerou os bons vinhos devem atender: fortia, formosa, fragantia, frígida et frisca. Devem ser encorpados, finos, perfumados, frescos e envelhecidos."