sexta-feira, 26 de junho de 2015

minuano


Minuano”, do gaúcho Tabajara Ruas, é um dos melhores livros que já li. Não pelo conteúdo que é discutido no livro, mas pela forma com que é escrito. O protagonista narrador é um cavalo, cujo nome dá título à obra. Ele nasceu no dia em que o vento Minuano, corrente de ar polar, começou a soprar no Rio Grande do Sul. O que explica seu nome. Com apenas dez dias foi mordido por um leão baio, espécie de onça, e ficou seriamente machucado. Cuidaram dele, porém, passou a ser apenas um ‘cavalinho manco’, deixado para os serviços mais leves, ao contrário de seus pais, irmãos e amigos, todos grandes e imponentes. Isso não o incomoda. Segue feliz a brincar, a admirar os outros e por ter abrigo quente. Até que chega o aviso da guerra e todos, exceto ele, são convocados. Homens, mulheres e cavalos. É a Revolução da Farroupilha, que marcou o sul do país entre 1835 até 1845.
Para todos os personagens que não estão do lado do império, a salvação está nas mãos de Bento Gonçalves. E é justamente ele que surge para dar a Minuano a chance de mostrar que é forte. Infelizmente, como sempre nesses casos, não há reconhecimento. Mas deixo as impressões para quem se interessar pela leitura.
O livro é para o público juvenil, tentativa de apresentar o que significou o conflito. Segundo o autor, sua inspiração vem da saga “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo. O resultado: uma fábula que encanta e comove. Para mim, que sou sempre a favor dos animais, chega a doer. Sinto a angústia do cavalo ao descer as montanhas embaixo da chuva, o desalento ao ver os animais sendo mortos, a tristeza por não poder mais olhar nos olhos da mãe. E tudo isso por causa do charque, como ele mesmo reflete. Deveria ser leitura obrigatória a todos que pensam que os animais estão aqui apenas para nos servir.
"O cheiro da carne queimada daquelas centenas de homens e cavalos mortos ainda me acompanha, ainda surge de repente numa ponta da memória e me faz estremecer. Quando o sol finalmente desceu no horizonte, o corneteiro se colocou em posição de sentido no alto da coxilha, perfil recortado contra o vermelho do céu, e tocou o Silêncio. Desde esse dia, comecei a ter mais medo do homem do que de leão baio."

quinta-feira, 25 de junho de 2015

cadê você, bernadette?

Cadê você, Bernadette”, de Maria Semple, é bem engraçado. Mas apenas na primeira metade. Depois ele se perde ao justificar as atitudes dos personagens. O livro conta a história da mulher do título que desaparece, mas isso só lá no fim. Ela é antissocial. Gosta de ficar em casa. Quando sai, limita-se a ficar dentro do carro. Evita qualquer tipo de interação. O que não quer dizer que ela seja egoísta ou desagradável. Apenas prefere ficar na dela. Contudo, isso incomoda as outras mulheres do bairro em que mora. Mas mesmo assim, ela não se intimida e sua reação a essa hostilidade é cômica.

Casada com um bambambam da Microsoft, conhecido por uma palestra que fez sucesso no Youtube, ela se vê diante do grande dilema da vida: fazer uma viagem em família pela Antártida. O problema não é a família, mas ter que ficar presa dentro de um navio com várias pessoas que na falta do que fazer vão querer conversar. Como sobreviver a isso?

O passeio é um pedido da filha, que teve direito a escolher o que quisesse por ter tirado as notas máximas na escola. Interessante mesmo é a narrativa utilizada pela autora. Tudo nos é contato por meio de cartas, bilhetes e e-mails trocados entre os personagens. Como se estivéssemos espionando a correspondência alheia. Aliás, o FBI faz uma ponta na história. E aqui e a ali, a filha do casal aparece para dizer suas impressões, afinal, ela é a maior interessada em encontrar a mãe.

Esperava mais. Fico super constrangida quando vejo um livro que tem tudo para ser bacana terminar com um blablabla motivacional, na linha de ‘o que importa é estarmos juntos, vamos perdoar, a vida é bela’. Não estou dizendo que não considero isso importante, porém, qual o sentido de se envolver com um história que vai terminar com todo esse melaço?

Enfim, o que mais gostei mesmo foram as descrições do tour pela Antártida. Sempre achei que este livro tinha cara e verão, mas eis que me deparo com momentos frios na narrativa. Talvez releia algumas partes para futura viagem.