sexta-feira, 18 de julho de 2014

fahrenheit 451


“Sempre se teme o que não é familiar.”

Os livros estão banidos e todos que forem encontrados portando este objeto terão a casa e seus exemplares queimados. Afinal, “o livro é uma arma carregada na casa vizinha.” Então, a ordem é “queime-o. Descarregue a arma”. Esta é a tarefa dos bombeiros de ‘Fahrenheit 451’, de Ray Bradbury. O título é uma alusão à temperatura na qual o papel queima. Como desculpa, o capitão da corporação diz que os livros eram muito complexos. O aumento da população pede coisas mais rápidas, sucintas, fáceis de serem digeridas.

O país está em guerra, mas ela serve apenas como pano de fundo, pois a população não parece preocupada com a possível destruição. Há o consenso de que todos são felizes. ‘Eu trabalho e tenho lazer, pronto, é o que basta’. O questionamento é visto como comportamento antissocial. Quem vai por este caminho é eliminado. Por aí já dá para saber que estamos numa distopia. Este tipo de romance está, geralmente, relacionado ao controle social e à ficção científica. Há muitos elementos parecidos com o emblemático ‘1984’, de George Orwell e seu grande irmão.

O protagonista é o bombeiro Guy Montag. Ele faz seu trabalho sem pensar, como todos. Até que conhece uma garota que o faz refletir sobre sua atividade. Ela vem de uma família diferente. Seus pais, tios, isso mesmo, conversam. Pensam. Gostam de apreciar o que está ao redor. As famílias ‘normais’ são como a de Montag. Sua esposa, Mildred, vive imersa na realidade artificial. O mundo resume-se aos programas projetados nas telas que eles têm na sala. Os ouvidos também são literalmente tampados com uma espécie de fone de ouvido, as tais radioconchas,‘rádios firmemente ajustados, e um oceano eletrônico de som, música e vozes, música e vozes’. Tudo é entregue do jeito que as pessoas devem e podem absorver. Nada além, nada aquém.

Lembrou-me bastante “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche, “todos querem o mesmo, todos são iguais; e quem sente de outro modo vai, voluntário, para o manicômio”. Lá todos também são ‘felizes’. Já possuem tudo o que precisam. E quando confrontados, apenas ‘piscam o olho’, sem entender o que acontece. Da mesma forma, piscam os olhos os personagens de Bradbury. Montag surge como o ‘super homem’. Contrariando a ordem, ele esconde alguns livros, que serão farejados pelo Sabujo, o cão robô farejador. A partir daí, resta o refúgio junto com os demais ‘malucos’.

O livro, escrito em 1953, é uma projeção do que seria a década de 1990. No posfácio, o autor comenta sobre o processo criativo, que começou com o conto ‘Bright Phoenix’, evoluiu para o livro e culminou com a adaptação para o teatro. No último, ele reviu e detalhou melhor algumas situações. O romance foi ainda para o cinema sob direção de François Truffaut. Tudo muito atual. Tudo muito presente na nossa sociedade. Enfim, vamos colocar nossas ‘radioconchas’ e cantar, com todo mundo, a música do dia.

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