quinta-feira, 8 de maio de 2014

divórcio


Como se recuperar de um divórcio? Que tal escrever um livro no qual destrói a imagem da ex?

Divórcio”, do brasileiro Ricardo Lísias, é mais ou menos assim: após quatro meses de casamento, o narrador protagonista, o próprio Ricardo Lísias, descobre o diário da esposa. Sem pestanejar, lê tudo e encontra o que jamais gostaria de ver: ela diz que é casada com um babaca. Alguém que só pensa em ler e que da vida mesmo não sabe nada. Alguém que não gosta de aventura. Que não a leva a lugares nos quais possa usar seus lindos vestidos. Que tem amigos sem expressão que mal sabem usar o garfo num restaurante. A esposa, segundo o romance, é uma famosa jornalista cultural. O marido descobre ainda que foi traído com apenas quarenta dias de casamento. O amante é um cineasta que ela havia entrevistado durante o Festival de Cannes.

Arrasado, ele sai de casa e vai morar no ‘cafofo’, galpão alugado para guardar seus mais de 12 mil livros. A partir daí temos a descrição que será fácil de entender por quem já sentiu dores de amor. O rapaz sente-se sem pele, como se estivesse em carne viva. Tudo dói. Até respirar torna-se difícil. Ele anda pelas ruas totalmente atordoado. Sem ouvir ou ver o que está ao seu redor. Seu passatempo é mandar várias mensagem para a ex e o advogado recém-contrato para tratar do divórcio. Ora agredindo. Ora pedindo para voltar para casa. Ora sem se lembrar do que fez.

E o que vai ajudá-lo é a corrida. Como já tinha o hábito de andar bastante (mania deveras criticada pela esposa no tal diário) fica fácil estabelecer a rotina de treinos, sempre após a meia-noite.

A esposa é apontada como insensível, interesseira, que não mede esforços para conseguir o que quer. Lísias se aproveita dessa percepção para criticar os jornalistas, a elite, a indústria do entretenimento e os clichês sociais (comprar casa própria, guardar dinheiro, visitar pontos turísticos). Reflexos da rejeição. O livro é dividido em 15 capítulos, que são os quilômetros da São Silvestre, prova que vai representar sua recuperação. Nos quilômetros finais, a leitura fica arrastada e repetitiva, com justificativas para o livro, mais críticas e comentários sobre outros contos e romances que escreveu. Cansa. Interessante é a brincadeira que o autor faz com o protagonista, que leva o seu nome. Isso nos deixa a pensar se estamos diante de um romance autobiográfico ou de ficção. Ou se é um mistura dos dois. No fim, não importa. Afinal, imaginar também pode ser uma experiência real.
 Talvez isso explique a certeza que ele tem de que é inocente, a vítima e o super bacana da relação desastrosa. "Acorda pra vida, seu mala", da vontade de gritar. Só não sei para qual dos dois.


“Logo depois do divórcio, um dos meus maiores problemas foi o ar. Na rua, respirava fundo e o fôlego não atravessava a garganta. Achei que, caminhando rapidamente, meu tórax se comprimiria um pouco. Fiz força, mas não deu certo. Voltou-me à cabeça o meu cadáver no cafofo. Olhei ao redor. Se morri, não posso estar vendo essas luzes. Alguns carros diminuíam a velocidade, outros paravam apenas no farol. O ar desapareceu de novo e acelerei ainda mais. Senti tontura. Se caísse, ninguém perceberia. Ninguém, uma palavra que ecoaria na minha cabeça com mais frequência que a imagem do meu corpo sem pele no caixão do cafofo. Quem pensa sem ar: ninguém, por exemplo. Você pode chorar desesperadamente na avenida mais importante da América Latina. Ninguém vai te ajudar. Ninguém me perguntou nada quando entrei na linha errada do metrô e olhei confuso para o letreiro.”

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