sábado, 31 de maio de 2014

projeto rosie

Dei tanta risada com este livro. Tudo bem que não é muito original (lembrou-me 'Forrest Gump' e 'O lado bom da vida') e tem lá sua taxa de previsibilidadade. Mas 'Projeto Rosie' foi uma excelente pedida para uma fase em que eu não estava muito concentrada. Este é o primeiro romance do neozelandês Graeme Simsion, que o concebeu durante um curso de escrita criativa. Logo que o vi, pensei: um chick-lit escrito por homem. Estava certa. O livro é uma típica comédia romântica. Encenado na Austrália, é narrado pelo protagonista, o professor de genética Don Tillman, musculoso, bonitão e esquisito. Extremamente metódico, sua agenda contempla minuto a minuto todas as suas atividades diárias. Pular ou gastar segundos a mais com qualquer uma delas é o fim para ele. Adota ainda a refeição padronizada, assim não precisa parar para pensar o que vai comer. Tem o prato certo para cada dia da semana. Tudo o que precisa fazer é comprar os mesmos ingredientes, nos mesmos lugares e seguir os mesmos passos para o preparo dos alimentos. No piloto automático, deixando a mente livre para se preocupar com outras coisas, como seus projetos acadêmicos. Confesso que fiquei tentada a ter tal rotina e economizar várias horas. Enfim, esse esquema prático e racional é transferido para o campo amoroso. Don, que tem 'apenas' dois amigos, resolve arrumar uma esposa. Todavia, encontrar alguém, namorar e tudo mais leva..., claro, tempo. E com chances altas de descobrir, lá na frente, que aquela não é a pessoa. Para evitar que sua busca seja frustrada, ele elabora um minuncioso questionário, no qual elenca tudo o que espera da futura mulher. Vale ressaltar que Don tem uma memória super poderosa, consegue armazenar no seu cérebro dados, nomes, rostos como ninguém. A linguagem para ele também é sempre literal, direta e objetiva. Isso significa que não consegue disfarçar, mentir ou deixar de falar o que pensa. Antes dele, descobrimos que um de seus objetos de estudo genético o envolve. Será que vai dar certo? Bem, você, pelo menos, vai se divertir ;-)

Trechos

"Durante toda a minha vida fui criticado pela minha suposta falta de emoções, como se isso fosse um defeito absoluto."

"Descobri que as viagens longas de carro exerciam em minha mente um efeito semelhante ao das minhas corridas na feira. Pesquisas mostram que a criatividade aumenta quando se está executando tarefas absolutamente mecânicas, como correr, cozinhar e dirigir. Tempo desimpedido para pensar é sempre útil."

"Estaria ela perguntando pelo marido ou pelo filho falecido há tanto tempo? Houve uma época em que eu teria respondido sem pensar: 'Eles morreram'. Não por maldade, mas porque estou programado para reagir aos fatos e não aos sentimentos dos outros. Alguma coisa, porém, tinha mudado dentro de mim, e consegui suprimir essa afirmação."

quinta-feira, 8 de maio de 2014

divórcio


Como se recuperar de um divórcio? Que tal escrever um livro no qual destrói a imagem da ex?

Divórcio”, do brasileiro Ricardo Lísias, é mais ou menos assim: após quatro meses de casamento, o narrador protagonista, o próprio Ricardo Lísias, descobre o diário da esposa. Sem pestanejar, lê tudo e encontra o que jamais gostaria de ver: ela diz que é casada com um babaca. Alguém que só pensa em ler e que da vida mesmo não sabe nada. Alguém que não gosta de aventura. Que não a leva a lugares nos quais possa usar seus lindos vestidos. Que tem amigos sem expressão que mal sabem usar o garfo num restaurante. A esposa, segundo o romance, é uma famosa jornalista cultural. O marido descobre ainda que foi traído com apenas quarenta dias de casamento. O amante é um cineasta que ela havia entrevistado durante o Festival de Cannes.

Arrasado, ele sai de casa e vai morar no ‘cafofo’, galpão alugado para guardar seus mais de 12 mil livros. A partir daí temos a descrição que será fácil de entender por quem já sentiu dores de amor. O rapaz sente-se sem pele, como se estivesse em carne viva. Tudo dói. Até respirar torna-se difícil. Ele anda pelas ruas totalmente atordoado. Sem ouvir ou ver o que está ao seu redor. Seu passatempo é mandar várias mensagem para a ex e o advogado recém-contrato para tratar do divórcio. Ora agredindo. Ora pedindo para voltar para casa. Ora sem se lembrar do que fez.

E o que vai ajudá-lo é a corrida. Como já tinha o hábito de andar bastante (mania deveras criticada pela esposa no tal diário) fica fácil estabelecer a rotina de treinos, sempre após a meia-noite.

A esposa é apontada como insensível, interesseira, que não mede esforços para conseguir o que quer. Lísias se aproveita dessa percepção para criticar os jornalistas, a elite, a indústria do entretenimento e os clichês sociais (comprar casa própria, guardar dinheiro, visitar pontos turísticos). Reflexos da rejeição. O livro é dividido em 15 capítulos, que são os quilômetros da São Silvestre, prova que vai representar sua recuperação. Nos quilômetros finais, a leitura fica arrastada e repetitiva, com justificativas para o livro, mais críticas e comentários sobre outros contos e romances que escreveu. Cansa. Interessante é a brincadeira que o autor faz com o protagonista, que leva o seu nome. Isso nos deixa a pensar se estamos diante de um romance autobiográfico ou de ficção. Ou se é um mistura dos dois. No fim, não importa. Afinal, imaginar também pode ser uma experiência real.
 Talvez isso explique a certeza que ele tem de que é inocente, a vítima e o super bacana da relação desastrosa. "Acorda pra vida, seu mala", da vontade de gritar. Só não sei para qual dos dois.


“Logo depois do divórcio, um dos meus maiores problemas foi o ar. Na rua, respirava fundo e o fôlego não atravessava a garganta. Achei que, caminhando rapidamente, meu tórax se comprimiria um pouco. Fiz força, mas não deu certo. Voltou-me à cabeça o meu cadáver no cafofo. Olhei ao redor. Se morri, não posso estar vendo essas luzes. Alguns carros diminuíam a velocidade, outros paravam apenas no farol. O ar desapareceu de novo e acelerei ainda mais. Senti tontura. Se caísse, ninguém perceberia. Ninguém, uma palavra que ecoaria na minha cabeça com mais frequência que a imagem do meu corpo sem pele no caixão do cafofo. Quem pensa sem ar: ninguém, por exemplo. Você pode chorar desesperadamente na avenida mais importante da América Latina. Ninguém vai te ajudar. Ninguém me perguntou nada quando entrei na linha errada do metrô e olhei confuso para o letreiro.”

sexta-feira, 2 de maio de 2014

o físico

Está aí um livro que quase deixo para lá nas primeiras páginas. A leitura seguia arrastada. Felizmente, insisti e me deparei com uma história que me conquistou. 

"O físico", de Noah Gordon, vai agradar sobretudo aos amantes da Idade Média. De carona com o garoto órfão Rob J. Cole, somos levados a um passeio pelo século XI e pelos primórdios da medicina, já que personagens fictícios se misturam com reais.

Rob tem dez anos. E, numa sucessão de desgraças, perde os pais e se separa dos irmãos. Acaba sendo 'contratado' como assistente do cirugião-barbeiro Henry Croft, conhecido como Barber. Com seu novo tutor, aprende malabarismos e a curar certas enfermidades. Naquela época, médicos eram raros e cabia a esses profissionais saltimbancos, que sempre se formavam olhando uns aos outros, assistir os mais pobres. Após os shows que realizavam, tratavam de dores diversas, feridas, amputavam e também vendiam placebo. Aliás, o maior faturamento vinha das misturas de urina com aguardente, o tal Específico Universal, que sempre chocou Rob, e que supostamente era infálivel para todos os males do corpo. E assim, com a carroça colorida percorriam todas as cidades inglesas, animando e exercendo a medicina tanto quando podiam. Como diferencial contavam ainda com o dom de Rob, que sabia se o doente iria morrer apenas segurando suas mãos. Sensibilidade que não podia ser tão exposta, haja vista a Inquisição, que não hesitava em queimar todos que apresentavam qualquer indício de feitiçaria. 

Mas o que mais me fascinou é o que veio depois. Rob resolve ser médico de verdade. E as melhores escolas ficavam longe, no oriente. Inacessíveis para um pobre cristão. Mesmo diante das adversistades, ele mostra-se determinado a conquistar o tal diploma e parte para a Pérsia, disfarçado de judeu. Em sua jornada, conhecemos as caravanas que cruzavam continentes e o encontro das culturas cristã, judaíca e islã. Aprendemos sobre os primeiros modelos de hospital. Somos apresentados ao jogo do Xá (monarca persa), versão antiga do xadrez. Roubamos elefantes na Índia (os animais sempre foram vítimas do homem. Não sei se sofriam mais antes ou agora com a indústria alimentícia. Enfim. Pelo menos, Rob os respeitava). Participamos do chatir, corrida de 126 milhas romanas, que marca o fim do ramadan. Pelas minhas contas e pesquisas rápidas, algo em torno de 180 quilômetros. Uma ultramaratona. Gostei muito desse trecho. O treino do atleta, sua ansiedade, vontade de terminar a prova com suas mais de 12 horas. A torcida. Inclusive, neste ponto dei uma pausa e fui eu mesma correr minhas seis milhas romanas ;-)

O romance traz ainda paixões, mortes, batalhas, triações e tudo mais o que pede uma boa epopeia. Vale muito, muito a leitura. Já estou com saudades dos personagens. 

Trechos

“Antes do anoitecer acamparam em uma colina, ao lado de um regato. O homem disse que o nome do cavalo cinzento pintado era Tatus - Abreviação de Incitatus, o nome do cavalo que o imperador Caligula amava tanto a ponto de fazer do animal um sacerdote e um cônsul. Nosso Incitatus é um animal razoavelmente bom para um coitado com os sacos cortados - Barber disse, mostrando como cuidar do cavalo, esfregando no animal punhados de relva macia e cinzenta, depois fazendo-o beber e começar a pastar antes de cuidarem deles mesmos.”

“O chatir é nossa corrida nacional, realizada todos os anos e quase tão antiga quanto a Pérsia - disse Karim - Comemora o fim do ramadan, o mês de jejum religioso. Originalmente - tão distante nas brumas do tempo que perdemos o nome do rei que patrocinou a primeira corrida - era uma competição para escolher o chatir do Xá, ou escudeiro, mas através dos séculos passou a atrair para Ispahan os melhores corredores da Pérsia e de outros lugares e adquiriu a característica de grande espetáculo.”