segunda-feira, 14 de abril de 2014

ao farol


"Estava lendo muito rápido, como se estivesse ansioso em chegar ao final." Assim Virginia Woolf descreve a última leitura do sr. Ramsay, um dos protagonista do seu "Ao farol" (1927), também traduzido como "Passeio ao farol" e "Rumo ao farol". E assim fiz nas últimas páginas do livro. Não porque queria saber o desfecho da história, mas porque queria, simplesmente, concluir a leitura, cuja última parte é repleta de digressões que não me interessaram.

Dividido em três fases, a história conta a vida da família Ramsay em sua casa de veraneio, na poética Isle of Skye, na Escócia. A primeira é dedicada à sra. Ramsay, mulher de cinquenta anos e devotada mãe de oito filhos, "por que crescer e perder tudo isso? Nunca voltarão a ser tão felizes?" A segunda, aos anos de abandono da casa. A terceira ao farol, que pode ser observado da propriedade, e que outrora foi o passeio almejado pelo caçula, James. Em narrativa que prioriza os pensamentos dos personagens, Virginia joga com divagações, sonhos e imagens. Lemos o que anseiam, o que querem, o que temem e o que simulam as pessoas que rodeiam a matriarca, entre eles a artista solteira que a sra. Ramsay quer casar, o viúvo botânico, o jovem casal a descobrir a paixão, o estudante metido e o poeta que ainda não se descobriu. Na primeira parte, a leitura flui. Por meio das divagações dos Ramsays e de seus amigos, somos levados a conhecer a rotina da burguesia da época em que o livro foi publicado. Sua hipocrisia por trás dos sorrisos e das formalidades exageradas, com seus jantares de gala em que não são permitidos contratempos. Relances da primeira grande guerra aparecem aqui e ali. O romance é considerado o mais autobiográfico da escritora inglesa. Os Ramsays teriam sido inspirados em seus pais.

Bela a passagem em que o sr. e a sra. Ramsay estão sozinhos a ler. Cada qual em seus universos paralelos, mas na expectativa de uma palavra do outro. Algo que os possa resgatar e alimentar a esperança na espontaneidade e no amor, se é que ele existe. As palavras saem, mas como sempre supérfluas, forçadas, sem exprimir os reais sentimentos. "Era um disfarce; era o refúgio de um homem receoso de sentir os próprios sentimentos, que não podia dizer." Momento que só não terá sido perdido para sempre por causa de um sorriso. Sincero e apelativo. A segunda parte é quase um conto que se sustenta independentemente do resto. Poesia para ser lida e relida. Vale, sobretudo, pela linda descrição da noite. Eu poderia ter parado a leitura por ali. Talvez não tenha sido a hora de apreciar o que viria depois. Algo que requer a paciência e o silêncio que não estavam comigo. "Vida detém-te aqui", poderia ter dito junto com a sra. Ramsay. Mas continuei. Infelizmente nem sempre estamos preparados para ouvir o que só é compreensível ao outro.

"Como então funcionava tudo isso? Como alguém julgava os outros, avaliava os outros? Como juntava isso e aquilo e concluía que gostava e desgostava da pessoa? E essas palavras, que significado tinham, afinal?"



O processo criativo

Em tempo, o processo de criação de Lily Briscoe, a artista solteirona e discriminada, para o seu quadro que eterniza o verão que passou com os Ramsays é para ser lido à parte. Deixo aqui uma boa interpretação dessas passagens, feita por Neurivaldo Campos, da UFRGS.

Vale lembrar que Virginia era irmã de Vanessa Bell, famosa pintora inglesa. Aliás, fica como dica de passeio a visita à casa em que viveu no sul da Inglaterra com o marido, o também pintor Ducan Grant. Conhecida como Charleston Farmhouse, tem o interior todo pintado e decorado pelos dois. Cenário delicioso e inspirador, assim como o jardim. 

Charleston, a casa foi ponto de encontro de artistas e escritores

2 comentários:

  1. Oi Kátia, tudo bom? É a primeira vez que estou visitando seu blog e gostei muito!!! Adorei a análise que você fez do livros, foi bem direta e bem escrita, parabéns.
    Eva Malta, blog Falando de Livros.

    blogfalandodelivros.blogspot.com.br

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