segunda-feira, 28 de abril de 2014

a casa dos amores impossíveis


Mais um livro que peguei ao acaso na livraria e que não me decepcionou. Primeiro romance da espanhola Cristina López Barrio, "A casa dos amores impossíveis" vai na linha da literatura fantástica, com inspiração em Gabriel García Márquez e Isabel Allende. Conta a saga das mulheres Laguna. De geração em geração, carregam a desilusão amorosa. Todas têm um dom diferente, uma é feiticeira, outra é excelente narradora, outra se destaca na cozinha e por aí vai. Mas em comum, todas sabem que não se darão bem nas coisas do coração por causa da maldição que as assola há séculos. Começamos a acompanhar a história no fim do século 19 com Clara Laguna, a bela moça dos olhos cor de trigo. Aliás, tudo no livro remete a cheiros e cores da natureza. Como esperado, ela é abandonada grávida e dá sequência ao infortúnio ao dar à lua outra mulher com seu sobrenome. Revoltada por esperar em vão o seu amado, abre um prostíbulo, que logo ganha fama e faz fortuna. A partir daí, surge a esperança de que algo pode mudar. A escrita é poética e mexe com todos os nossos sentidos, sobretudo o olfato. A todo instante parece que sentimos o cheiro das plantas, das flores, da chuva, da terra molhada, dos bolos de canela. Os personagens são muito sensoriais, inclusive há aqueles que chegam a experimentar os alimentos nos mamilos para saber se os pratos estão no ponto. Achei um exagero, todavia, as partes que falam dos animais sendo abertos e desossados na cozinha. Leitura boa, que flui rápido, principalmente na segunda metade, e que vai agradar aos amantes do realismo mágico.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

ao farol


"Estava lendo muito rápido, como se estivesse ansioso em chegar ao final." Assim Virginia Woolf descreve a última leitura do sr. Ramsay, um dos protagonista do seu "Ao farol" (1927), também traduzido como "Passeio ao farol" e "Rumo ao farol". E assim fiz nas últimas páginas do livro. Não porque queria saber o desfecho da história, mas porque queria, simplesmente, concluir a leitura, cuja última parte é repleta de digressões que não me interessaram.

Dividido em três fases, a história conta a vida da família Ramsay em sua casa de veraneio, na poética Isle of Skye, na Escócia. A primeira é dedicada à sra. Ramsay, mulher de cinquenta anos e devotada mãe de oito filhos, "por que crescer e perder tudo isso? Nunca voltarão a ser tão felizes?" A segunda, aos anos de abandono da casa. A terceira ao farol, que pode ser observado da propriedade, e que outrora foi o passeio almejado pelo caçula, James. Em narrativa que prioriza os pensamentos dos personagens, Virginia joga com divagações, sonhos e imagens. Lemos o que anseiam, o que querem, o que temem e o que simulam as pessoas que rodeiam a matriarca, entre eles a artista solteira que a sra. Ramsay quer casar, o viúvo botânico, o jovem casal a descobrir a paixão, o estudante metido e o poeta que ainda não se descobriu. Na primeira parte, a leitura flui. Por meio das divagações dos Ramsays e de seus amigos, somos levados a conhecer a rotina da burguesia da época em que o livro foi publicado. Sua hipocrisia por trás dos sorrisos e das formalidades exageradas, com seus jantares de gala em que não são permitidos contratempos. Relances da primeira grande guerra aparecem aqui e ali. O romance é considerado o mais autobiográfico da escritora inglesa. Os Ramsays teriam sido inspirados em seus pais.

Bela a passagem em que o sr. e a sra. Ramsay estão sozinhos a ler. Cada qual em seus universos paralelos, mas na expectativa de uma palavra do outro. Algo que os possa resgatar e alimentar a esperança na espontaneidade e no amor, se é que ele existe. As palavras saem, mas como sempre supérfluas, forçadas, sem exprimir os reais sentimentos. "Era um disfarce; era o refúgio de um homem receoso de sentir os próprios sentimentos, que não podia dizer." Momento que só não terá sido perdido para sempre por causa de um sorriso. Sincero e apelativo. A segunda parte é quase um conto que se sustenta independentemente do resto. Poesia para ser lida e relida. Vale, sobretudo, pela linda descrição da noite. Eu poderia ter parado a leitura por ali. Talvez não tenha sido a hora de apreciar o que viria depois. Algo que requer a paciência e o silêncio que não estavam comigo. "Vida detém-te aqui", poderia ter dito junto com a sra. Ramsay. Mas continuei. Infelizmente nem sempre estamos preparados para ouvir o que só é compreensível ao outro.

"Como então funcionava tudo isso? Como alguém julgava os outros, avaliava os outros? Como juntava isso e aquilo e concluía que gostava e desgostava da pessoa? E essas palavras, que significado tinham, afinal?"



O processo criativo

Em tempo, o processo de criação de Lily Briscoe, a artista solteirona e discriminada, para o seu quadro que eterniza o verão que passou com os Ramsays é para ser lido à parte. Deixo aqui uma boa interpretação dessas passagens, feita por Neurivaldo Campos, da UFRGS.

Vale lembrar que Virginia era irmã de Vanessa Bell, famosa pintora inglesa. Aliás, fica como dica de passeio a visita à casa em que viveu no sul da Inglaterra com o marido, o também pintor Ducan Grant. Conhecida como Charleston Farmhouse, tem o interior todo pintado e decorado pelos dois. Cenário delicioso e inspirador, assim como o jardim. 

Charleston, a casa foi ponto de encontro de artistas e escritores

domingo, 13 de abril de 2014

o que revela a neblina



Paisagem encoberta pela neblina é, para mim, única. Fico quieta a contemplar toda vez que me deparo com tal vista. Lembro-me de quando ia à escola, ainda criança, e ela envolvia o caminho. Hoje são raros os momentos em que aparece. 


Recordo ainda de minhas passagens pela Inglaterra. O fog londrino e a exposição do impressionista J. M. William Turner. Passeio que sempre estará no meu presente. 



Folheto da exposição de JMW Turner em Londres

Ouço o Boléro de Maurice Ravel, melodia repetitiva, mas que surpreende. E que foi lindamente interpretada pelo argentino Jorge Donn. Pode ser apreciada também em Retratos da Vida (Les uns et les autres), filme de 1980. 


E, na última semana, encontro mais uma referência para o repertório esfumaçado: "A cinza das horas", primeiro livro de Manuel Bandeira. Na capa, trilha no bosque ofuscado pela névoa. Embora os poemas caminhem para o fúnebre, nos conforta. Serenidade dada pelos versos do poeta, na época, enfermo.

 

Neblina é descanso para o olhar. Esconde. Revela. Parece sempre a mesma, mas difere-se nos movimentos. Muitas vezes é fugaz. Talvez por ser apenas impressão, afinal.

sábado, 12 de abril de 2014

não atravesso a rua sozinho

Este livro, do gaúcho Fabrício Carpinejar, além de encantar pela boa sacada do título e pela delicadeza das ilustrações, feitas por Eloar Guazzelli, nos remete aos bons e simples momentos do passado. 

Já no início de "Não atravesso a rua sozinho" (2013), somos guiados a um passeio pela infância. Quando digo nós, refiro-me a todos que foram crianças lá na primeira metade da década de oitenta. Que tiveram uma televisão preto e branco. Que para chamar um amigo tinham que ir até a casa dele e bater palmas. Que brincavam na rua até tarde, sem que os pais ficassem preocupados. Usavam orelhões. Jogavam futebol de botão. Moravam em casas com muros baixos. Deixavam-se ser seguidos pelos animais de rua, que quase sempre eram adotados. Essas e outras lembranças servem de tempero para o autor contar um pouco sobre seus primeiros anos de vida. Seus traumas, o bullying que sofria na época em que isso era apenas gozação da molecada, o primeiro amor, a relação com os pais, os cheiros e manias da avó. 

Tudo relatado em frases curtas nos 25 tópicos ou temas que o marcaram. Se passeia pela ficção na sua autobiografia concisa, tanto faz. O que importa é a doce nostalgia que nos proporciona. Lembrou-me um pouco as divagações de "O sal da vida" (2012), de Françoise Héritier, que narra tudo o que faz sua vida valer a pena. Quem também escreveu sobre sua infância foi José Saramago, em "As pequenas memórias", livro carregado de saudade. Aliás, Carpinejar faz um comentário bem interessante sobre o abismo que separa os que nasceram nos anos 90 dos que são das décadas de 50 a 80. E é verdade. As vivências terão sido praticamente as mesmas para quem tem 40 ou 60 anos. O que já não acontece no encontro entre pessoas de 25 e 40. "São naturais de países longínquos da memória." Leiam!

"Ser o que não sou é também continuar sendo. Desejo ser mais boato do que notícia. O boato exagera, a notícia omite. Aquilo que uma mulher ou um homem imaginam também existiu. O que imaginamos também é biografia. Se eu não confesso um amor, não significa que ele não ocorreu, porque ele me fez existir."