segunda-feira, 10 de março de 2014

uma aventura parisiense e outros contos de amor


Guy de Maupassant (1850-1893) foi um dos expoentes da literatura fantástica. Gostava de retratar a vida dos franceses de sua época, dos proletariados à aristocracia, sempre com ironia. E é esse olhar que temos nesta seleção de 15 contos da Penguin & Companhia das Letras. Quem espera histórias românticas ambientadas na bela Paris, talvez não vá suspirar com os textos do escritor francês. Mas se quer bons causos, sórdidos às vezes, realistas na essência e insólitos na forma, a diversão é certa.
Em outro livro que estou a ler, Alberto Manguel cita a frase de Sherlock Holmes, de Conan Doyle, que resume o livro: "quando você elimina o impossível, aquilo que sobra, mesmo que improvável, deve ser a verdade." Embora tenham um pé no universo fantástico, as histórias trazem a veracidade das pessoas comuns.
Tanto que sempre surgem em um bate-papo. Amigos ou conhecidos se encontram e trazem à tona algo inusitado. Como as peripécias da moça casada, daquelas por quem se põe a mão no fogo, que se vê em apuros quando o amante morre em seu quarto. Faltam poucas horas para o marido regressar e ela recorre ao médico da família. "Quanto à dissimulação, todas as mulheres a têm para dar e vender em ocasiões como essas. Mesmo as mais simplórias são maravilhosas, e se saem com engenhosidade dos casos mais difíceis." 

Com exceção de um ou outro conto, os demais falam sobre as mulheres e o desejo de extravasar. Claro que à época em que foram escritos, a ousadia feminina era censurada. Mas isso não quer dizer que hoje também não haja máscaras. Em "Uma aventura parisiense", a esposa provinciana sonha com o agito de Paris. Com seus arranjos, vai à cidade conhecer e vivenciar tudo o que ouviu sobre as festas, as diversões e as paixões. Será que valeu a pena? "Existe sentimento mais agudo do que a curiosidade na mulher?" Impossível, improvável, mas talvez real seja a morta que volta e reescreve seu epitáfio. Ou o rapaz que se apaixona pelos cabelos de uma mulher que morreu há anos. Ou a empalhadora que acumulou pequena fortuna para entregar ao homem que sempre amou, mesmo sem nunca ter sido notada. Diante de tantas conversas, fica a certeza que essa clássica coletânea amorosa merece ser lida, sobretudo por quem gosta de ser surpreendido e está cansado das mesmices acinzentadas nas prateleiras.

Trechos

"Felizes os homens cujo coração, como um vidro onde deslizam e se apagam os reflexos, esquece tudo o que o vidro abarcou, tudo o que passou diante dele, tudo o que se contemplou, o que se olhou, em seu afeto, em seu amor!"

"Existem ideias que nos penetram, nos corroem, nos aniquilam, nos deixam loucos, quando não sabemos combatê-las. É uma espécie de praga que assola a alma."

"Para que o amor seja bom, seria preciso, me parece, que ele transformasse o coração, que ele esfrangalhasse os nervos e devastasse a cabeça; seria preciso que ele fosse - como eu diria? - perigoso, terrível mesmo, quase criminoso, quase um sacrilégio, que fosse uma espécie de traição. O que quero dizer é que o amor tem necessidade de romper barreiras sagradas, leis, laços fraternais; quando ele é tranquilo, fácil, sem perigo, dentro da lei, será mesmo que é amor?"

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