domingo, 15 de setembro de 2013

não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo

Quer algumas dicas para segurar seu marido ou namorado? Então, consulte Myrna, mulher experiente e que sabe saciar as dúvidas de outras companheiras de gênero. 
                                                         
Esse foi o segundo pseudônimo feminino de Nelson Rodrigues. Antes, já havia incorporado Suzana Flag. 'Myrna escreve' nasceu em 1949 no Diário da Noite (RJ). Era uma espécie de consultório sentimental que respondia cartas de leitoras de todo o país. Teve vida curta, pouco menos de um ano, mas intensa, como podemos conferir em 'Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo', seleção de Caco Coelho reeditada recentemente pela Nova Fronteira. Os títulos dos 44 textos escolhidos nos dão a pista dos temas discutidos, como o que vai na capa do livro, 'Conquiste todos os dias o seu marido', 'É preciso merecer a fidelidade', 'A mulher feia deve ser quase inconquistável', 'É uma delícia o ciúme sem motivos', 'Elogio da solteirona', 'Tão difícil ser mãe!', 'A verdadeira lua de mel não acaba'. Myrna também escreveu o romance em folhetim 'A mulher que amou demais'.

Ainda não sei se as cartas eram verdadeiras ou inventadas pelo dramaturgo, jornalista e romancista conhecido por seus textos ácidos e por retratar 'a vida como ela é'. Aliás, nome de outra coluna que teve em jornal. 

As frases de Myrna são bem diretas. Não há delonga nem eufemismo na hora de apontar as falhas das mulheres no campo sentimental. Alguns homens também a procuravam na tentativa de entender suas amadas. Dentre seus principais conselhos está o cuidado diário que a mulher deve ter com sua aparência física, sobretudo diante do marido. Muitas e muitos podem considerar suas opiniões machistas. Ela se defende dizendo que o destino da mulher é sofrer, e isso é culpa exclusivamente da natureza.

O texto que mais gostei foi  'O amor que não morreu, nem morrerá', que aborda o amor insubstituível, mesmo depois da morte. Myrna comove quando diz que "o mundo conhece centenas de amores que não se realizaram e ainda assim foram imortais. É possível, assim, um amor que se aprofunde na solidão, um amor que se baste a si mesmo, que se nutra da própria força." Recente adaptação teatral, 'Myrna sou eu', deu cara à conselheira. Ainda em cartaz.

Myrna escreve:

"Uma mulher que, tendo dinheiro, vive com uma única combinação - ou duas - está se acondenando a uma triste sorte amorosa."

"Pobre menina! Acredita que uma esposa possa se conservar irredutível diante do gosto e dos pedidos ou exigências do marido. Não, não pode, Antonieta."

"A personalidade é luxo da mulher que não gosta, que não tem nenhum homem, nenhum sentimento na sua vida. Chegado o amor, tudo muda."

"Eu sei que existem mulheres irredutíveis, que jamais abdicaram. Mas essas não passam de frustradas. Tiveram um grande sentimento e fracassaram."

"Maria das Dores faz a seguinte pergunta: 'devo andar bem-vestida dentro de casa, para meu marido? Ou não precisa?' Preliminarmente, devo observar o seguinte: 'nenhuma mulher tem o direito de formular semelhante pergunta.' "

"Lembre-se: na rua, você só encontrará meros e distraídos transeuntes, ou amigas, conhecidas ou desconhecidas, que nada influem na sua felicidade. Mas, na sua copa, na sua sala, ou em qualquer dependência de sua casa, está o homem que você amou, entre milhões." É aí que Myrna pergunta para quem devemos nos arrumar, afinal.

"O fato de você ter filhos, de cozinhar e de lavar as camisas do marido não a obriga a ser desinteressante, física e espiritualmente desinteressante."

"Ora, o pior de todos os infernos - se é que existem vários infernos - é o tédio."

"A maioria absoluta das mulheres pensa que é bonita. E vive, envelhece, morre nesta ilusão."

"Os amorosos que têm confiança não são amorosos. Quem ama desconfia, sempre."

"O amor de uma mulher, quase sempre, faz mal à outra, sobretudo se esta não teve ou não tem um sentimento parecido. A coisa mais fácil e comum no mundo é uma amiga sugerir que acabemos com os nossos romances. Uma amiga é intransigente, feroz, agressiva. Opina: 'Eu não aturaria isso!' Aturaria, sim. Aturaria isso e coisas piores."

Capa da primeira edição da coletânea



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