sábado, 24 de agosto de 2013

a distância entre nós

Imagine alguém que sofre muito. Bhima. Imagine alguém que teve todos os seus sonhos destruídos. Bhima. Imagine alguém que tem ódio da vida, mas que tem que continuar vivendo. Bhima. Se você acha que sua vida não é fácil, você ainda não conheceu Bhima, a protagonista de “A Distância Entre Nós”, da escritora indiana, que hoje vive nos Estados Unidos, Thrity Umrigar. 

Ela faz parte da geração de escritores indianos (ou filhos de indianos) que retratam o amor à família, promessas desfeitas e sonhos destruídos. E tudo com grande dose de inocência dos personagens, o que faz com que sejam doces e comoventes. 

Este romance não é diferente. Eu o vi na livraria logo que foi publicado no Brasil, em 2006, mas só recentemente o adquiri. Junto com Bhima no jogo de quem sofre mais está Sera, sua patroa. Enquanto uma enxuga as lágrimas em lençóis de seda, a outra as engole antes de entrar no barraco em que mora, em uma das favelas de Bombaim ou Mumbai, como preferirem.

Sera é filha de acadêmicos renomados e se casou com Feroz num arranjo que a agradou. Mas estava enganada. O marido era extremamente violento. Não demorou muito para receber o primeiro golpe. Orgulhosa, ela aguentava em silêncio cada pancada que recebia. Assim como tolerava as investidas negativas de sua sogra. Ou seja, seu sonho de família foi destruído nas primeiras semanas. Sua vida era um verdadeiro inferno, disfarçado pelas boas coisas que o dinheiro pode comprar.

Bhima, por sua vez, até que se deu bem no amor. Quero dizer, de certa forma. Linda a passagem que mostra como conheceu o seu Gopal e o que ele fez para conquistá-la: seguia todos os dias de bicicleta o ônibus que ela pegava, sempre com o sorriso no rosto e uma bela canção. Aqui não houve arranjos. Apenas promessas. E se essas não foram cumpridas foi culpa do destino, somente. Tiveram dois filhos e eram felizes. Até que Gopal sofre um acidente no trabalho. E Bhima é enganada e levada a assinar um acordo que nunca existiu. Começa aí seu ato de sofrimento contínuo. Gopal perde o emprego, a dignidade e entrega-se ao alcoolismo. Até que desaparece levando o caçula do casal. Mais tarde é a vez da filha ir embora, mas pelas mãos da Aids. Tudo nos é contado por meio de retrospectivas, não lineares, intercaladas com o presente.

No início do livro, Bhima imagina como seria fácil dar um chute na barriga de Maya, sua neta que dorme no chão, e acabar com mais uma sucessão de fracassos que a assola. Com apenas dezessete anos, a menina estava grávida. E assim destruiu o que poderia ser o último sonho da avó. Mas não pense que esta mulher é má. Apenas “está cansada de tudo, cansada desse ciclo incessante de nascimento e morte, cansada de investir qualquer esperança na próxima geração.”

Se buscam um romance com bastante sofrimento, fica aí a dica. Eu sou fã do gênero. Vejam outras sugestões no post a índia é bem mais perto do que parece.

3 comentários:

  1. A doçura do mundo, Um lugar para todos, A primeira Luz da Manhã, O Tamanho do céu, A redescoberta do mundo. De todos esses títulos da autora os que eu mais gosto são esse "A distância entre nós" e 'A redescoberta do mundo', talvez por ambos serem situados na Índia. Tive a oportunidade de ter 'A doçura do mundo' e 'A distância entre nós' autografados pela autora que esteve no Brasil. Ela é uma fantástica contadora de histórias como todos os bons escritores indianos. [ Priya Drsti ].

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  2. Adorei, vou procurar para ter aqui na Biblioteca do Colégio onde trabalho, para que os alunos leiam.
    Ótima dica.
    marilise3673.blogspot.com.br

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