sexta-feira, 31 de maio de 2013

as virgens suicidas

Estamos em um bairro residencial dos Estados Unidos nos anos 70. Sabe esses lugares pacatos e parados nos quais o entretenimento é basicamente cuidar da vida dos outros? Pois é, este é o cenário de “As virgens suicidas”, do autor norte-americano Jeffrey Eugenides. 

A história é narrada por um vizinho da família Lisbon: pai, mãe e cinco filhas entre 13 e 17 anos. O enredo é baseado no mistério, o melhor tempero da sedução. E é assim que as meninas atiçam a curiosidade de todos. Como estão sempre escondidas e vigiadas, o pouco que se sabe sobre elas se dá por meio de suposições. O narrador lança mão da descrição de outros tantos personagens na tentativa de adentrar nos sentimentos delas.

Os pais são extremamente protetores, em especial a mãe. As garotas praticamente não saem de casa, a não ser para ir à escola. E esse direito também lhes é tirado no decorrer da trama. Trancadas em casa, são alvo de conjecturas e paixões platônicas dos adolescentes que vivem nas redondezas. As informações sobre seus hábitos são colhidas por meio de pessoas que conseguiram entrar na casa, por meio dos lixos que vasculham ou pelos vultos que conseguem captar nas janelas de seus quartos. 

Logo nas primeiras páginas o interesse pelas Lisbon aumenta com o suicídio da caçula, durante a primeira – e última – festa que organizam. Na sequência, a família que já era excêntrica por suas manias e distanciamento, se vê ainda mais sucumbida à prisão de suas próprias crenças e, talvez, culpa.

A leitura é tensa. A descrição, embora breve, é precisa e nos leva ao mesmo patamar de dúvidas nunca saciadas dos garotos e, mais longe, ao mesmo desalento das meninas. O que passou por suas cabeças, nunca saberemos.

Em 1999, o livro deu origem ao primeiro filme dirigido por Sophia Coppola. A leitura ainda vale pelas breves referências aos anos 70, suas músicas, preconceitos e ânsia pela liberdade sexual e de expressão.

Trailer do filme


Trechos

"Por que as pessoas passam o tempo inteiro fingindo que são felizes?"

"Ficamos sabendo, enfim, que na verdade as meninas eram mulheres disfarçadas, que compreendiam o amor e também a morte, e que o nosso trabalho era apenas gerar o ruído que parecia fasciná-las."

"Elas nos fizeram participar de sua própria loucura, porque não conseguíamos deixar de refazer seus passos, repassar seus pensamentos, e ver que nenhum deles conduzia até nós."

"Em suma, o que temos aqui é uma sonhadora. Uma pessoa sem contato com a realidade."

quarta-feira, 15 de maio de 2013

livro dos bichos



Organizado em 1997 pelo escritor gaúcho Sergio Faraco, o "Livro dos bichos" traz uma bela seleção de poetas portugueses e brasileiros que viveram entre os séculos 16 e 20. Todos os poemas são dedicados aos animais. Olavo Bilac, Bocage, Fernando Pessoa, Álvares de Azevedo, Camões, Casimiro de Abreu foram alguns dos escolhidos. Nas palavras de Faraco, “este livro é dedicado à possibilidade e à beleza do convívio do homem com os animais, e também às pessoas que os amam.” Para ser lido sem pressa, aproveitando versos profundos como "Amo-te ó boi piedoso! Um sentimento de vigor e de paz tu me forneces”, do pernambucano Odilson Nestor.COLE

Além dos bois, ursos, morcegos, sabiás, corvos, leões, carneiros passam pelas páginas com suas angústias, divagações ou, simplesmente, aceitando as imposições dos seres humanos. Justa homenagem feita a todos os bichinhos.

Peço licença para reproduzir, na íntegra, o poema de Teixeira Pascoaes, português amante da natureza e do saudosismo. Sua obra tem me atraído ultimamente. Recomendo.

"Que triste o olhar do cão! Até parece
mais um queixume, um íntimo lamento
da noite interior que lhe escurece
o coração, que é todo sentimento.

E os mansos bois soturnos! Que tormento
em seus olhos, tão calmo, transparece...
E os olhos da ovelhinha e os do jumento!
Que tristes! Só o vê-los, entristece...

Chora, em todo o crepúsculo, a tristeza.
E além do ser humano, a natureza
é lívida penumbra feita de ais...

Por isso, o vosso olhar de escuridão
é mais lágrima ainda que visão,
ó pobres e saudosos animais!"

terça-feira, 14 de maio de 2013

a árvore e a casa


Depois de mais de vinte anos conosco, ela precisou ser transplantada. Verde e com folhas largas, a árvore que meu pai plantou na calçada de casa precisou ir embora.

Minha mãe gosta muito de plantas. Ela tem várias no quintal, seu jardim. Samambaias, boldo, alecrim, plantas diversas e, especialmente, orquídeas. Essas se tornaram sua grande paixão.

O carinho também se estende à árvore que tínhamos. Atenção com a poda, água e até com o cercadinho que a protegia. Mas sua raiz estava afetando o encanamento do vizinho e, posteriormente, os canos da rua. Sim, ela cresceu muito. E, pelo jeito, tinha ótima sustentação.

Foi uma decisão complicada. Tudo foi tentado para mantê-la perto de nós. Era hora, porém, de nos despedirmos da árvore. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente foi acionada para que ela fosse transferida para outra localidade. Ficamos tristes. Sabe quando você perde alguém que gosta muito? Foi assim com nossa plantinha. Preocupada, minha mãe acompanhou todo o procedimento para a retirada da árvore.

Pode parecer bobeira, mas acredito que as plantas têm sentimentos. Lembro quando minha mãe foi para o Japão em 2008. Pouco antes da viagem, ela podou a árvore. Pode parecer mentira, mas durante sua ausência nenhum galho ou folhinha cresceu. Estava murcha, parecia doente. Quando minha mãe voltou, lá estava ela, novamente cheia de folhas, grande. Viva.

Na época em que meu pai a plantou, era apenas uma mudinha. Com o passar dos anos, assim como meus irmãos e eu, cresceu. Cobria até os fios elétricos de casa e dos vizinhos. Era referência para as visitas: “ao descer a rua, é a casa com uma árvore na frente.”

Ela não está mais lá. Foi para uma rua próxima, mais arborizada. Segundo a subprefeitura, a árvore permanece na região para manter o equilíbrio da fauna e flora. Fui até o novo endereço na expectativa de vê-la, mas eram tantas as árvores que fiquei confusa. Engraçado que lá no meio de tanto verde, uma me chamou a atenção, talvez fosse ela. Agora o carinho e a recordação de infância ficarão sempre comigo. Simbolicamente, guardei um galho com algumas folhinhas. Lembrança deixada na calçada no dia em que ela teve que partir. Quem sabe não seja uma breve viagem.

A árvore

“Canção divina as cousas comovia,
E de ternura as árvores choravam...
E lembrava o luar a luz do dia
E os ribeiros, extáticos, paravam.”

Trecho do poema “A sobra de Eurídice”, de Teixeira Pascoaes, poeta e escritor português (1877/1952). Amante da natureza, seus versos transitam pela 'experiência existencial da saudade”.



domingo, 12 de maio de 2013

um livro chama outro. e outro.

E quando você  não quer terminar de ler o livro? Afeiçoou-se tanto a ele que o iminente fim da história lhe deixa um vazio. É quando começa a busca por outros títulos do mesmo autor. Algo que traga novamente a sensação de amparo que os bons livros conseguem dar. São eles os melhores conselheiros. Sem serem invasivos. Sem julgamentos. Dizem apenas o que queremos ouvir, afinal a interpretação é nossa. Livre, desinibida e muito, muito particular.


sexta-feira, 10 de maio de 2013

garota exemplar

“Se este livro terminar do que jeito que estou imaginando, vou ficar extremamente decepcionada.” Foi o que eu disse quando estava mais ou menos na metade de ‘Garota Exemplar’, da jornalista norte-americana Gillian Flynn. Não que estivesse cansada da leitura, mas porque a estava adorando e não queria ser surpreendida de forma negativa.

O romance fala de casamento e o que de pior ele pode ocasionar. Mais que isso, aborda os perigos de nos ligarmos a pessoas que se consideram perfeitas e especiais. O relato é feito pelo próprio casal, individualmente. Nick conta seu ponto de vista como desabafo e Amy por meio de seu diário (deixo aqui um ponto de interrogação). Cheio de retrospectivas, tem a trama central ambientada quando estão prestes a completar cinco anos de união. Temos as verdades, mentiras e as falsas percepções de ambos sobre tudo.

O relacionamento começou numa festa no Brooklin. Amy já estava com mais de trinta anos e se sentindo a solteirona da turma. Nick apareceu como sendo a pessoa certa para ela passar o resto da vida. Seus pais são psicólogos que enriqueceram escrevendo “Amy Exemplar” (daí o título), série de livros infanto-juvenis inspirados na filha única. Além da homônima, ela tem que lidar com o matrimônio perfeito dos pais. Eles são inseparáveis, nunca discutiram e estão sempre felizes. Como ela própria diz, quem convive com família desunida tem seus problemas, mas quem está dentro do ambiente sem defeitos também tem questões a serem resolvidas.

Os pais de Nick são divorciados. A forma impositiva e arrogante com que seu pai tratava a mãe fez com que bloqueasse a expressão de seus sentimentos. Desenvolveu um sorriso que serve praticamente para todas as ocasiões, na expectativa que pudesse se passar sempre por simpático, sem se expor. Sua vida desmorona quando perde o emprego na revista em que trabalhava como jornalista cultural. Sente-se fracassado, sobretudo, por ter bem menos dinheiro que a esposa. A doença terminal da mãe é só o pretexto que precisava para sair da Nova-York-com-cara-de-Amy e retornar à cidade natal, no centro-oeste dos EUA. Tentativa de fugir do que queria ser e nunca foi. Com a irmã e o dinheiro da esposa, abre um bar. Na manhã do aniversário de casamento, Amy some. A polícia encontra sinais de briga forjada e Nick é suspeito.

O thriller já caminhava de forma eletrizante quando que gritei: “Reviravolta no livro.” Confesso que o drama adentrou no rumo que eu havia suposto. Mas felizmente isso não comprometeu seu suspense, mesmo com diálogos clichês. Enfim, ouvindo os dois protagonistas sentimos que tudo poderia ter sido diferente, e valido a pena, se. E somente se. Não vou contar mais. Até porque vocês têm que ler a história. Enquanto isso, cuidado com seu cônjuge, principalmente se a pessoa acredita conhecer muito bem você.



Frases

“Eu teria feito qualquer coisa para me sentir real novamente.”

“Estou cansada de não saber com quem estarei, ou se estarei com alguém.”

“Há uma diferença entre realmente amar alguém e amar a ideia dessa pessoa.”

“Na verdade, queria que ela lesse minha mente para eu não ter de me rebaixar à arte feminina da articulação.”

“Eu sou um grande fã da mentira por omissão.”

“Algumas vezes puni você por não ser capaz de ler minha mente, por não ser capaz de agir exatamente da forma como eu queria que agisse naquele exato momento.”

“Muitas pessoas carecem deste dom: saber quando se mandar.”

“Eu estava fingindo, como muitas vezes fazia, fingindo ter uma personalidade.”

quarta-feira, 1 de maio de 2013

o tempo entre costuras

María Dueñas me conquistou. Li seu segundo livro, “A melhor história está por vir”, sem pausas. Agora terminei o best-seller “O tempo entre costuras”, primeiro romance da escritora.

A narração é feita pela protagonista, Sira Quiroga, e passa pelos bastidores de dois grandes conflitos, a Guerra Civil Espanhola (1936/1939) e a Segunda Guerra Mundial (1939/1945). Personagens fictícios interagem com personalidades reais desse período, como Juan Luis Beigbeder y Aienza, Allan Hillgarth, Rosalinda Fox, Serrano Suñer. Todos envolvidos em questões políticas, serviços de inteligência e a administração do protetorado espanhol em Marrocos.

Sira mora com a mãe em Madri. As duas são costureiras e levam a vida sem extravagâncias ou sobressaltos. E também sem muito entusiasmo, fica noiva de Ignacio. Para ela, apenas “alguém com quem passar o resto da minha vida adulta sem ter de acordar a cada manhã com a boca cheia de solidão.” Até que ele a leva para comprar uma máquina de escrever. A aquisição seria o último passo do casal ao altar. Ela aprenderia novo ofício, já que a iminente guerra civil havia prejudicado todos os tipos de negócios, inclusive os ateliês de costura. Enquanto o noivo está atento a todos os detalhes do equipamento, ela boceja e vai dar um passeio pela loja. É quando Ramiro aparece com seu ar galanteador, poderoso e requintado. O oposto do pacato Ignacio. Sira estremece. A paixão arrebatadora põe fim no noivado e ela parte com o amante para Marrocos. Ainda não sabia que seria abandonada grávida, endividada e com processos judiciais nas costas.

Dividido em quatro partes, o livro mostra o amadurecimento e as reviravoltas da protagonista ao longo dos anos e dos lugares que frequentou em Tetuán, Madri e Lisboa. A habilidade com a costura apresenta a Sira outro mundo: sofisticado, mas cheio de espionagem e traições políticas. E é justamente esse ofício que a transformará de ingênua em astuciosa e requisitada. A personagem foi muito bem construída e o modo com que é descrita nos permite perfeita visualização de seus traços, seus trejeitos, suas roupas. Tudo de acordo com a ocasião em que se encontra. “Nunca desmenti nem uma vírgula da imagem que havia se formado de mim... Também não a alimentei: simplesmente me limitei a deixar tudo em suspense, a alimentar a incógnita e me fazer menos concreta, mais indefinida: grande gancho para atrair a curiosidade.” Leitura obrigatória para quem aprecia bons livros. A espanhola Antena 3 adaptou o roteiro para a televisão.


Trechos

“Eu era céu e as estrelas, a mais bonita, a melhor. Meu cabelo, meu rosto, meus olhos. Minhas mãos, minha boca, minha voz. Eu inteira configurava para ele o insuperável, a fonte de sua alegria.”

“Não me repreendeu nem me pediu que reconsiderasse meus sentimentos. Só pronunciou mais uma frase, lentamente, como se escorresse.
- Ele nunca vai amá-la tanto quanto eu.”

“Não era exatamente alegria que eu sentia nos ossos enquanto os últimos raios de sol acompanhavam meus passos de volta para casa. Nem entusiasmo, nem emoção. Talvez a palavra que melhor se encaixasse no sentimento que me invadia fosse orgulho.”

“Mas errei, como quase sempre se erra quando construímos concepções com base no frágil apoio de uma simples ação ou algumas palavras.”