segunda-feira, 29 de abril de 2013

ler é assim

E quando você não quer fazer nada além de ler? As pessoas lhe chamam. Mas você não consegue desgrudar do livro. Com relutância levanta o olhar para ver quem pede sua atenção. Pode parecer que você é egoísta. Ensimesmado. Abstraído da realidade. Não compreendem. A leitura é deveras importante para ser deixada de lado. Há personagens que precisam de você. Narrativas que só serão rematadas com a sua ajuda. Enfim. E não por outro fim.


domingo, 21 de abril de 2013

a vida privada das árvores

'A vida privada das árvores' é o segundo romance do chileno Alejandro Zambra. Escrito em 2007, somente agora chegou ao Brasil, em uma bela edição da Cosac Naify.

O livro conversa com a obra anterior do autor, 'Bonzai'. Personagens e histórias que se misturam e nos confundem. Aqui temos Julián. Em 'Bonzai' era Julio. Julián foi um erro do escrivão que não quis entender o nome que lhe foi ditado. E assim ficou.

O narrador avisa que o romance só terá fim quando Verónica chegar - ou quando Julián tiver a certeza de que isso não vai mais acontecer. É ela quem Julián espera enquanto tenta entreter a enteada Daniela. Para tanto, conta a história que criou sobre duas árvores amigas. Em determinado trecho a menina dorme e ele revisita sua própria vida, os momentos com os pais, o relacionamento anterior, vazio e indiferente, e os bolos de três leites que o levaram até o casamento com Verónica e ao papel de padastro.

Como Julio, Julián também quer ser escritor. É incapaz de se mover diante de situações inesperadas, prefere horas de estagnação a ter que agir. Às vezes prefere imaginar o que poderia acontecer. Nesses momentos sua hipotética ação mistura-se com seu texto inacabado. Verónica está tendo aula de desenho. Mas há muito tempo já era para estar em casa. Ela demora. Ele divaga. A garota dorme e o futuro chega. Cabe a nós, leitores, separmos a ficção da suposta realidade desse intrigante e suscinto romance. E dar-lhe o fim que desejamos.

Trechos

"Os protagonistas são um álamo e um baobá que de noite, quando ninguém está vendo, conversam sobre fotossíntese, esquilos, ou sobre as numerosas vantagens de serem árvores e não pessoas ou animais ou, como eles dizem, estúpidos pedaços de cimento."

"Julián não queria recuperar o amor, pois deixara de amá-la havia muito tempo. Deixara de amá-la um segundo antes de começar a amá-la. Soa estranho, mas é assim que ele sente: em vez de amar Karla, ele amara a possibilidade do amor, e depois a iminência do amor."

"Tudo bem, era sem compromisso, como deve ser: ama-se para deixar-se amar e se deixa de amar para começar a amar outros, ou para ficar sozinho, por um tempo ou para sempre. Esse é o dogma. O único dogma."

"Não vai recordar nenhuma história que dê sentido a seu presente, ao passado, ao futuro. Não quer se enganar. Sua vida não mudou: não sabe mais, não sabe menos. Não sente mais, não sente menos."

"A gente nunca está contente com o que é. Seria estranho estar totalmente contente."

quinta-feira, 18 de abril de 2013

dia nacional do livro infantil

Hoje (18/4) é o Dia Nacional do Livro Infantil. Livros e Motivos já publicou diversas dicas de obras voltadas às crianças. Confira abaixo algumas delas e incentive a leitura.


De como enganei o sol, de Ricardo Azevedo
Sabe quando você programa uma atividade ao ar livre e conta com o sol. Lá, brilhando e aquecendo seu lazer? Pois é assim com o protagonista deste livro infantil. O garoto veste o uniforme e sai para jogar futebol no campo. Mas tão logo põe os pés na calçada vê o tempo se fechando, “ameaçando um toró”. Desanimado, volta para casa, veste outra roupa, mais adequada à chuva, e muda seus planos. Leia mais.

O cavalinho pinga fogo, de Fernando Lobo
É na Vila Tristeza, que de tristeza não tinha nada já que todos eram felizes, que nasceu e cresceu Pinga Fogo. O nome foi dado por um dos meninos do local, o Alemão, que conheceu o cavalo ainda pequeno. O ponto de encontro deles e de todas as outras crianças era o lago. Lá eles pulavam na água, comiam as frutas frescas que havia nos arredores e se divertiam muito, sempre acompanhados de Pinga Fogo, que repetia os gestos da molecada. Leia mais. 

A bola e o goleiro, Jorge Amado
O futebol era uma das paixões de Jorge Amado. E esse amor rendeu um belo livro infantil, “A bola e o goleiro”, escrito em 1984. O romance fala sobre Fura-Redes, a bola quek era a alegria dos artilheiros. Com ela, os jogadores faziam gols sensacionais e inesquecíveis. Os locutores também ficavam enlouquecidos ao narrarem seu percurso. A habilidade para balançar a rede deu-lhe vários apelidos, tais como Esfera Mágica, Goleadora Genial, Pelota Invencível e Redonda Infernal. Leia mais.

Maria vai com as outras, Sylvia Orthof
Maria é uma ovelha que segue exatamente o que as outras fazem. Se todas estão indo para o polo norte, ela vai. Se vão para o deserto, lá está Maria, mesmo passando muito calor. Se todas sobem, ela sobe. Se descem, ela desce. Até que resolvem comer jiló. Maria não gosta, mas mesmo contrariada come. Leia mais.

Quem sou eu, Gianni Rodari
O título do livro é a pergunta que Pedro faz a todos que encontra pelo seu caminho: mãe, irmã, amigos, motorista do ônibus e até a revista em quadrinhos. O resultado é a soma dos substantivos que indicam o que ele é para cada um dos interlocutores: filho, irmão, amigo, passageiro, leitor. Leia mais.

Marcelo, marmelo, martelo,  Ruth Rocha
Marcelo tem muitas dúvidas. Quer saber por que a chuva cai, por que o mar não derrama e por que o nome dele não é marmelo ou martelo. Aliás, ele passa a implicar com os nomes dos objetos, das pessoas. Para ele, cadeira tem que se chamar sentador. Travesseiro é cabeceiro. Leia mais.

Fonchito e a lua, de Mario Vargas Llosa
Fonchito é um garoto que mora em Lima. Seu sonho é dar um beijo na menina mais bonita da escola, a Nereida. Timidamente, ele toma coragem e faz o pedido. Ela fica vermelha e aceita, mas com a condição de que ele lhe traga a Lua de presente. E aí? Será que essa foi a forma que Nereida, delicadamente, encontrou para dizer “não”? Leia mais.  

Da pequena topeira que queria saber quem tinha feito cocô na cabeça dela, Werner Holzwarth e Wolf Erlbruch 
Imagine a situação: você acorda feliz. Dá aquela espreguiçada gostosa e, de repente, um cocô enorme cai bem em cima da sua cabeça. "Redondo, marrom, um pouco parecido com uma salsicha". Pois é isso que acontece com a toupeira neste hilariante livro dos alemães Werner Holzwarth e Wolf Erlbruch. Leia mais.

Mania de explicação,  Adriana Falcão
“Dificuldade é a parte que vem antes do sucesso.” “Sentimento é a língua que o coração usa quando quer mandar algum recado.” Estes são dois trechos do poético livro “Mania de Explicação”, de Adriana Falcão com ilustração de Mariana Massarani, que traz a fértil imaginação da menina que buscava explicação para tudo. Leia mais.

A estrela curiosa, de Walcyr Carrasco
Você sabe como se faz uma estrela? É fácil: "pegue um pouco de pó de Lua, misture com farinha de astros, incendeie com fogo do Sol e mexa com muito carinho!" Pronto. Agora é só moldar as estrelinhas e entregá-las às fadas que vão pendurá-las no céu com fios invisíveis. Essa receita está no livro "A estrela curiosa", de Walcyr Carrasco. Leia mais.

História pra boi casar, de Alessandra Roscoe
Era uma vez um boi que queria casar. Mas ele morava numa fazenda que não permitia essa união. Dizia-se que o fazendeiro não era nada casamenteiro. Então, o boi fugiu para terras que permitiam o amor. Esse é o enredo de “História para boi casar”, de Alessandra Roscoe, homenagem às cantigas e histórias contadas na infância. Leia mais.

Quatro amigos, Tatiana Belinky
O livro de Tatiana Belinky conta a história de quatro amigos (homem, cachorro, gato e gavião) que fizeram o pacto de lealdade. A partir do lema dos três mosqueteiros “um por todos e todos por um”, prometem que vão estar sempre juntos. Leia mais.

O gatinho perdido, de Therezinha Casasanta
Neste livro temos uma doce menina, a Lelinha, que encontra um gatinho perdido. Leva-o para casa e é repreendida pela mãe, pois não é certo ficarmos com algo que não é nosso. Então, a garota sai pelo bairro de porta em porta a procura do possível lar do bichano. Leia mais.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

e eu me rendi ao e-book

Estou lendo meu primeiro e-book. E confesso: adorando a experiência. Comprei meu e-reader recentemente. Mas com a promessa de não abandonar os livros impressos com suas texturas, cheiros e formas.

Meu aparelho é leve. A tela lembra muito o papel. Dá para fazer anotações. “Dobrar” a ponta da página. Ressaltar palavras e textos. Tem dicionário. É possível armazenar uma biblioteca inteira. Cabe fácil, fácil na bolsa. Aprendi as vantagens do formato e-pub e sua versatilidade ao permitir aumentar, diminuir e até trocar a fonte do texto. Ao mesmo tempo, questiono-me sobre a pirataria e a eventual adulteração. Tudo parece ser mais fácil no meio digital. Para o bem e para o mal.

Antes do meu leitor digital com tela monocromática, já havia tentado ler no meu tablet. Não gostei. Penso que é local para leituras rápidas. Talvez possa cair bem para livros infantis – cheios de animações, porém, para meus livros ainda fico com o preto no branco. Cansa bem menos a vista.

A desvantagem é que não dá para aninhá-lo nos braços após trecho que nos deixa, assim, a fantasiar. Ele precisa de energia elétrica para funcionar, o que requer cuidado para não ser surpreendida pelo fechamento automático do arquivo. Acredito ainda que o meu brinquedo novo não durará séculos, como certas reproduções que o tempo torna cada vez mais valiosas.

Enfim, há pouco mais de um ano, publiquei aqui no blog o post “Nunca li e-book”. Continuo pensando da mesma forma. Mas enquanto o mercado editorial, de forma incerta, discute o futuro do livro, eu apenas descubro nova forma de viajar por meio da literatura.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

o torreão

“O Torreão” foi definido pela própria autora, Jeniffer Egan, como romance gótico. Temos duas histórias que se misturam e que, aos poucos, vão se cruzando. Realidade e fantasia também se entrelaçam por meio de personagens enigmáticos e muito, muito esquisitos. Todos com suas manias e neuroses.

Danny surge como o mais excêntrico deles. Está sempre com os lábios pintados de preto e há dezesseis anos usa a mesma bota, seu amuleto da sorte. Mas tudo o que faz parece dar errado. E após outro grande fracasso, que não fica muito evidente, aceita sem pensar o convite feito pelo primo, Howard. Seu trabalho é ajudá-lo a transformar um castelo com mais de 900 anos em hotel para pessoas que queiram fugir do entretenimento fácil e, assim, aguçar a criatividade. O destino é algum ponto entre a Alemanha e a República Tcheca. Viciado em apetrechos eletrônicos, logo se vê em crise de abstinência por estar sem sinal de telefone ou internet.

Seus passos reais no castelo se confundem com seus sonhos. Lá ele é seduzido pelo torreão, ponto inacessível do castelo e que ainda abriga a antiga moradora do local, a baronesa. Mulher que aparece como espectro e que somente Danny conseguirá alcançar. E é neste local que acontece outra queda em sua vida. Após cair, literalmente, do torreão e arrebentar a cabeça, passa a acreditar que tudo não passa do plano de vingança do primo. Na adolescência, Danny largou Howard dentro de uma caverna, trauma permanente para ambos. 

No outro plano, Ray participa de aulas de redação no presídio no qual cumpre pena. Seu crime não é desvendado pelos leitores. A atividade o envolve a ponto que começa a se confundir com os personagens que cria. Enquanto isso, seu colega de cela diz ter criado um aparelho que se conecta com os mortos. Poderia esse ser o plano de fuga de ambos? Holly, a professora, também tem seus próprios delitos e assombros. Logo, todos eles se encontrarão. 

Jeniffer usa a crítica que repetiu no seu romance seguinte, A visita cruel do tempo: os efeitos da tecnologia e como ela nos rouba o tempo e a imaginação, afinal tudo nos chega pronto e imposto. Leitura rápida, intrigante e que passa como flashes. E para quem acha que o livro, com seus fantasmas, castelos e salas de tortura, beira o sobrenatural, fica a pergunta: será que tudo não é realmente só coisa da nossa cabeça?

"A menção a telefones, ou à falta de telefones, o fez lembrar que estava fora de contato por tempo demais, talvez uma hora, àquela altura, e o fato de tanto tempo já ter passado tornava fácil imaginar quanto tempo mais ainda podia passar, e depois mais tempo ainda. E Danny sabia por experiência própria que quando alguém saía da roda era só uma questão de dias até parecer que nunca tinha existido."