terça-feira, 27 de março de 2012

espaços para leitura


Pensei em escrever sobre os lugares nos quais mais gosto de ler: na varanda, no quintal ao lado dos cachorros, num agradável café, na cama, na sala. Mas resolvi trazer algumas imagens e situações que mostram que ler é encontrar espaço para que a imaginação possa fluir. Sem limites. 

Claro que um local tranquilo sempre ajuda a tornar a leitura mais agradável. Aproveite e inspire-se.

 Leia num banco do parque.
 

Folheie e contemple livros nas livrarias. 

O café é sempre um ótimo companheiro,
principalmente se estiver numa cafeteria aconchegante
  


Falta de tempo + livro fascinante =
 leia em pé mesmo. Na rua. 
 

 Quem nunca leu assim? No chão da sala. 

Ou no sofá?

Mas se tiver a oportunidade, aproveite
a maré para as viagens literárias. 
 
 


Um vinho. Um livro. Aquela dupla degustação. Fica a dica.

Boas leituras.

Imagens: Stock.XCHNG

segunda-feira, 26 de março de 2012

uma coisa, aquela coisa

No último sábado, com o propósito de aprender mais sobre o universo dos contadores de histórias, assisti a uma bela apresentação do professor e filósofo Gabriel Perissé. E, por meio dele, conheci outro filósofo, o espanhol Alfonso López Quintás, e seu conceito para âmbito e encontro. Segundo o pensador, há dois níveis para as “coisas”. O nível um é quando elas são “simplesmente coisas”: uma tábua que não nos remete a nada, uma pessoa com a qual não criamos vínculos.
O nível dois é alcançado quando há encontro. Para Quintás, encontro pressupõe interação. É o local das perguntas, das respostas e do interesse mútuo. Para exemplificar, Perissé cita o casamento em que o diálogo é substituído pela “falta do que dizer”.  Para ele, a única “coisa” que não pode faltar nesse tipo de relação é a conversa. “Pode faltar tudo: dinheiro, casa, sexo, mas se não houver diálogo, a união sucumbe.” Ou seja, não há mais encontro. Por isso, dá um conselho: “se não tiver nada interessante para dizer, invente.” Faz parte do encontro a criatividade para tornar as relações mais agradáveis e saudáveis. “Contar histórias é um ato filosófico porque você tira a névoa da vida”, diz o professor.
E é desse encontro que surge o âmbito, o nível dois das “coisas”. É o local das ideias, da criação, dos sentidos. Um perfeito exemplo de âmbito está na música “Naquela mesa”, de Sérgio Bittencourt. Lá, o compositor transforma uma mesa na metáfora das boas lembranças que tem do seu pai, Jacob do Bandolim.
“Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre
O que é viver melhor.
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória
eu guardo e sei de cor.
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente
O que fez de manhã...”

Ele fala das reuniões, dos bate-papos, dos amigos em torno de uma mesa. Encontros que faziam todos interagir, todos criarem e compartilharem. A partir do momento em que Bandolim morre, fica apenas a mesa, que volta a ser uma “coisa nível um” sem sua presença. Morre também o pronome demonstrativo “naquela”, que dá lugar ao pronome indefinido, como se dissesse: “agora é uma mesa qualquer.”
“Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala
No seu bandolim...”

Mas quando retoma as lembranças do pai, a mesa volta ser “aquela mesa”. Ela torna-se um memorial:

“Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele
Tá doendo em mim.”

O âmbito é o sinal de presença, o verdadeiro entrelaçamento de iniciativas que nasce de um encontro sem egoísmo. Quantas coisas descartáveis não temos na vida? E para quantas pessoas não somos nós essas coisas descartáveis? Conte uma história, dê significado e crie âmbitos.

Números pares, impares e idiotas 
Perissé também nos apresentou ao livro infanto-juvenil “Números pares, impares e idiotas”, de Juan José Millás e Antonio Fraguas “Forges”. Em um dos contos, o número 1 quer chegar a ser o 9, na visão dele superior, o ápice da categoria. Para tanto, vai cursar a faculdade de “novelogia”. Descobre, porém, que para chegar a ser 9 precisa, antes, ser 8. E vai para a faculdade do 8. Percebe, da mesma forma, que para ser 8, precisa ter sido 7. E vai estudar para ser 7. E para ser 6. 5. 4. 3. 2. Por fim, descobre que não passa mesmo de 1. Conforma-se e dedica-se a estudar o que é. Com o tempo, vai aprendendo a ser o 2, o 3, o 4, o 5, o 6, o 7, o 8. E, inclusive, o 9. Mas decide continuar sendo o 1, que é o primeiro, afinal.
Moral da história: o âmbito é, sobretudo, o vínculo entre eu e eu mesmo. Bons encontros para todos.

Uma tábua, aquela tábua

domingo, 18 de março de 2012

discurso das mídias

A análise das mídias está restrita a observações empíricas que não podem ser comprovadas com exatidão, isto é, estamos limitados à análise com base nos efeitos visados e não nos efeitos efetivos. A esses restam apenas meras hipóteses. Esta é uma das conclusões a que chega Patrick Charaudeau em “Discurso das Mídias”, traduzido no Brasil por Ângela M. S. Corrêa.

O livro é uma verdadeira decupagem de tudo o que envolve a construção de uma notícia, seja ela para a televisão, rádio ou imprensa. Embora sua primeira edição, no original francês, date de fevereiro de 2005, a internet não é mencionada.

Charaudeau inicia seu discurso apontando as três lógicas que regem as mídias: econômica, tecnológica e simbólica. Econômica porque os veículos de comunicação são empresas que precisam vender seus produtos. Tecnológica porque é um fator preponderante para o alcance da informação. Simbólica porque a mídia explora a imagem de ser um meio democrático e que existe para ajudar a população. Não é à toa que esse último fator é o que mais se sobressai nas análises midiáticas.

O autor propõe que alguns conceitos preconcebidos em relação à mídia sejam afastados. Um deles é que elas constituem o quarto poder, ao lado da justiça, do exército e da Igreja. A sentença não se aplica a uma instância que, ao contrário das outras três, não tem regras ou normas conhecidas por todos os envolvidos.

Contradizendo o que os atores da mídia dizem, ela não é a democracia, e sim o espetáculo da democracia. Por outro lado, o cidadão sempre aparece como refém, mas na verdade não o é. Ele compra os produtos fabricados de acordo com suas expectativas e audiência. É um pouco do que diz outro francês, Pierre Bourdieu. O sociólogo, que derrubou a televisão num discurso que virou best seller em 1997, afirma que mesmo diante do lugar-comum, os jornalistas buscam, ou pensam buscar, o extraordinário, o extra-cotidiano. E na eterna perseguição pelo furo de reportagem, acabam por caírem todos na mesma notícia. Como consequência, Bourdieu aponta a uniformização e a banalização dos conteúdos disseminados, tornando os produtos jornalísticos homogêneos. Na verdade, o que temos é uma produção coletiva. Para não frustrar seus públicos, os jornalistas não podem deixar de noticiar o que foi comentado “com sucesso” por seus pares nas outras emissoras.

Charaudeau também desmente que a mídia mostra a realidade social. Na verdade, ela impõe a verdade que constrói. Por ser uma linguagem, a informação traz a imagem através da visão do outro. A mídia nos apresenta apenas fragmentações do espaço público.

Toda linguagem é composta por pensamentos e palavras do outro. Desde que nascemos, estamos à mercê do outro, que passa a se integrar a nós à medida que repetimos, imitamos, reconstruímos, inovamos ou até mesmo nos apropriamos, como se fosse mesmo nosso, de um dito de outra pessoa. E isso não é diferente nos discursos midiáticos.

O quadro de referência para a análise proposta por Charaudeau consiste na troca entre duas instâncias: a produção e a recepção. No meio das duas, existe um texto ou o produto midiático. E é aí que o autor se detém a detalhar, por vezes até em demasia, todos os processos da construção da notícia, que envolve escolhas e construção de sentido. Fica a ideia de que o homem não fala para descrever, contar ou estruturar o mundo. Fala, sobretudo, para se posicionar em relação ao outro. É disto que depende sua existência.

“Toda escolha se caracteriza por aquilo que retém ou despreza; a escolha põe em evidência certos fatos deixando outros à sombra. A cada momento, o informador deve perguntar-se não se é fiel, objetivo ou transparente, mas que efeito lhe parece produzir tal maneira de tratar a informação e, concomitantemente, que efeito produziria tal maneira de tratar a informação, e ainda uma outra, antes de proceder a uma escolha definitiva.” (Charaudeau, 2009:38)


Clique aqui para ler o resumo.


domingo, 11 de março de 2012

uma sociedade

Na semana que se encerrou comemoramos mais um dia internacional das mulheres. Não cabe aqui mencionar os motivos que nos levaram a celebrar tal data. Enfim, exatamente no dia oito de março abri os “Contos Completos de Virginia Woolf”, linda edição da CosacNaify, e encontrei o trecho:

"... éramos cinco ou seis. Umas olhavam pela rua para as vitrines de uma chapelaria onde a luz ainda brilhava intensamente sobre plumas escarlates e chinelos dourados. Outras estavam ociosamente ocupadas em construir pequenas torres de açúcar na borda da bandeja de chá. Passados um tempo, pelo que eu lembro, juntamo-nos em volta do fogo e começamos a elogiar os homens, como de hábito - tão fortes, tão nobres, tão brilhantes, tão corajosos, tão belos - como invejávamos as que por bem ou por mal deram jeito de se ligar para sempre a um deles!"

É assim que começa o conto "Uma Sociedade". Ao retratar a década de dez, ele traz problemas ainda atuais para nós, mulheres tão emancipadas. Tão feministas. Tão empreendedoras. Sim, quando reunidas com as amigas, entre uma discussão e outra sobre o trabalho, a profissão e a bolsa de valores (ou seria outro tipo de bolsa?), sempre nos estendemos no top trends desses encontros: homens. De V. Woolf para cá, parece que pouco mudou. Mas o texto vai além. Ele questiona a capacidade intelectual masculina a partir da literatura. Uma delas, aos gritos, afirma que nem todos os livros são dignos de serem lidos. Ameaçadora, lê parágrafos de várias obras que encontrou durante sua peregrinação pela Biblioteca de Londres. Por exigência do pai, teria que ler todos os livros que lá encontrasse para ter direito à sua herança. Inclusive os muito ruins. Ao declamar algumas passagens, fez arder os ouvidos ali presentes. "Deve ter sido escrito por mulher", a mais preconceituosa alegou. Mas não. Todos foram escritos por homens.

"Se os homens escrevem porcarias assim, deveriam nossas mães ter perdido sua juventude para trazê-los ao mundo?", outras dizem ao lembrarem tudo o que suas matriarcas tiverem que deixar de lado para cuidarem dos maridos e filhos.

A partir daí, nasce um pacto. Entender o que se passa na cabeça deles. Até para ver se valia a pena tanto interesse. Munidas de perguntas, cadernetas e determinação, foram atrás dos homens nos navios de guerra, gabinetes, reuniões de negócios, concertos. Após cada jornada, reúnem-se para que as observações sejam comparadas. Estava criada uma sociedade com o objetivo de questionar tudo o que era feito, construído e dito pelo sexo masculino. Pretendiam "formar boas pessoas e produzir bons livros". Até que uma delas aparece grávida e a primeira guerra é anunciada. Não fica bem claro qual notícia foi mais bombástica. O que fica é que quanto mais questionavam e quanto mais respostas obtinham, menos doce ficava o mundo e mais fúteis os homens.

Se eles têm tanto poder é porque “fomos nós que os criamos e nutrimos e mantivemos em conforto desde o começo dos tempos para que eles pudessem ser inteligentes.”

Conclusão: melhor não questionar tanto se queremos ser apenas felizes. Será?


quinta-feira, 8 de março de 2012

nunca li e-book



Cena de "The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore"

Penso que é muito mais fácil folhear um livro que percorrê-lo com a ajuda das telas touch screen. Sou entusiasta da tecnologia e, também, tenho como objetos de desejo todos os i-something disponíveis. Todavia:

1. Gosto de sentir o livro. Eles têm cheiros, formas. Eles guardam marcas que podem ser impregnadas em outras pessoas.

2.  Podemos ter boas surpresas ao abri-los aleatoriamente. Quiçá uma frase que precisávamos naquele momento ou um estalo para um projeto maior.

3.   Sou nostálgica. Quando criança, pegava um dos volumes que tinha em casa e ia com ele para o quintal. Sentava e folheava as páginas lentamente. Em minha ingênua imaginação, as pessoas a passar pela calçada diriam: “nossa, ela já lê, que bonitinha.” O efeito seria o mesmo com computador? “Nossa, que bonitinha. Já sabe mexer em tablet.” Não, definitivamente, não.

4.  Marco meus trechos favoritos para depois relê-los. Partilhá-los. Sei que isso é possível com e-books. Mas eles não permitem os marcadores adesivos e coloridos pelos quais sou aficionada.

5.  As estantes com várias capas, organizadas por autor, são encantadoras. E o que dizer das bibliotecas, das livrarias e até da cabeceira da cama sem os livros impressos? E, acima de tudo, livros dentro de kindles e tablets jamais serão únicos. São cópias digitais.

6.  A bateria dos livros nunca acaba. Ela se autorrenova. Os livros curam e são curados.

7.  Enfim, eles têm vida própria. Dançam, cantam, voam e nos conduzem.

Encontrei a ilustração perfeita para todas essas minhas inclinações no curta-metragem de animação vencedor do Oscar de 2012: “The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore”, de William Joyce e Brandon Oldenburg, inspirado no livro com o mesmo nome. Lá está a história de um rapaz apaixonado pela literatura. Após um furacão, ele é transportado por livros voadores e por uma bela moça até uma fantástica biblioteca. Instigante e com pinceladas de “O Mágico de Oz”, ele reproduz com exatidão o porquê de os livros ainda não terem sido substituídos pelo e-book. Sem mais explicações. “Mas se a vida está sendo curtida, precisa fazer sentido?”, escreveria o protagonista.

Assistam. E leiam J
  


terça-feira, 6 de março de 2012

sobre os protetores dos animais

A violência contra os animais é gritante. Diariamente, pessoas descontam suas iras em cachorros, gatos e outros bichos. A boa notícia é que a população está mais atenta. 

Recentemente, uma cidadã foi filmada enquanto atirava seu cão ao chão. O acontecimento chamou a atenção dos internautas, que se mobilizaram para apedrejá-la virtualmente. 

Pela quantidade de casos expostos, parece que virou moda incendiar cães e cavalos. Eu penso que atos semelhantes sempre existiram. Ocorre que temos cada vez mais denúncias que chegam até nós com a ajuda dos meios de comunicação. O que é plausível. A defesa dos animais precisa de incentivadores. Precisa de adeptos. Aliás, quanto mais simpatizantes houver, menos animais serão maltratados.

O problema é que o inimigo pode estar na própria causa. Muitos protetores alegam, com razão, que dentro dessa violência temos que incluir a alimentação. Tratam como hipócritas os que defendem um cachorro enquanto comem um sanduíche de pernil – a minoria talvez até seja.

Infelizmente, é preciso aceitar que poucos fazem a distinção entre animais para comer, animais para brincar, animais que são utilizados como cobaias. A tendência é defenderem, sobretudo, animais domésticos e selvagens. Ao passo que bois, galinhas, peixes, porcos são degustados sem remorso. Inclusive por alguns ativistas. Não é prudente, porém, desanimar os que veem com bons olhos a causa, mas que ainda utilizam produtos de origem animal. Afinal, são eles que vão ajudar a eliminar as touradas, a farra do boi, as carroças, as gaiolas, os aquários e a aprovar leis mais severas.

A análise de dezenas de reportagens na Folha Online sobre o Peta – People for the Ethical Treatment of Animals -, um dos grupos mais conhecidos do mundo, mostra a falta de credibilidade que seus protestos mais radicais têm, como as passeatas com pessoas nuas e boicotes destrutivos. Embora seja uma luta autentica, o que fica no discurso da mídia é que são arruaceiros e sem muitos argumentos, observação que se estende aos leitores.

Questiono, do mesmo modo, campanhas que mostram animais mortos e ensanguentados. Como apontou Roland Barthes em "Mitologias", essas imagens podem nunca chocar porque não estamos diante da cena, nem estamos presenciando e vivenciando o fato. Alguém já viu e sofreu por nós. Resta, apenas, a repulsa.

São incontestáveis, ainda assim, os méritos da defesa dos bichos, muitos do Peta, inclusive, que tem anúncios bem criativos. Afinal, alguma revolução é necessária. Há notáveis exemplos, como as restrições à vivissecção, a diminuição do comércio de peles e a proibição de animais em circos. A única objeção está na imagem que ela passa para a população que precisa ser seduzida. E que, em sua maior parte, não entende que queimar um cão pode ser o mesmo que devorar uma feijoada.

Por ora, não adianta dizer que o prato do seu amigo está vivo. Não adianta dizer ao vizinho que recolhe animais de ruas que ele não tem propriedade para tal, já que come carne. Não adianta tirar a roupa e fazer protestos. Lamento muito, mas isso não vai fazer ninguém virar vegetariano. Seguimos os exemplos de quem legitimamente admiramos e respeitamos.

Compreender, embora seja difícil, que a utilização de animais pelos seres humanos é muito mais que um hábito e se constitui em algo antropológico, surge como a opção mais sensata para equilibrar a relação entre os seres vivos. Confesso que já tive atitudes radicais na defesa dos animais. Pelo olhar assustado dos colegas, percebi que o convencimento pode ser obtido de maneira mais sútil. Claro que queremos que todos sejam livres. Antes, precisamos de mais seguidores. O resultado poderá ser constatado em vários pratos revisitados.

Todos merecem a liberdade e o respeito

Vídeo que traz campanhas em prol dos animais


domingo, 4 de março de 2012

tapete mágico

O primeiro romance que li contava as peripécias de um tapete mágico. Nem me perguntem o título ou autor porque não lembro. Entretanto, adquiriu grande importância. Não era tão 'pequeno'. Tinha 'várias páginas e muito texto'. E foi escolhido durante uma das aulas de leitura do ensino fundamental, quando eu tinha sete ou oito anos.

Elas eram dadas pelo professor Galhardo uma vez por semana, de modo que levei um mês, acredito, para terminar aquela obra. A metodologia que utilizava era mais ou menos assim: numa mesa distribuía vários exemplares da literatura infantil. Então, éramos incentivados a circular e encontrar algo que nos chamasse a atenção.

Escolhi o tapete mágico. Nas aulas seguintes, enquanto as outras crianças folheavam os livros mais ilustrados e namoravam as capas mais coloridas, meus olhos buscavam 'minha história'.

Aladdin com o famoso tapete mágico

Já com onze anos, fui apresentada pelo mesmo professor ao Erico Verissimo e ao fabuloso "Música ao Longe". Que personagem adorável, romântica e linda era a Clarissa! Eu queria ser como ela. Escrever num diário, ter meus alunos, ler poesias e apaixonar-me por um rebelde de bom coração como o Vasco, Gato-do-Mato. Devorei o livro, que ainda é o meu favorito, num único suspiro pré-adolescente.

"Professor, tem outro livro como este?" "Sim." E saí da sala de leitura, como era chamada nossa biblioteca, com "Clarissa". Lá encontrei a adolescência da minha protagonista querida. Sua vida na pensão da Tia Zina e a relação com os outros hóspedes, em especial Amaro, o músico solitário e calado. Sua tristeza por ter perdido o amigo Tonico. O carinho pelo peixinho Pirolito. Suas travessuras mínimas. Seus doces passeios. As conjecturas típicas de uma garota inquieta. Pronto, não tinha como não querer mais.

"Tem outro, professor?" Na verdade, o que eu queria era continuar lendo sobre ela, sobre Vasco. Felizmente, ele não me deu "Um Lugar ao Sol", a sequência que eu tanto esperava, e que li mais de uma década depois. Eu não estaria preparada para descobrir o quanto custa alcançar um sonho e lidar com os 'problemas dos adultos'. Obviamente, eu também não me preocupava com o contexto social e as possíveis denúncias de Verissimo em seus romances. O que me encantava era o lirismo dos textos, apenas. Naquele dia, levei para casa "Olhai os Lírios do Campo". Coitada da Olívia, eu pensava. E chorava. “Tem mais?”

Agradeço imensamente ao mestre. Provavelmente, ele nem se recorda do tapete voador que me deu, transporte para inúmeras viagens literárias. Espero, de coração, que outros alunos continuem a ter o mesmo privilégio.