terça-feira, 31 de janeiro de 2012

coração partido

Penso que todas as situações são propícias para uma boa leitura. Separei dois títulos para quem terminou recentemente um relacionamento e quer, tão somente, algo que mostre que a dor vai passar.

Melancia, de Marian Keyes


Aqui você vai chorar de rir - e não de tristeza - com as trapalhadas de Claire, que é abandonada pelo marido minutos após o nascimento da filha do casal. Sentindo-se gorda (o vestido que veste logo no início da trama faz com que ela pareça uma melancia), feia e rejeitada, ela enfrenta uma verdadeira viagem ao fundo do poço. De volta à casa dos pais na Irlanda, assume o papel de renegada e entrega-se à depressão, à bebida e ao confronto com a família. Contudo, tudo isso ainda é muito pouco para tirar seu senso de humor. Lá pelas tantas, ela descobre que o ex não vale tantas lágrimas assim.

Lição: amor com amor se cura. Principalmente se o sucessor é o elegante e belo Adam. Você vai perceber que sofrer por amor pode ser bom, como me disse uma amiga, que afirma curtir essa angústia. E quando tudo acabar, a única coisa a lamentar é o tempo perdido chorando na cama e os quilos a mais por conta dos potes de sorvete. Os diálogos podem ser clichês, mas não deixam de mostrar os dilemas femininos como eles realmente são. Frívolos demais, talvez. Mas não para quem os vive.


“Vejamos então. O que devo contar-lhe? Bem, meu nome é Claire, tenho 29 anos e, como disse, tive meu primeiro filho há dois dias (uma menina, com quase três quilos, lindíssima) e meu marido (contei que o nome dele é James?) me comunicou, há cerca de vinte e quatro horas, que vem tendo um caso, já há seis meses — saca essa —, não é nem a sua secretária ou outra mulher charmosa do seu trabalho, mas com uma mulher casada que mora no apartamento dois andares abaixo do nosso. Incrível como isso soa suburbano! E não apenas tem um caso, mas quer divorciar-se de mim.”

“Patético, eu sei, mas o casamento é isso. Acaba com o nosso senso de autonomia pessoal! Mas nem sempre fui assim. Antigamente, eu tinha força de vontade, era independente. Agora tudo isso parece que foi há muito, muitíssimo tempo.”
 
Outros livros da autora também recomendados para momentos de crise sentimental: “Sushi” e “Um bestseller para chamar de meu”. Cada um deles com três protagonistas. Embora elas sejam diferentes em seus estilos, sofrem do mesmo mal: homens, profissão e homens. Divertimento garantido. Dica para acompanhar a leitura, baseada nas protagonistas de alguns dos livros citatos: essa fase pode ficar mais amena com uma taça de vinho e alguns sacos de batatas fritas. Boa leitura.

Ensaios de amor, de Alain de Botton



No livro, Alain de Botton apresenta todas a etapas de um relacionamento que vai desde a primeira vez em que o casal se encontra num voo de Paris a Londres. Passa pelas expectativa de quem vai tomar a iniciativa. Pelo calor e nervosismo dos primeiros encontros. Pelas buscas por pistas que podem revelar o outro está sentindo, suas intenções. E chega até o momento em que os defeitos começam a aparecer e a relação a esfriar.

A narração fica por conta do homem, que não hesita em abrir seu coração para os leitores. Quem estiver passando por uma situação parecida, irá se identificar com os momentos em que ele prefere a escuridão e o silêncio de um quarto, enquanto todos parecem estar se divertindo lá fora. Os que estão vivendo um grande amor também vão encontrar ali algumas respostas para as tais pistas que tanto buscam. Misto de romance e ensaio, o livro nos dá uma bela reflexão filosófica sobre o amor, ora aparando-se em Nietzsche, ora em Goethe e até em Freud. Tudo com gráficos cômicos e equações matemáticas sobre a chance de tudo dar certo. Aliás, humor aliado ao conhecimento é o forte de Alain de Botton.

“O desejo havia me transformado em um caçador implacável em busca de pistas, paranóico romântico, lendo significados em tudo. Mesmo assim, fosse qual fosse minha impaciência com os rituais da sedução, eu estava consciente de que o mistério dava a Chloe um encanto especial."

“Nos apaixonamos porque desejamos escapar de nós mesmos com alguém que é tão bonito, inteligente e interessante quanto somos feios, estúpidos e chatos. Mas, se um ser tão perfeito um dia se virasse e decidisse que nos amaria? Só podemos ficar um tanto chocados: como pode ele ser tão maravilhosos como havíamos esperado quando tem o mau gosto de aprovar alguém como nós?”

Há outro livro de Botton que trata sobre o amor, “Movimento Romântico”. O ponto de vista, desta vez é da mulher. Tal e qual “Ensaios...” dita sobre esse sentimento cheio de controvérsias: com começo, meio, fim e um novo começo.

No mais, é muito melhor sofrer com um bom livro por perto. Fica a dica.


O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

você está escrevendo direito?


Erros de português todos comentem. Inclusive, não é crime. Pode ser que você perceba alguns nas próximas linhas. Atire a primeira pedra o professor de português que nunca cometeu uma falta? O mesmo vale para os profissionais da área de comunicação.

Nossa língua é difícil, cheia de armadilhas:  quando usar “ç”, “ss”, “z”, “sc”? E os verbos e suas flexões? Impossível nunca ter dúvidas na hora de escrever ou falar da forma correta: eu caibo, ele varia. Concordo, também, que não precisamos conhecer todas as regras que determinam os acentos ortográficos, como aquela que define que as proparoxítonas são acentuadas: árvore, mágica etc.

Da mesma forma, não condeno as escapadelas por erro de digitação, desde que esses desvios não ocupem o texto inteiro: paixõa, por exemplo. Sabemos que foi um leve deslize ao digitar a palavra que simboliza um dos sentimentos mais ardentes.

Não costumo julgar, com tanta frequência, vírgulas fora do lugar ou a falta dela. Não é problema que as pessoas não se atentem para o fato que vocativo pede vírgula: Olá, Kátia. Enfim, tudo isso é perdoável, haja vista a complexidade de nosso idioma.

Contudo, há casos que doem. Maxucam. Ops, doeu aí? Mas vai ficar assim mesmo. Aqui, acolá e lá, já vi visinho, encomodar, análize.

O Facebook, Twitter e demais redes sociais entregam todas as nossas fraquezas diante do Português. E-mails corporativos as reforçam e indicam que houve falhas na educação. Sempre procuro escrever com o dicionário por perto. Conferir é rápido e alimenta as boas letras. E se ele não elimina minha dúvida, mudo a palavra, mudo a frase, mudo o jeito de dizer.  Peço para o colega revisar, às vezes, até uma linha, dependendo da importância e do destinatário.

A reforma ortográfica, que já é obrigatória desde o dia 1º de janeiro, ainda gera dúvidas, sobretudo na utilização do hífen: ultrassom, inter-racial, autoescola. Temos muito o que estudar. Sempre. Para isso, a leitura é o melhor caminho. A curiosidade e a força de vontade são as melhores escolas. Enquanto isso, que tal prestarmos mais atenção nas palavras e no que elas têm a nos dizer, evitando machucar os olhos de nossos leitores. Vale para a escola, para a profissão, para as redes sociais. E se interessa a observação, já vi colegas desistirem de paqueras por erros grotescos na escrita. Sem contar os inúmeros bons empregos perdidos.

Abaixo, os 12 erros mais comuns de nossa língua, segundo o jornal “O Globo”. #ficaadica

"Fazem cinco anos que trabalho no setor"; em vez de "Faz cinco anos..." (concordância verbal)

"Vou estar enviando o documento"; em vez de "Vou enviar o documento." (gerundismo)

"A nível de empresa ..." (modismo; deve-se substituir a expressão por "em relação a, em se tratando de, quanto a")

"Na medida em que ganhamos mais clientes..."; em vez de "À medida que" (a primeira forma indica causa, e não proporção)

"O índice valorizou 10%"; em vez de "O índice se valorizou 10%" (o verbo é reflexivo)

"Esse é o documento que preciso"; em vez de "Esse é o documento de que preciso" (regência verbal)

"Se eu ver o colega, aviso"; em vez de "Se eu vir o colega" (erro na conjugação do verbo ver)

"Há menas coisas..."; em vez de "menos coisas" (concordância nominal)

"O meu resistro profissional... "; em vez de "registro profissional" (ortografia)

"Eles reteram o documento..."; em vez de "retiveram" (conjugação verbal)

"Deixe esse ofício para mim fazer"; em vez de "para eu fazer" (uso inadequado do pronome)

"Não se preocupa, vamos bater a meta"; em vez de "Não se preocupe" (mau uso do imperativo negativo)


Todos erram, mas é muito melhor acertar
 Imagem extraída do blog Distração Digital


domingo, 15 de janeiro de 2012

a casa de papel

“E não encontro uma felicidade maior do que percorrer, em poucas horas diárias, um tempo humano que de outro modo me seria alheio.”

Não sei quantos livros tenho. Mas posso afirmar que a quantidade é ínfima se comparada à biblioteca formada por Carlos Brauer. Ao longo de sua vida, estima-se que tenha acumulado, arredondando, 19 mil volumes, entre obras raríssimas – que chegam a ser avaliadas em até 20 mil dólares cada – enciclopédias, dicionários, relatos de viagens e toda a sorte da literatura mundial.

Sua casa tinha livros até no banheiro. Para preservá-los, utilizava somente água fria para banhar-se. Seja verão ou inverno. Estamos no Uruguai e sua história é contada por outras vozes, todas ligadas pelo vício da leitura. Brauer não aparece realmente na narrativa. É um personagem pelo qual todos os demais nutrem extrema curiosidade, pena, pavor. Como se sua simples menção pudesse destruir suas próprias coleções.

O fascínio por sua vida é reanimado quando uma professora inglesa morre atropelada lendo versos de Emily Dickinson. Pouco depois, um exemplar de “A Linha da Sombra”, de Joseph Conrad, é deixado envolto em cimento na sala de seu possível substituto.

“A Casa de Papel”, de Carlos María Domínguez, escritor argentino radicado no Uruguai, fala sobre a paixão por livros, mais que isso, sobre a obsessão em acumulá-los e em tê-los sempre por perto. Após cinco anos, resolvi relê-lo instigada pelo artigo, publicado na Veja de 11/01/2012, do economista Claudio de Moura Castro, que comenta a falta de estantes para livros no Brasil, alusão aos poucos leitores no País. A mesma dificuldade em manter seus livros encontra Brauer, mas por motivos diferentes.

Nos diálogos de “A Casa de Papel” aprendemos como os livros podem ser lidos. Seja observando seus corredores – ruas verticais e diagonais formadas pelas separações das palavras. Seja saboreando-os ao som ou sob a luz de sua época, como um dos personagens: “eu desfruto ler Goethe enquanto uma ópera de Wagner toca no aparelho de som ou, digamos, acompanhar Baudelaire com Debussy.” Seja fazendo ferozes anotações em cada página lida. Seja mantendo suas folhas intactas. Aprendemos, ainda, as infinitas formas de afinidades entre as obras. Razão que pode ter levado à loucura Carlos Brauer.

A história é sedutora e você pode encontrar o desfecho em menos de uma hora. São poucas páginas e muitas informações que ratificam que os livros podem mudar sonhos, pessoas, navegações. O mar era a metáfora utilizada por Conrad em muitos de seus textos. E foi à beira-mar que Brauer encontrou o refúgio extraordinário para seu acervo literário. Imperdível.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

minha mocidade

Filho de um nobre inglês e de uma socialite norte-americana, Sir Winston Leonard Spencer Churchill, sempre que necessário, soube aproveitar os privilégios oferecidos pela influência dos pais. Assim como também não desperdiçou os ensinamentos que teve com sua ama, Mrs. Everest, pela qual nutria extrema afeição.

Seu maior prazer era a guerra. Durante a juventude foi a Cuba, serviu na Índia, esteve na campanha do Sudão, atuou na Guerra dos Bôeres e foi correspondente do Morning Post. Todas essas atribuições estão detalhadas em “Minha Mocidade”. Autobiográfico e mostrando sua infância e juventude, o livro data de 1930, quando Churchill já estava com 56 anos.

Pelo tom do texto, traduzido pelo jornalista Carlos Lacerda, percebemos que as batalhas eram naturais e dispensavam explicações, tanto que não explica o porquê desses conflitos. Da mesma forma, não tinha dúvidas do quanto a Inglaterra era importante para suas colônias, em especial a Índia. Dizia que os indianos, ainda que agradáveis, eram primitivos e precisavam ser governados pelos ingleses. Para o próprio bem da nação.

Aventureiro e ambicioso, encontrou a emoção que tanto ansiava na Guerra dos Bôeres: lutas decorrentes dos avanços do Reino Unido no sul da África, o que não agradou os descendentes de outros colonos, em especial os holandeses. Lá, foi feito prisioneiro e sua fuga teve grande repercussão. Pulou de trem, escondeu-se num poço, dormiu com ratos e chegou até a receber ajuda da parte neutra dos inimigos.

Independente das batalhas e de concordamos ou não com suas atitudes, nós aprendemos muito com ele e com sua apaixonante narrativa.

Conhecimento

Churchill, na infância, lia livros considerados acima de sua idade pelos professores. No entanto, era sempre o último da sala. Motivo: só se dedicava, de fato, ao que gostava ou queria. “Onde minha imaginação ou minha curiosidade não estavam engajadas, não queria ou não conseguia estudar”, afirma.

Tinha uma coleção de soldados em casa e, enquanto estava na escola, só conseguia pensar na linha de combate que poderia formar com eles. Estudou nos melhores colégios, mas nenhum parecia satisfazê-lo. Somente mais tarde, sentiria falta de professores capacitados.

E é na Índia que percebe que sua escolha pela carreira militar o colocava em desvantagem diante dos intelectuais. Por isso, dedicou o tempo livre que tinha entre os treinamentos de cavalaria pela manhã e as partidas noturnas de pólo – afinal, o clima na Índia era insuportavelmente quente para que se fizesse algo do meio-dia até o fim da tarde – para estudar e ler tudo sobre filosofia, história, economia, política. Lia de quatro a cinco horas por dia.

Da Inglaterra lhe eram enviados, pela mãe, livros e mais livros. Para quem se interessar, alguns deles:

  • Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon
  • Cantos da Roma Antiga, de Macaulay
  • República, de Platão
  • A Origem das Espécies, de Charles Darwin
  • O Martírio do Homem, de Winwood Reade
  • Citações Familiares, de John Bartlett
Percorreu, ainda, Sócrates, Schopenhauer, Malthus, entre outros. Sobre sua educação, dizia: “eu a abordava com o espírito vazio e faminto; com um par de sólidas mandíbulas mastigava tudo o que caía ao meu alcance.”

Pontualidade britânica

Apesar de ser um bom inglês, tinha certa dificuldade em cumprir os horários. Fragilidade corrigida no palácio real. “No seu regimento não lhe ensinaram a ser pontual, Winston?”, chegou a ouvir do Príncipe de Gales. No livro, enfatiza que considera a falta de pontualidade um grave delito. Para isso, basta “suprimir um ou dois encontros para reajustar as horas marcadas.” Comportamento que, segundo ele, poucas pessoas estão dispostas a ter.

Há males que vêm para o bem

A infelicidade pode ser boa, pois é possível que esconda uma desgraça ainda maior. Parece clichê, mas é o que o futuro primeiro-ministro britânico nos diz ao comentar a relação da sorte com o azar.

Foi assim com a luxação no ombro que o acompanhou durante toda a vida. O incidente aconteceu no desembarque em Bombaim, em sua primeira visita à Índia. Num movimento brusco, agarrou-se numa argola para evitar a queda dentro do barco e deslocou ombro. Isso o impediu de praticar o pólo, seu esporte preferido, com a destreza que sempre o fez. Contudo, “nunca se sabe se o azar se transforma em sorte”, enfatiza ao comentar que, por causa das dores, teve que utilizar mais tarde, durante um combate, uma arma moderna no lugar de uma esperada espada, o que lhe salvou a vida durante embate com o inimigo.

Oratória não é dom, mas treino

Churchill é conhecido por discursos históricos. No entanto, sua primeira tentativa foi frustrada. Preparou uma longa e meticulosa exposição e quando chegou ao local combinado para que fosse proferida, encontrou apenas um ouvinte. Dobrou o papel e voltou para casa.

No entanto, não desanimou e dá algumas dicas:

  • Não ultrapasse o tempo que lhe foi dado.
  • Ensaie. Ensaie. Ensaie.
  • Não se apresse.
  • Não se perturbe.
  • Não explore as fraquezas do auditório.
  • Ensaie mais um pouco com alguns ouvintes cobaias.
“À medida que se desenrolavam as frases e as passagens que tão bem conhecia, tive a impressão de que a coisa ia naturalmente.”

Escritor

Além de político, militar e jornalista também foi um exímio escritor. Escreveu 43 livros, que podem ser conferidos no site do The Churchill Centre and Museum.

Algumas lições da época em que estava escrevendo “The River War”, sobre a Batalha de Omdurman, no Sudão:

  • Leia tudo o que puder sobre o assunto que redige.
  • Conheça vários outros estilos antes de definir o seu. “Eu adotara uma combinação dos estilos de Macaulay e de Gibbon: as bruscas antíteses do primeiro e as torneadas frases do segundo, acrescentando, de quando em vez, por minha conta, alguns trechos de meu próprio estilo.”
  • Preste atenção nos parágrafos. Cada um deve abranger um episódio e não pode deixar de se comunicar com os demais.
  • Já os capítulos devem ter o mesmo valor e tamanho. E cada um deles deve formar um todo.
  • Evite começar uma história com “quatro mil anos antes do Dilúvio”.
  • O “bom senso é a base para escrever bem.”
No mais, cuide bem do seu texto, pois ele pode ser seu companheiro a qualquer hora e para sempre. Não foi por acaso que ele recebeu, em 1953, o Prêmio Nobel de Literatura pela sua obra “A Segunda Guerra Mundial”.

Seja único

Em 1898 chegou aos seus ouvidos que havia outro escritor com o nome Winston Churchill. “Felizmente”, morava longe, nos EUA, mas gozava de grande prestígio. Para evitar confusões por conta do homônimo, partiu do nosso célebre autobiógrafo a iniciativa de contato e a informação que doravante adotaria o nome Winston Spencer Churchill para assinar suas publicações. Episódio narrado com bom-humor e que foi conduzido de modo extremamente perspicaz.

Reconhecimento

Muitos cavalos foram mortos nas batalhas das quais Churchill participou. Em uma delas, foi salvo por conta de uma carona no cavalo de um soldado batetor. Descreve que apesar de gravemente ferido, o cavalo continuava a se portar como um herói e rapidamente os tirou do alcance das balas que os rodeavam. Longe dos inimigos, o soldado - dono do cavalo - parecia inconsolável:

“- Meu cavalo, coitado do meu cavalo! Foi atingido por uma bala explosiva. Bandidos! Mas hão de pagar. Meu pobre cavalo!”

“- Não se preocupe por isso. Você me salvou a vida.”

“- Ah – lamentou ele – mas eu penso é no meu cavalo.”

O soldado recebeu a Medalha de Conduta Distinta pelo feito. Churchill, que anos mais tarde viria a ganhar a guerra contra Hitler, procurou reconhecer todos que lhe ajudaram quando ainda não era o ilustre político e estadista. Inclusive os cavalos, de alguma forma, com a menção. Com a lembrança.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

barsa: uma história

Aproveitei as férias para revisitar minha Enciclopédia Barsa. Ela foi meu objeto de consumo na infância. Sonhava com as possibilidades de pesquisa, estudo e conhecimento que suas páginas poderiam me proporcionar. Sem contar que, para mim, era sinônimo de status ter na estante da sala todos os seus 16 exemplares com capa vermelha.
O presente foi dado pelo meu pai numa Bienal de Livros em São Paulo. Fomos até o estande da Encyclopaedia Britannica do Brasil. Lá havia uma vendedora portuguesa, assim como ele. Talvez isso tenha facilitado a negociação. Afinal, não se tratava de algo barato. Tanto que nem acreditei quando disse que compraria a coleção. Saí da exposição saltitante e na expectativa da entrega dos livros.
E eles chegaram. Lindos, vermelhos e cheios de textos, imagens, mapas.
A minha edição é de 1990, quase 30 anos após a sua concepção, segundo informação dos editores. Na Wikipédia, a enciclopédia livre da Internet, encontro o significado de Barsa: junção dos sobrenomes da idealizadora do projeto, Dorita Barrett (Bar), e do seu marido, Alfredo de Almeida Sá (Sa). Mais de 250 especialistas foram envolvidos no projeto.
Valorizei muito o trabalho deles. Passei horas folheando suas páginas, pesquisando e me deliciando com o acesso fácil e rápido que tinha a milhares de verbetes: reino de Essex, Mikhail Mordkin, pontes continentais, entre outros que minha curiosidade encontrava no índice enciclopédico. Sem contar os trabalhos escolares que foram feitos a partir de seu conteúdo. 
Além da enciclopédia, o “kit” Barsa continha o Livro do Ano de 1990, dois livros “grandes” sobre ciência e mapas do mundo inteiro, cartas de boas-vindas, cartão de fidelidade, catálogo de pesquisa, selos e a promessa de uma relação duradoura por meio do ótimo Programa Britannica Society, “completo programa cultural de 10 anos”.
De fato, por 10 anos recebemos o Livro do Ano, espécie de retrospectiva aprofundada. Chegava sempre em abril e sem a necessidade de ser solicitado. Essa era a facilidade, pois não era gratuito e com ele vinha o boleto para pagamento. Caso não fosse de nosso interesse manter a coleção, bastava devolver o exemplar. Claro que nenhum foi devolvido.
Ressalto com certa nostalgia o Serviço de Pesquisas oferecido aos “subscritores”, como chamavam os clientes. Hoje, algo insensato se considerarmos os modernos sites de busca na Internet.
Uma cartela com 100 selos e um catálogo davam direito a 100 relatórios sobre os mais variados temas. Podiam ser escolhidos entre os 3.500 disponíveis. Desses, 2.500 em português e 1.000 em inglês. Tudo “inteiramente grátis”. Mas só era possível solicitar um por mês. Havia, ainda, um modelo de solicitação para tais relatórios. Lembro que tinha me programado para utilizar todos os selos. Contudo, não consegui ultrapassar os oito, o que ainda lamento.
Nos dez anos aos quais tive direito ao programa, pedi:
1.       Idade Média
2.       Egito
3.       Processamento de Imagens
4.       Arqueologia
5.       Basic English
6.       Big Bang
7.       Brasil
8.       Paz Romana
Não seguiam um padrão de diagramação. Alguns eram datilografados, outros eram cópias do que parecia ser outra enciclopédia, talvez a Britannica, quem sabe. As páginas eram grampeadas, dobradas ao meio, colocadas num envelope e enviadas ao “subscritor”. O serviço era rápido e, praticamente, só dependia do correio de ida e de volta. Simples assim.
Lembro que só ficou faltando uma coisa no “kit”, prometida pela vendedora durante a compra: um globo terrestre. Eu era fascinada por esse objeto, justamente um dos brindes para quem adquirisse os livros. Vinte e dois anos depois, ainda não o recebi. E toda vez que olhava a Barsa, meu pai dizia: “temos que cobrar o globo”.  “Cadê o globo, ora pois?”, pergunto, com um dos livros no colo. Pode ser que sempre esteve logo ali. Bem, vou dar mais uma folheada nessas páginas.

Minha Barsa

Catálogo do Serviço de Pesquisas e os selos
 
Relatórios do Serviço de Pesquisa e o cartão fidelidade, em nome do meu pai

06/01/2012: três dias depois da postagem do texto

Recebi o globo, afinal. Após ler o texto, a diretora de Marketing da Barsa cumpriu o acordo prometido pela representante que nos vendeu a enciclopédia há 22 anos (veja comentário abaixo). Essa não era a intenção inicial do meu relato. Ele foi feito apenas como homenagem à coleção e ao meu pai. Mas estou super feliz com o presente. Muito obrigada!

O globo tão aguardado

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

pequena abelha

La pelas tantas, Abelhinha olha pela janela do quarto e vê espaços vazios entre os quarteirões. Isso significa que Abuja, capital do seu país, a Nigéria, ainda estava em construção. Resolveu ir atrás de histórias que coubessem nesses quadrados intactos.

Não como as que imaginava ao ter que contar suas aventuras às meninas de sua aldeia, que fariam muitas perguntas sobre as manias estranhas das inglesas, e que ela não saberia como responder. Nem como as que fantasiava toda vez que entrava num ambiente novo. Estava sempre procurando um objeto com o qual poderia se matar, caso os homens aparecessem. Os homens que temia eram da indústria de petróleo. Ela tinha visto coisas que não poderia ver e teve que fugir para o Reino Unido. As moças mais velhas alertaram “para sobreviver, precisa ter boa aparência ou tem que falar direito.” Ela optou pelo inglês correto da rainha e acreditou que poderia dar certo.

Em seu próprio mundo, Sarah também tinha suas preocupações. As pautas da sua revista, as aventuras de seu Batman de quatro anos, a estufa a ser construída e os próprios dilemas de mulheres casadas, bem-sucedidas profissionalmente e que sempre pensam ter feito a escolha errada. Talvez precisasse de férias. De um tempo. E foi assim que tudo começou, pelo menos para ela.

Essas são as duas protagonistas de “Pequena Abelha”, de Chris Cleave. Mais um best-seller com data marcada para ir aos cinemas. Pena que descobri a atriz que interpretará Sarah antes mesmo do início da leitura. Assim não pude deixar minha imaginação viajar tanto quanto a de Abelhinha. Li o livro já visualizando a personagem. Essa informação está na capa, assim como várias críticas positivas e a promessa de uma história especial.

Sarah e Abelhinha se encontram e se reencontram. Ora na voz de uma, ora na de outra, ouvimos relatos que mostram que ninguém é tão bom assim e que todos precisam de ajuda. “Pequena Abelha” vale cada linha lida, inclusive pela denúncia, mesmo que leve, das regras nos centros de detenção de imigrantes ilegais. Pode ser que você tenha que voltar algumas páginas em certos momentos para ter certeza se os fatos são realmente coerentes ou se foi realmente aquilo que leu. O desfecho não chega a ser surpreendente, contudo não poderia ser melhor. Boa e fácil leitura para o início do ano.

“Você não é daqui.” “Mas, por favor, o que isso significa? O que significa ‘ser daqui’?”

Mesmo que você não tenha vontade de ler o livro, fica a dica: tome cuidado com os presentes que recebe. Eles poderão ficar em suas mãos por toda a vida. Último comentário: os editores brasileiros foram felizes ao não darem à nossa edição o título original, “The Other Hand”.