terça-feira, 22 de novembro de 2011

parapan e para você

Primeira vez no México. A viagem parece cansativa. Não paro de olhar no painel à minha frente quantas horas faltam para chegar à Cidade do México. São 9.000 quilômetros a serem enfrentados e superados numa minúscula e desconfortável poltrona. Eu penso assim. E assim devem pensar todos os companheiros de jornada. Aliás, centenas deles, que passaram tristemente pela ala dos afortunados da classe executiva. E assim vamos, tentando quebrar essa barreira rumo ao Parapan de Guadalajara.

Reclamamos. Dormimos. E almejamos logo o destino final, que ainda tem mais uma etapa a ser superada: conexão no aeroporto da Cidade do México. Até montanha russa entre um terminal e outro pegamos. Além de elevadores, esteiras, escadas rolantes, corredores. Tudo com malas e uma grande caixa nas mãos. Afinal, por lá não se pode circular com o carrinho de aeroporto que tanto nos auxilia. Lamentamos e pensamos: se é difícil para nós, como será para os nossos atletas, cuja mobilidade muitas vezes, ou sempre, é comprometida?

Chegamos exaustos. Pudera: 15 horas de viagem. Mais uma vez, lembramos dos atletas. E eles, o que fazem enquanto reclamamos de uma dor no pescoço, no ombro ou na perna? Treinam. Treinam. Treinam. E ganham medalhas. Ouro. Prata. Bronze. Há muito tempo deixaram de lamentar por terem nascido cegos, incompletos ou por terem enfrentado algum acidente que deixou sequelas.

Enquanto chegávamos ao hotel e vislumbrávamos uma cama confortável, eles se jogavam na piscina. Calçavam o tênis. Tomavam uma garrafa de água e corriam. Corriam muito. Mais do que os quilômetros  que eu imaginei ter andado dentro do aeroporto do Distrito Federal mexicano.

Com atletas-guias, com ajuda de cadeiras de rodas ou muletas, eles não esperam, e nem querem ou precisam, de olhares de pena. Querem vencer, subir ao pódio e representar o país em que nasceram. Os nossos brasileiros nos Jogos Parapan Americanos fizeram isso muito bem. Ao todo, foram 81 medalhas de ouro, todas legítimas e frutos de muito trabalho, comprometimento e respeito.

Fiquei impressionada com o senso de direção dos meninos do futebol de cinco. Todos cegos e que sabem conduzir perfeitamente a bola. "E ainda fazem gol", como alguém comentou na arquibancada. Assisti a um jogo do Brasil contra o Uruguai e nunca vou me esquecer como a bola grudava nos pés do Jefferson que, conduzido apenas pelo sino que havia dentro dela e dos seus sexto e sétimo sentidos, a levava direto ao campo adversário driblando, inclusive, o goleiro que é “normal”, ou seja, que "enxerga", como também ouvi entre os torcedores.

É assim que tem que ser. Quando nos falta algo, ou parece faltar, a gente se adapta e vai embora. Que o diga a campeã Rosinha, que acumula vários ouros em campeonatos mundiais. Perdeu a perna esquerda num acidente de trânsito. O que parecia ser o fim, foi o começo de uma carreira. Como ela mesma enfatiza, “Deus olhou para mim e disse: vou tirar a perna dessa neguinha para ajudá-la”. Mesmo os céticos passam a acreditar nisso. Quando ganhamos algo com sacrifício, parece que a vitória é ainda mais especial. Ou não teríamos a comemoração eufórica da menina Marivana. “É minha primeira participação num evento assim. É minha primeira vez aqui”, não parava de repetir enquanto fazia poses para fotos com os mais novos fãs, que nem sequer se preocupavam ou observaram sua paralisia cerebral.

Diga-se com orgulho: nossos atletas são queridos. São humildes para comemorar com gosto a primeira conquista. Não hesitam em falar sobre as dificuldades. Uma das cenas que mais me tocou foi a comemoração do ouro por Thierb Siqueira, que não conseguia se segurar diante do pódio. Pulava. Gesticulava. Agradecia. Nossos atletas, quando circulavam pelos estádios, logo eram cercados pelos mexicanos que queriam fotos, autógrafos e mais fotos. Tornaram-se celebridades. Merecem cada aplauso recebido. Para nós, espectadores, fica a emoção de ver a bandeira brasileira sendo erguida ao ponto mais alto 81 vezes e ouvir nosso hino indo direto aos corações de quem ali estivesse. Como dizem os jornais mexicanos: somos a grande potência neste esporte. Mas, infelizmente, enquanto a imprensa estrangeira afirma isso, aqui temos breves notas e algumas imagens de relance. Talvez porque seja bonito mostrar pessoas com deficiência física e mental conquistando medalhas, títulos e reconhecimento. Meus caros, eles não querem compaixão. Querem a vitória. Se você estiver lá para curtir os bons lances e momentos, ótimo. Caso contrário, eles vão ganhar mesmo assim.

Para todos, ficam a lição e a dica: da próxima vez que sentirem dor nas costas por conta de uma longa viagem ou acharem o caminho para a conexão de voos muito sinuoso, não pensem em como os atletas vão percorrer o mesmo caminho, mas no que todos nós precisamos superar para conquistarmos nossas próprias medalhas, mesmo sendo tão “perfeitos”. Aparentemente.


Futebol de 5: Uruguai x Brasil

Rosinha no pódio

Com Marivana

Comemoração de Thierb Siqueira

81 vezes a bandeira brasileira no topo

Hasta la vista

Versão resumida do texto, publicada no Diário do Grande ABC em 27/11/2011

2 comentários:

  1. Parabéns pelo texto! Um retrato exato do que foi o Parapan! E da importância e representatividade de todos os atletas! Hoje e Sempre!

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  2. Kátia, adorei o seu texto. Emocionante! Eu, que me sinto superando diversos obstáculos nas minhas competições de corridas de rua, da vida materna ou da carreira profissinal, às vezses esqueço-me de agradecer por ter bem menos dificuldades do que nossos vitoriosos atletas paraolímpicos. Admiro muito essa causa e você está de parabéns por ter conseguido trazer com tanta sensibilidade esse tema para a web. É mais um passo para reconhecermos o quão vitoriosas são essas pessoas que representam brilhantemente nosso país. E a quantidade de medalhas é o que menos importa: o que vale mesmo é o espírito de superação!

    Bianca R. Moura Sgarboza, jornalista, mãe e quase atleta!

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