terça-feira, 27 de setembro de 2011

um dia

“E assim Emma Morley voltou para casa sob a luz daquele final de tarde, deixando uma trilha de desilusão no caminho. O dia estava esfriando, ela tremia e sentia algo no ar, um inesperado arrepio de ansiedade percorrendo a espinha, tão intenso que a fez parar por um momento. Medo do futuro, pensou.”

15 de julho é o dia em que Emma e Dexter ficaram juntos pela primeira vez. A partir deste gancho, o autor retoma vários outros 15 de julho numa história entre duas pessoas que dura quase vinte anos. Ora juntos, ora separados, eles nunca perdem o contato e a lembrança daquela noite, logo após a formatura. Era uma época de planos, ideologias, sonhos e resistência a tudo que não estivesse de acordo com o que vislumbravam. Ela, salvar o mundo por meio de gestos e palavras. Ele, viajar, curtir a vida e ter uma carreira bem sucedida e rica.

Os anos passam. Metas são revistas por conta das adversidades que não foram contabilizadas durante a universidade. Por vezes, a vida mostra-se tensa, impertinente, embriagada, cheia de traições, de votos nulos e de empregos medíocres. Mas há os momentos felizes, agarrados e guardados para serem utilizados quando as incertezas viessem.

Ainda assim, a felicidade do outro é muito difícil de ser digerida, fica engasgada e tudo o que se consegue dizer é um soluçante “fico feliz por você”. Um desses momentos é quando Dexter anuncia o casamento com outra mulher. Ou quando Emma consegue, enfim, realizar parte de seu sonho de ser escritora. Por que não ficam sinceramente contentes com o sucesso do amigo, da amiga? Porque o dia 15 de julho de 1988 ainda está presente, com todo o seu envolvimento e mentiras inocentes. Simplesmente porque essa felicidade não está sendo compartilhada pelos dois, simultaneamente. Porque eles não estão, de fato, juntos.

Mas e se um dia pudessem ficar com o grande amor de suas vidas? Os êxitos seriam comuns e a existência melhor? É disso que trata “Um Dia”, best seller de David Nicholls, que já virou filme.
Ao começar a leitura, lembrei-me de outro best seller que também fala de desencontros amorosos, o “Querido John”, de Nicholas Sparks. Mas ao contrário de “Querido John”, que traz um amor adocicado e declarado, “Um Dia” expressa a paixão velada, encoberta pelo sentimento de amizade, por sucessivas frustrações e questionamentos em torno de “e se um dia eu pudesse ser melhor?” A leitura, rápida e convincente, nos suga para um final com o qual não queremos nos deparar. E não basta mais que um dia para mostrar que tudo pode se transformar completamente. Contudo, sem apagar o que realmente nos importa, quem realmente importa. 

“O futuro se estendia à sua frente, uma sucessão de dias vazios, cada uma mais desanimador e compreensível que o outro. Como iria preencher todos eles?” Em e Dex. Dex e Em.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

fúria

As aventuras de Little Brain: a fúria do consumo

"A cidade fervia de dinheiro... a moda nunca estivera tão na moda... lojas, representantes exclusivos, galerias batalhavam para satisfazer a estonteante demanda por produtos cada vez mais recherchés” (Fúria, Salman Rushdie)

Malik Solanka é um professor de história que desiste de sua carreira acadêmica e passa a se dedicar a um hobby adquirido anos antes: a confecção de bonecos de madeira. Uma rede de TV inglesa resolve investir na idéia e lhe concede a oportunidade de um programa sobre a história da filosofia. O que Solanka não esperava era que uma de suas criações fosse conflitar com seus ideais. Little Brain, a simpática boneca concebida para comandar um talk show que recebia grandes pensadores, havia caído nas graças da grande massa, atingindo um sucesso avassalador de escala mundial. Seu caráter questionador inicial abriu espaço para a flexibilidade natural do estrelato, adaptável aos anseios do público. Este resultado foi mais do que suficiente para que o criador entrasse em choque com sua própria realidade. Como enfrentar a fúria que o dominava cada vez mais, fazendo-o perder a razão? Poderia ele livrar-se da filha desnaturada? A fuga parece ser a melhor alternativa. Seu destino: Nova York, o coração econômico, cultural e multiétnico da América.

Este é o cenário em que se desenvolve o livro "Fúria", de Salman Rushdie. A história aborda o século 21, dominado por bonecos massificados, que a cada dia ganham novos rostos, novas personalidades, novos ideais. Uma rotatividade essencial para garantir a sobrevivência quando o "novo" é aclamado como rei. "Fúria" nos remete à Indústria Cultural, que invadiu o nosso cotidiano. Theodor Wiesegrund Adorno, filósofo, sociólogo e musicólogo alemão, a definiu muito bem: "Em todos os seus ramos fazem-se, mais ou menos segundo um plano, produtos adaptados ao consumo das massas e que em grande medida determinam esse consumo.”

Adorno conceitua produção cultural a partir do momento em que ela é inserida nas massas e, conseqüentemente, na reprodução em larga escala. Para ele, a Indústria Cultural neutraliza as pessoas, impendido-as de pensar sobre sua própria condição social. Suas várias forma de expressão, seja por meio da televisão, cinema ou música, entre outras, consistem em um sistema manipulador que não atinge somente o receptor, mas que influencia também os criadores. A obra de arte se transforma em mercadoria, como aconteceu com a boneca intelectual do professor Solanka. A Globalização atinge a produção cultural fazendo com que a "cultura" seja freqüentemente modificada e os artistas percam o controle de suas criações.

Little Brain foi fruto de uma visão pessoal. Representava o conhecimento, percepção e interpretação do mundo sob a ótica de Malik Solanka. Quando a levou para a televisão, seu objetivo inicial era levar à população um pouco de história e filosofia. No entanto, sua criação foi além desta premissa. Tornou-se um objeto cultuado pelas massas. Isso exigiu algumas adaptações na estrutura do programa, de forma a satisfazer as necessidades audiovisuais dos telespectadores.

"Malik Solanka assistiu a tudo isso de longe com crescente horror. Essa criatura de sua própria imaginação, nascida do seu melhor e mais puro empenho, estava se transformando, diante de seus olhos, no tipo de monstro de espalhafatosa celebridade que tão profundamente abominava." (Salman Rushdie, página 119)

Para Adorno, o consumidor não é rei, como sugere a Indústria Cultural. Os produtos não são adaptados segundo estilos individuais. Não é o receptor quem dita as regras do que deve ou não se tornar um produto de massas. "O consumidor não é o sujeito dessa indústria, mas seu objetivo". Trata-se de um mero coadjuvante de um filme que tem como ator principal o lucro, fabricando uma falsa identidade do indivíduo com o universal, dando a errônea impressão de que as pessoas identificam-se com os produtos culturais.

Entretanto, há outro ponto a ser considerado. Se por um lado existe uma indústria manipuladora e atenta a todos os detalhes que possam fazer de uma mercadoria algo massificado, por outro, encontra-se um público desmotivado para seguir seus verdadeiros princípios. O conformismo, também citado por Adorno, que faz com que as pessoas aceitem a realidade como ela se apresenta, é o grande responsável pelo domínio imperialista. A partir desta fraqueza e falta de iniciativa, o público tende a consumir tudo o que lhe é imposto. Em tal contexto, é muito mais cômodo esticar os braços e agarrar algo já pronto, e que não exige grande habilidade de manuseio ou riscos aparentes, em vez de disponibilizar um tempo extra para leituras mais profundas, pesquisas e ensaios de uma consciência mais crítica em relação ao que acontece ao redor.

Sem ocupar-se dos mesmos problemas, o pensador alemão Friedrich W. Nietzsche já descrevia perfeitamente no fim do século 19 esse comportamento. Em "Assim Falou Zaratustra - Um livro para todos e para ninguém" ele, sem saber, prevê o papel desempenhado pelos consumidores do século 21. "Ai de nós! Aproxima-se o tempo em que o homem não dará mais à luz nenhuma estrela. Ai de nós! Aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, que nem sequer saberá mais desprezar-se a si mesmo.”

Um século antes, Nietzsche já nos deu o perfil do consumidor apático que busca entretenimento fácil e sem questionamentos. Que não gosta de ir ao cinema para pensar. Que gosta apenas de programas sensacionalistas. Que não escolhe livros com mais de cem páginas, letras pequenas e sem imagens. Do consumidor que associa o lazer a um momento em que devem apenas relaxar, e sempre na mesma direção que os outros.

“Vede! Eu vos mostro o último homem. 'Que é amor? Que é criação? Que é anseio? Que é estrela?' - Assim pergunta o último homem, piscando o olho... Quem, ainda, deseja governar? Quem, ainda, deseja obedecer? Por demais penosas são ambas as coisas. Nenhum pastor e um só rebanho! Todos querem o mesmo, todos são iguais; e quem sente de outro modo vai, voluntário, para o manicômio. 'Outrora todo o mundo era doido' - dizem os mais sutis, piscando o olho.” (Friedrich W. Nietzsche, página 34)

Infelizmente, o "último homem" não é exclusivo da obra do filósofo alemão, que tem em seu Zaratustra - inspirado inversamente no Zaratustra histórico, profeta iraniano do século VII e grande moralista - um promotor de uma completa transformação cultural, que despreza o conformismo e prega a criação, a espontaneidade e a arte como características essenciais da nova cultura.

Na verdade, esse indivíduo desprovido de motivação é mais real que nunca. Encontra-se agora diante de um aparelho de televisão vendo o noticiário camuflado. Está ouvindo o último "hit" das paradas de sucesso. Está lendo o caderno de atualidades do jornal de sua cidade. Esta, de uma forma ou outra, comprando uma das “novidades” apresentadas por Little Brain.

“Dia a dia, foi se tornando uma criatura do microcosmo do entretenimento, seus clipes musicais (sim, ela agora era cantora!) mais sensuais que os de Madonna, suas aparições nas premières super-huleyando toda starlet que já pisou o tapete vermelho num vestido perigoso. Era estrela de videogame e capa de revista, e tratava-se, não esqueçam, quanto à sua aparência pessoal, pelo menos, de uma mulher cuja cabeça ficava completamente escondida dentro da cabeça da boneca irônica.” (Salman Rushdie, página 119)

O poder do questionamento foi minimizado numa era em que a padronização determina as tendências. Qualquer indústria vai lançar um produto sabendo que há um público interessado. E para as mercadorias com essas características de fácil assimilação, hoje, temos um grande número de adeptos.

A boneca do professor Solanka chegou ao sucesso por meio da televisão, principal forma que o neoliberalismo, definido pelo professor e pesquisador norte-americano Robert W. McChesney como "o conjunto de políticas nacionais e internacionais que exigem a dominação empresarial de todas as questões sociais com mínima forma de reação, encontrou para se propagar. A televisão revela, estimula, molda, conquista. "Com os valores neoliberais, a televisão que foi uma reserva não comercial em muitas nações, tornou-se repentinamente sujeita à evolução comercial multinacional. Ela está no centro do sistema de mídia global emergente.” McChesney defende a mídia comercial e os mercados de comunicação como as grandes parceiras das políticas neoliberais, responsáveis pela Indústria Cultural e manipulação em massa.

O mesmo pensamento é compartilhado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, que aponta a televisão como a vilã dos meios de comunicação, que põe em risco à população e todas as esferas da produção cultural, artística, literária, científica, filosófica e até judiciária. Ela expõe ao perigo a vida política e a democracia ao visar, sempre, os altos índices de audiência. Bourdieu fala, ainda, de um controle político, sobretudo pelos verdadeiros donos da televisão, em muitos casos as grandes organizações. Isso faz com que certos assuntos sejam proibidos a fim de não ferir a imagem dos reais patrocinadores das emissoras.

As grandes fusões e aquisições na mídia global resultam em gigantes conglomerados. Isso faz com que as indústrias específicas de mídia se tornem cada vez mais concentradas nas mãos de poucos controladores. Para McChesney, uma verdadeira ameaça à democracia, que se encontra diante do esvaziamento da cidadania e da política consciente em busca do poder, lucro e ascensão de raros privilegiados. Neste universo, "a verdadeira força motriz tem sido a busca incessante de lucro que marca o capitalismo, e que fez pressão em prol de uma mudança para a desregulamentação neoliberal. Na mídia, isto significa o relaxamento ou a eliminação de barreiras à exploração comercial e à propriedade concentrada dos meios de comunicação."

No entanto, Bourdieu chega a insinuar que a manipulação acontece sem que os envolvidos tenham consciência do que se passa. É a “mentalidade-índice-de-audiência”, que atua inconscientemente ao exercer uma forte pressão econômica ou, o que o sociólogo chama de violência simbólica: “que se exerce com a cumplicidade tácita dos que a sofrem e, também, com freqüência, dos que a exercem, na medida em que uns e outros são inconscientes de exercê-la ou de sofrê-la.”

"Em fins dos anos 70... A indústria da cultura, nas décadas seguintes, tomaria o lugar da ideologia, passando a ser 'primária' no sentido em que a economia costumava ser, gerando toda uma nova nomenklatura de comissários culturais, uma nova raça de burocratas em grandes ministérios de definição, exclusão, revisão e perseguição.” (Salman Rushdie página 32)

Ainda dentro desta ótica, podemos afirmar que a Indústria Cultura coloca à disposição uma mercadoria feita de impressões, sensações e que tende a ser cada dia mais gratuita, pois é paga pela publicidade.  Para McChesney, esta dependência de anunciantes, associado a um quase monopólio do sistema de mídia global tem um outro agravante: a violação da imprensa livre e neutra. "O ataque à autonomia profissional do jornalismo é apenas a parte mais evidente da transformação neoliberal da mídia e das comunicações. Todos os valores e instituições de serviço público que interfiram na maximização do lucro estão no paredão". O autor norte-americano complementa sua idéia citando o declínio da televisão pública em todo o mundo, fenômeno que pode ser observado perfeitamente no Brasil.

O jornalismo também é atacado por Bourdieu, que o descreve como um depósito de notícias de variedades dentro de uma sociedade em que “o sangue e o sexo, o drama e o crime sempre fizeram vender.” São notícias que elevam o índice de audiência e que distraem: os fatos-ônibus, assuntos de interesse comum, que não envolvem disputa e que geram consenso.

Como sempre, as verdadeiras vítimas são as classes menos favorecidas, norteadas por uma política fraca e ineficiente, caracterizada por um alto grau de despolitização e que não tem nas tradições e costumes uma barreira no caminho do lucro e poder. Nestes casos, a solução é simples, conforme explica McChesney: "Quando as platéias parecem preferir a produção local, as empresas de mídia global, em vez de fugir em desespero, globalizam sua produção".

Foi justamente esta manipulação, regada a um capitalismo agressivo que impõe regras, pensamentos e costumes, que casou a fúria do professor Solanka, nosso ponto de apoio para abordar a Indústria Cultural. Sua criação torna-se insuportável para seus olhos e sentimentos. A simples presença de uma boneca, escondida em um quarto, é a gota que faltava para que o oceano de angústia do professor transbordasse, quase culminando em um duplo assassinato. Para aqueles que não leram o livro, faremos uma alusão metafórica ao quase fim da consciência e essência do criador. Ele estava se transformando definitivamente no "último homem" ridicularizado por Nietzsche. Felizmente (ou não), ao "piscar o olho" foi tirado do transe no qual se encontrava e levado a uma avaliação mais crítica de seus atos e pensamentos. Para entender melhor essa situação não poderia entrar para melhor escola: Nova York, a mais perfeita representação do imperialismo moderno, que muito terá a ensinar e a enfurecer o personagem principal da obra de Salman Rushdie. Para conhecer o que o aguarda e como a história termina, não percam os próximos capítulos.

"Ele sentiu a velha raiva brotar de dentro enquanto ela falava, a imensa, insaciável raiva de Little Brain que permanecera inexpressada, inexprimível, todos esses anos. Era essa raiva que havia levado diretamente ao episódio da faca... Fizera um imenso esforço para esconder isso. Estava no primeiro dia de sua nova fase. Hoje não haveria névoa vermelha, nem tirada obscena, nem apagamento de memória induzido pela fúria. Hoje encararia o demônio e lutaria com ele até jogá-lo na lona. Respire, disse a si mesmo. Respire" (Salman Rushdie, página 111)


Referências bibliográficas
ADORNO, T.W. - Adorno. São Paulo, Editora Ática, Col. Grandes Cientistas Sociais 54, 1986.
BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. São Paulo, Jorge Zahar, 1997.
McCHESNEY, Robert W. - "Mídia Global, neoliberalismo e imperialismo" in Dênis de Moraes (org.) Por uma Outra Comunicação. Bauru, EDUSC, 2000.
NIETZSCHE, Friedrich W. - Assim Falou Zaratustra - Um livro para todos e para ninguém. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 9ª edição, 1998. Tradução de Mario da Silva.
RUSHDIE, Salman - Fúria. São Paulo, Companhia das Letras, 2003.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

comprometida

Dois anos depois do sucesso de “Comer, Rezar e Amar”, Elizabeth Gilbert se viu com a missão de escrever outro livro que agradasse seus leitores. Aliás, é com este propósito que abre “Comprometida”, concebido a partir do dilema: casar ou não casar novamente?

Para quem não leu o primeiro livro, trata-se de um relato de uma mulher na casa dos trinta anos que resolve mudar, em parte, a vida que tem. Para isso, rompe um casamento e se lança para a Itália, onde aprecia belos e deliciosos pratos. Conhece os cafés de Roma e faz alguns bons amigos. Depois, ruma em direção à Índia onde espera ter um momento só seu. Passa os dias a meditar, a livrar-se de mosquitos e a limpar o chão. Tudo sem perder de vista sua vida moderna, bem-sucedida e capitalista no Ocidente. Na sequência, parte para a terceira parte projetada de sua viagem: a Indonésia. Lá, conhece um brasileiro pelo qual se apaixona e com o qual encerra a história, feliz (ops, será que não deveria ter contado isso?). Enfim, na leitura, que é gostosa e vale pelas dicas de viagem e fatos históricos, fica a sensação de que ela é uma mulher de sorte. Poucos poderiam se aventurar assim sem se preocupar com o que o futuro iria lhes reservar na volta. No caso de Gilbert, ele já estava traçado quando recebeu da editora um valor adiantado pelo livro que seria escrito. Ganhou, como bônus, um namorado dedicado.

O livro trata do dilema de várias mulheres. Casar? Ter filhos? Mudar de carreira? Viajar sem destino? Discutir o relacionamento? Mas, afinal, o que queremos? Com o que somos "comprometidas"? Não é à toa que os chamados chick lits, categoria na qual não pretendo encaixar a leitura de “Comer, Rezar e Amar”, viraram best-sellers e fazem várias escritoras terem uma conta bancária bem melhor que a nossa. Vejamos o caso de Marian Keys, de Melancia e seus desdobramentos, e a saga de Helen Fielding com sua Bridge Jones. Sim, dilemas femininos podem ser lucrativos e oportunos em algum momento de nossas vidas. Isso sem falar em Sex And The City ou simplesmente SATC. Duas amigas e eu costumávamos usar essa sigla para agendar encontros para debatermos, entre cafés e pedaços de bolo, digamos, nossas questões existenciais. Leia-se: “Casar? Ter filhos? Mudar de carreira? Viajar sem destino? Discutir o relacionamento?” Parece engraçado, mas é exatamente o que passa na cabeça das mulheres modernas, pós-graduadas e emancipadas. Claro que há exceções. Mas, são exceções.

Li recentemente que é justamente a liberdade de expressão e de escolhas que dão origem as “neuras” que nos dominam. Transportando isso para o universo feminino, parece fazer sentido. Antigamente, tudo parecia ser mais simples: alfabetização, leituras de romances franceses, bordados, casamento arranjado, filhos e mais bordados. Hoje, não. Felizmente, podemos mudar o roteiro de acordo com nossas preferências. O problema é que sempre ficamos com a sensação de que poderíamos ter escolhido outro caminho. Contudo, as cobranças existem e também passam a nos atormentar. Além da questão campeã em audiência “quando você vai casar?”, somos cobradas por uma casa própria, por reservas financeiras, por uma profissão, por um salário melhor, por andar na moda, por uma barriga reta, pernas duras e férias (sim, até ela pode estressar, porque se não viajamos, não são férias “de verdade”). Ufa.

No meio de tudo, é natural que deixemos de lado a pergunta número um. Pois tudo parece muito mais importante. Mas será que isso realmente acontece?

Gilbert coloca em “Comprometida” justamente a questão do casamento: “casar para quê?”, se pergunta. Puxa vida, e o romantismo? E a história que ela mesma conta de Zeus, que por inveja da felicidade aqui na terra onde todos viviam saltitante e felizes com duas cabeças, quatro pernas, quatro braços, lança um feitiço que separa brutalmente cada ser em dois, fazendo com que a humanidade fique para todo o sempre em busca de sua outra metade? Como fica tudo isso?

Desconfio, ainda, quando ela põe a mulher numa posição inferior. São sempre as fêmeas que abdicam de seus interesses em prol de um casamento e de uma família. Mesmo? O homem também não tem que abrir mão de gostos pessoais e não fica com o peso de ter que sustentar esposa e filhos? Não sou machista, muito menos feminista. Acredito que se lutamos tanto por direitos iguais, temos que pensar de maneira equivalente. Durante seu discurso, a autora lança mão de estatísticas que mostram que o casamento é uma instituição falida. Fala por sua experiência, pois protagonizou uma história com final infeliz. Mas ao mesmo tempo parece o tempo inteiro buscar conselhos e números que venham ao encontro do que, secretamente, quer ouvir: “no fundo, vale muito a pena casar-se.”

Tudo porque o destino a coloca diante do serviço de imigração que põe em cheque os vários vistos de idas e vindas do namorado brasileiro nos Estados Unidos. Solução dada pelo próprio policial: “você não gosta dele? Case-se, então, assim ele consegue o green card.”  Parece fácil e razoável. Todavia, não para uma divorciada que tem urticárias só de pensar numa outra união estável. Passa a relembrar da dor que sentiu na época da separação, do remorso que teve, das confusões no momento da partilha de bens.  Aqui, vale ressaltar uma máxima chick-lit: sem dilemas femininos, sem best-seller. Então, é isso. Entre um documento e outro a ser encaminhado ao serviço de imigração, temos viagens ao Vietnã, ao Laos e outros países asiáticos a fim de colher depoimentos e histórias sobre a aliança entre homem e mulher. Por lá parece ser sempre a mesma coisa: casa-se por convenção. E por aqui? Tendo a acreditar que não é bem assim. Não há regras. Há os que casam porque querem, outros porque amam, outros porque não querem ficar sozinhos. Por outro lado, há os que não casam porque não querem, porque gostam da individualidade, porque ainda não encontraram alguém ou porque não deram “sorte no amor”. Frase triste mas que tem seu fundamento. Há os que casam e que se dão mal. Os que casam e que não se desgrudam. Os que levam o relacionamento sem ferir a individualidade. Tudo é possível numa sociedade democrática e cheia de opções. Ainda bem. Não ficamos restritas apenas ao casamento como fim, mas como uma alternativa entre tantas outras. A propósito, a "clássica versão brasileira de resolver conflitos", característica do namorado descrita por ela, igualmente não é ditada por regras. Se Elizabeth ou a família não falariam de forma "impulsiva" nem com um assaltante, a minha e eu muito menos. Apenas um parênteses.

Voltando ao Laos e à história que a norte-americana conta da moça de dezenove anos, Noi, e de seu marido Keo, de vinte e um anos, fica certa pretensão da autora que parece dizer entrelinhas: “ainda bem que não nasci neste lugar com tanques de rãs no quintal e aparente submissão feminina”. Sortuda, Gilbert. E, sobretudo, talentosa, ou não saberia usar todos os dilemas das garotas de  trinta a seu favor. Ou seriam sortudos Noi e Keo que entre vários tanques de rãs nutrem uma admiração mútua onde o poder de escolhas individuais é o que menos importa? Como disse Manoel Bandeira, no poema A Arte de Amar, Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor. Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

quem (des) motiva quem?

Outro dia me disseram que a motivação é interna. E que ninguém motiva ninguém. O que podemos fazer é fornecer alguns estímulos para que a pessoa encontre ou  reencontre seus próprios interesses. Ora, até que parece simples. Não fazemos isso quando percebemos que alguém de quem gostamos não está bem?

Transferindo isso para as corporações, vemos que é complicado. Uma empresa é formada, acima da tecnologia e dos bens patrimoniais, por pessoas. Produtos e serviços são desenhados, pensados e executados por seres humanos. E não importa o nível: todos são co-responsáveis pelo o que é entregue. Mas nem todos pensam assim. Muitos não enxergam a importância de sua função no macro organizacional.

Entre o cargo hierárquico mais alto e o mais baixo, há várias motivações diferentes. Há o estagiário que quer subir rápido, e que vai se esforçar para ser visto. Há o gerente insatisfeito com a mudança que teve em sua função, seja porque perdeu espaço ou porque vai acumular mais funções, sem a devida recompensa monetária. Há o assistente feliz com sua posição, que está lá para fazer, e bem, o que lhe pedem, mas que está sempre ansiando pelo fim de semana e pelas férias. Há o analista que almeja um cargo acima, quer trabalhar mais e mais, gosta de questionar, dar sugestões. Mostrar coisas novas. Há aqueles que assumiram tanta responsabilidade que lamentam não ter mais tempo com a família. Tem os que estão em busca de outra oportunidade, mas que por enquanto ainda estão ali e precisam de atenção. E há todos os outros que trabalham e reclamam. Reclamam, mas trabalham. Aliás, um parênteses para dizer que nós somos insatisfeitos por natureza. Conseguimos o que queremos e logo já estamos de olho em outras coisas.

E como encontrar uma fórmula única para estimular a todos? Com certeza não será fazendo uma palestra que faça rir ou que transmita a mensagem: “Aproveite o que você tem de melhor. Vá lá, faça e aconteça”. Clichês e discursos genéricos podem causar alergia.  Desculpem-me, gurus da motivação. A apresentação pode ser boa, todavia fugaz.
                                                                                                                      
Muito se cobra da comunicação. Se não deu certo determinada ação “foi por falha na comunicação”. E mais uma vez os pobres profissionais de comunicação são penalizados. É o boletim que não saiu na hora certa, a promoção que não agradou ou a Intranet que estava desatualizada. Gestores e gestoras, por mais alinhada e melhor que seja a comunicação de uma empresa, sozinha ela não consegue dar conta de seus estilos de liderança. Na minha opinião, os grandes responsáveis pela dita (falta de) motivação.

As empresas não buscam satisfazer as vontades de seus clientes? Não criam marketing de relacionamento, CRM, Business Intelligence? Por que não aplicar a mesma premissa para o público interno? O gestor não tem que tratar a todos da mesma forma. Claro que não me refiro a privilégios ou descarrego de mau humor.  Mas de cada funcionário ter sensibilidade e prioridades específicas, o que faz com que cada pessoa necessite de atenção diferente e uma abordagem distinta.

O melhor de tudo é que para tal não precisamos de um sofisticado programa de mapeamento de perfil ou disparos de e-mails marketing. O primeiro passo é deixar os possíveis melindres de lado e prestar mais atenção. Os funcionários nos dão os sinais de como querem ser tratados. Observe também o silêncio, os gestos e as expressões. A partir, daí ficará mais fácil apontar falhas, cobrar, corrigir e, se for o caso, demitir e até elogiar. Sim, méritos são méritos e todos gostam de congratulações, desde que legítimas. Nada de sair disparando frases-feitas e bonitas a todo momento só para parecer agradável.  

Procurar entender as pessoas pode ser muito divertido e aprendemos muito até sobre nosso próprio comportamento. Alguns pedem metas claras, outros querem autonomia, alguns se saem melhor em funções mais analíticas, há os que precisam de um chefe mais autoritário (e não mal educado), outros precisam apenas de um conselho. Até mesmo na hora da confraternização há dilemas a serem considerados. Não adianta querer forçar um happy hour para comemorar o que quer que seja com alguém que não gosta de festas. Ele pode até ir, mas contrariado. De repente, uma dia de folga para esse caro colaborador pode ser mais produtivo. Festas de aniversários e almoços em equipe também têm que acontecer de forma natural. No mais, acreditem, uma boa conversa pode diminuir o estresse emocional e eventuais intrigas, que tanto nos irritam. No fim, o que vamos ver é que todos são carentes, inclusive os gestores. A busca pela felicidade, estampada em todos os artigos sobre qualidade de vida, nos faz sermos mais severos com nossas metas. Quando não atingidas, há a frustração. Esquecemos que um dia comum, sem grandes metas cumpridas, pode ser bacana e muito marcante.  Mas este já é assunto para outro bate-papo.

Agora, isso só vale se você quiser uma equipe coesa, que acredita e confia em você. E mais: uma equipe disposta a fazer o melhor trabalho possível. Se não tiver coragem de perguntar e humildade para ouvir, esqueça tudo. Diga que a comunicação não funciona e continue a fingir que tudo vai, de certa forma, bem.


Cartaz do filme "O Grande Chefe",
de Lars von Trier. Sátira da vida corporativa.


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

lendo imagens

Olhar uma imagem e interpretá-la somente com nosso repertório pessoal. Talvez com alguma pesquisa sobre a época em que foi criada. Talvez apenas permitindo que ela nos toque. Talvez somente ouvindo o que a imagem tem a nos dizer. Essa é a proposta de Alberto Manguel: olhar uma imagem sem a preocupação de seguir as estruturas formais das escolas de arte.

O livro, escrito pelo argentino com cidadania canadense, foi lançado em 2000 com o título original “Reading Pictures: a history of love and hate”. É uma espécie de manifesto a favor dos espectadores comuns, que devem ter o direito de ler imagens sem métodos ou teorias da história da arte.

Na tentativa de mostrar que é possível para um leigo admirar uma imagem, ele começa sua jornada com um exemplo da infância, quando tinha apenas nove anos. Por meio da tia, que era pintora, cai em suas mãos um livro sobre Vincent van Gogh, aberto na imagem da tela “Barcos na praia de Saintes-Maries”, de junho de 1888.


Manguel conta que até aquele momento estava acostumado com livros de estórias infantis ilustradas. Texto e imagens se completavam. Agora, estava diante apenas de imagens. O pouco texto que existia, se restringia à vida do pintor, título e data das obras. “Em um sentido muito categórico, aquelas imagens se mantinham isoladas, desafiadoras, me aliciando para uma leitura. Nada havia para fazer exceto olhar para aquelas imagens: a praia cor de cobre, o barco vermelho, o mastro azul. Olhei para elas demorada e atentamente. Nunca as esquecerei.”

Para ele “as imagens, assim como as palavras, são a matéria de que somos feitos.” Não importa se são símbolos, alegorias, sinais, mensagens. Ou se são coisas vazias que precisam ser completadas por nossos desejos, experiências, questionamentos, remorsos. Isto é, por nossa interpretação. Sem esquecer que a mesma imagem ganha e perde significados com o tempo e com nosso sentimento no momento em que a estamos contemplando.

O livro é divido em onze momentos, cada um a desvendar uma imagem diferente. Sem falar em escolas, técnicas, perspectivas, claro/escuro. Mas, mesmo para um passeio despretensioso, o autor lança mão de historiadores e filósofos para dar conta das análises que faz de algumas obras. Destaco, aqui, cinco delas. Em todas, incita-nos a conhecer a essência de tudo o que vemos e o quanto uma imagem pode nos mostrar sobre determinada época, sobre determinado pensamento.  
                                               
A imagem como ausência e Joan Mitchell

Aqui, Alberto Manguel discorre sobre o abstracionismo e como encontrar significado na ausência de algo real num quadro ou quando não estamos diante de algo reconhecível. Usa como base a tela “Dois Pianos”, de 1980, da artista norte-americana Joan Mitchell, que viveu entre 1926 e 1992, e que fez parte do expressionismo abstrato americano.


A tela tem 3 metros de altura por 3,5 metros de largura. A primeira impressão do autor diante da pintura foi essa: “contra um fundo branco, visível apenas em trechos isolados, uma tempestade de pinceladas verticais recobre a tela inteira com tonalidades vivas de amarelo e de lilás – o amarelo se desbota até o limão em certos pontos, o lilás se escurece quase até o preto, em outros trechos.”

Como esta confusão pode ser lida? Será que ela vai além de pinceladas coloridas? Ou melhor, será que ela quer e precisa ser lida? A resposta se dá com o pintor, também norte-americano, Jackson Pollock, conhecido por suas pinturas respingadas, sem referências a objetos, pessoas ou história. Seus quadros não têm começo nem fim, segundo um crítico de arte. Pollock agradeceu o ‘elogio’. Ele e seus companheiros queriam encontrar uma forma para “responder emocionalmente ao mundo, e não copiá-lo ou melhorá-lo.”

Também não estavam interessados em comunicar coisa alguma sobre o universo. Queriam apenas compartilhar o impulso criativo, “trazendo o artista e o espectador para dentro da própria pintura.” Criaram, na verdade, um sistema de signos no qual não havia mensagens ou sentido. Mas se, em todo caso, o leitor fizer questão de uma interpretação, a responsabilidade é dele e não do artista.

O fato de insistirmos na busca de significado reforça a frase de um dos nomes do teatro do absurdo, Eugène Ionesco, que o argentino cita no seu livro: “o mundo impede que o silêncio fale.”

Robert Campin. A imagem como enigma.

A imagem “A virgem e o menino à frente de um guarda-fogo”, atribuída a Robert Campin, pintor flamengo que viveu entre os séculos XIV e XV, é uma oportunidade para falar sobre um quadro no qual cada elemento tem forte significado.


A pintura mostra uma cena conhecida: Virgem Maria alimentando seu filho. O autor chama a atenção para as pistas que levam à sua decifração. Será que quatro séculos depois de ter sido concebida, ela ainda é legível para nós? Será que um observador dos nossos dias consegue ler e entender o que está por trás de cada elemento da obra?

Alberto Manguel, ao longo do capítulo, vai decodificando alguns símbolos presentes na tela. O seio, por exemplo, tem inúmeros significados: desde o vínculo com a maternidade até uma conotação erótica. No caso dessa pintura, pode expressar a adoção do filho de Deus por essa mulher e o cuidado que teve com ele, mantendo-o vivo. A auréola surge como um símbolo inconfundível no cristianismo, e que teve sua origem no Império Romano, onde os raios de sol eram usados para coroar Apolo, o deus do Sol. Há também o banco de três pés: santíssima trindade – o pai, o filho e o espírito santo. O livro em cima da almofada vermelha está aberto, uma relação com a Anunciação, ou seja, Maria toma conhecimento do destino trágico que aguarda seu filho.

Outro fato interessante, apresentado pelo argentino, é que exames de raio X mostraram que a genitália de Jesus foi propositalmente exposta pelo pintor. Mas escondida durante uma restauração no século XIX, fato só revelado recentemente. Para completar a leitura, Manguel observa que o órgão sexual de Cristo não está circuncidado. No entanto, trata-se apenas de uma questão de tempo, pois os ladrilhos negros octogonais, abaixo do vestido da mulher, indicam o oitavo dia da tradição judaica: após oito dias de seu nascimento o menino é circuncidado, momento em que a criança está mais forte. São vários os enigmas e detalhes que compõem a imagem e que anseiam por serem decifrados. Tarefa difícil e quase impossível para um leitor leigo.

Tina Modotti. A imagem como testemunho.

A foto para este tema foi tirada em 1927 por Tina Modotti, uma atriz que se tornou fotógrafa. Filiada à Ajuda Vermelha Internacional, uma versão comunista da Cruz Vermelha, ela era uma ativista que levantava a bandeira dos direitos individuais e de uma vida decente.


Esta fotografia, que não tem título, expressa sua crença. Nas palavras de Manguel: “o que vemos quando olhamos essa cópia fotográfica é algo inequívoco: os pés com sandálias de um camponês mexicano, de roupa branca, própria para o trabalho, unhas quebradas e pele impregnada de poeira, enquanto as mãos estão cruzadas sobre os joelhos, a linha superior da moldura corta o resto do corpo do homem: o único elemento adicional na foto é um relance do pé e da perna de outro homem, muito pouco visíveis no lado esquerdo, impedindo que a composição se torne confortavelmente simétrica demais.”

Ele vai além em sua interpretação, dizendo que quando a fotógrafa retratou esses pés, ela, mesmo que inconscientemente, estava “situando o seu camponês mexicano na cadeia de uma longa tradição de sofredores e de conquistadores presos à terra.” A foto foi tirada durante uma revolta dos camponeses mexicanos contra uma lei que restringia cultos religiosos. As reivindicações deles, que tinham como grito de guerra a expressão “Viva Cristo Rei”, eram o direito ao culto e à terra onde trabalhavam. Eles eram associados aos soldados de Cristo, que calçavam sandálias. Histórias e fatos que não sabemos quando apenas contemplamos a imagem, sem nenhuma referência. Pode ter sido uma forma de denúncia. Quiçá, por este motivo, Tina Modotti tenha sido alvo de um atentado. Não se sabe ainda a causa exata de sua morte. Segundo laudos oficiais, foi um ataque cardíaco, uma vez que sofria do coração. Neste ponto, o autor coloca reticências.

Lavínia Fontana. A imagem como compreensão.


O que diz esta imagem? Um retrato de alguém que sofre da doença do menino lobo ou apenas uma pintura surreal?

Manguel mesmo afirma que para um olho moderno, pode não passar de uma ficção. Mas o fato é que a pintura de Lavínia Fontana, feita no século XVI, retrata uma menina, Tognina Gonsalvus. Assim como seu pai e seus três irmãos, sofre de uma doença de pele chamada hypertrichosis universalis congenita, que faz crescer pelos por todo o corpo, dando a pessoa um aspecto de animal. Como consequência, a família era uma espécie de aberração e alvo de vários cientistas e médicos que queriam estudar o fenômeno. “Sem dúvida, o rosto de Tognina parecia ter tais características animais, que corporificava uma transgressão das fronteiras humanas.”

Eles representavam o medo das pessoas, em sua época, de ultrapassar a fronteira que separa o homem dos animais tidos como irracionais. “O corpo peludo traz perigoso apelo de uma existência física sem freios.” Entretanto, ao mesmo tempo em que causa aversão, aguça a curiosidade. Todos querem e não querem ver. Ficam espiando, especulando, mas sempre por trás de portas, com o canto do olho e, em alguns casos, viram espetáculo.

Manguel se questiona como teria sido o encontro de Lavínia, nomeada pintora do papa Gregório XII, com a menina lobo. Chega a ironizar alguns pontos da vida da artista: casada com um tolo, tinha um único filho que sofria de retardamento mental, um irmã cega devido a um acidente e um pai falido, ou seja, ela também era uma estranha em seu próprio ninho. “Será que conversaram sobre sua solidão, sobre o peso de serem algo fora do comum, de um monstro para o outro, de uma criança-lobo para uma mulher pintora? Será que Tognina lhe falou de seus sonhos e talvez do rosto que sonhava em ter?”

O quadro de Fontana responde a estas questões, com consolo e conformismo: “o aberrante não precisa se esconder, o ser social não precisa fingir, o lado claro e o lado escuro podem se expor a céu aberto. Na pintura esplendidamente compassiva de Fontana, os dois lados se fundem em um só e olham firmes para o passado, para o presente e para o futuro do espectador, em uma afirmação absoluta do seu ser polimorfo.”

Picasso. A imagem como violência.

O quadro que abre o capítulo é “Mulher Chorando”, de 1937, de Pablo Picasso.


O pintor é definido como avarento, mulherengo, sem sentimentos, uma pessoa que não se importava com quem estivesse ao seu redor. Tão individualista que colocava nas pinturas seu próprio eu. Chegou a dizer: “Ninguém tem real importância para mim. No que me diz respeito, as demais pessoas são como aqueles pequenos grãos de poeira que flutuam na luz solar.” Um desses grãos é a mulher que deu origem à tela estudada e que figura também no famoso painel “Guernica”.

“Mulher Chorando” é, e não é, o retrato de Dora Maar, uma de suas amantes. Submissa e apaixonada, estava sempre disponível para quando ele a chamasse e se autointitulava sua ‘musa particular’. Brigavam muito. Muitas dessas brigas eram provocadas pelo próprio Picasso que a acusava de infidelidade, imaginária, segundo Manguel. Para ele, poderia ser uma acusação intencional, apenas para fazer a amante chorar. E quando ela irrompia em lágrimas, Picasso pegava seu caderno e se lançava a desenhar. O artista dizia que não conseguia imaginar Dora Maar de outra forma a não ser chorando. De todas as mulheres que teve, foi a única que ele retratou desta forma: desfigurada, machucada, “despedaçada pela tristeza”. Suas outras amantes eram retratadas com curvas suaves, mas Dora Maar tinha todas as suas faces violentamente retratadas num só plano. Aliás, ela alegou que essas faces, tidas como dela, eram na verdade as dele.

Quem sabe não estivesse certa: a violência do amante bruto esboçada na tela. De tanto ser atormentada e de tanto abdicar de sua própria identidade em prol das vontades do pintor, ela enlouqueceu. Chegou até a ser encaminhada ao psiquiatra amigo de Picasso, Jacques Lacan. Dora foi vítima de uma violência que lhe tirou a identidade, a alma. Mas, no fundo, é possível que este fosse seu objetivo de musa: doar-se em nome da arte do amante.