quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

sônia ferreira: dança inconsciente dos números

Carros estacionados. Pessoas nas calçadas. Cachorros latindo. Fogos de artifício. Alguém parece ter mais um motivo para estar feliz. Samba, MPB, rock n'roll. Na trave. Um gol. É preciso muita atenção para identificar os diversos sons que vêm das casas, dos automóveis, dos transeuntes. Uma lona preta cobre o portão da casa de número 5. Batata! É mais uma festa de aniversário num domingo ensolarado. Lá, as pessoas utilizam a lona para esconder dos xeretas as festas realizadas na garagem.

Sônia Ferreira é uma rua típica da periferia. Cravada na zona leste de São Paulo. Os vizinhos são todos conhecidos, companheiros. Como numa cidade pequena, todos sabem o que acontece na casa ao lado. E na da frente. E na do outro lado. E na da esquina também. Fatos atualizados diariamente pelas senhoras que saem para a caminhada matinal às 7h15, pontualmente. Somente têm folga nos finais de semana.

São apenas quatro quarteirões e três travessas. O colorido das residências quebra a monotonia do asfalto remendado e das calçadas irregulares. Fios entrelaçados são sustentados por sete postes. Uma enorme torre pode ser vista de longe. Telefonia celular. Tecnologia de ponta. Referência para quem visita o local pela primeira vez.

De um lado 138, 3, 20, 5, 110A, 49, 8. Do outro, 4, 119, 6, 14. E por aí adiante. Esta é a sequência dos números das casas. Para desespero dos carteiros novos. A explicação vem da dona de casa Olinda, há 29 anos morando no número 6. "Faz tempo que veio uma cartinha da prefeitura falando o número certo da casa.” Nem todos concordaram ou pareceram se importar com a intimação. "Meu número novo é 113. Eu não gosto do 13. Então fico com o 6 mesmo. E depois dá trabalho. Tem que ir até a prefeitura levar as papeladas. Dá preguiça.”

Há quatro décadas, a rua não era uma rua. Fazia parte de uma chácara. Assim como todo o bairro. Quem comenta é a moradora mais antiga, Dona Zulmira, portuguesa de 75 anos. "Ah, eu sou a mais velha daqui, sim. Já faz bem mais que trinta anos que cheguei. Aqui era tudo mato. Não tinha asfalto. Para ir até as lojas e mercados a gente tinha que seguir por uma trilha. Se agora ela está melhor ou pior eu não sei. Mas que está diferente está.” Hoje restam apenas cinco árvores e meia. Um tronco ainda resiste ao concreto. Sem galhos, sem folhas ou flores. Ele está fincado num pedaço de calçada que ainda não ganhou cimento. Na esquina. Bem no meio da rua. Se hoje ainda está ali, deve suas raízes intactas a um carro da prefeitura que passou no momento exato em que um dos moradores quase consumava sua extração. “Leva multa quem arranca árvore.”

Nas noites de terça, quinta e sábado o programa é certo. Público garantido. Silêncio. Apenas o som de um ou outro carro que insiste em descer a rua. Todos aguardam o espetáculo. Os mais velhos se prepararam horas antes. Os mais novos ajudaram. Um, dois, três. Os cachorros alertam. Latidos fortes, agudos. Há sopranos, contraltos, tenores e baixos. Alguns arriscam um solo. Cada um no seu tom, no seu momento, no seu infinito fôlego. Irritante para aqueles que tentam assistir ao Jornal Nacional. Importante para aqueles que por algum motivo estavam distraídos. Tudo para anunciar que o lixeiro está chegando. Um minuto depois o caminhão se aproxima. Homens de macacão laranja com listras brancas recolhem sacos pretos, azuis, de papelão. Cheios. Todos cuidadosamente postos em frente aos portões. O caminhão não para e eles precisam pegar um saco aqui e outro ali. Correr e depositá-los no caminhão. Voltar dois passos. Recolher outros sacos e correr. Abaixam, levantam, pulam, esticam os braços. Assim, num ritmo frenético. Como se estivessem dançando ao som do coral canino. Personagens de um musical que acontece três vezes por semana.

Na manhã do outro dia, ainda há vestígios da festa. Pedaços de papéis, potes de iogurte, casca de ovos são recolhidos pelas mulheres, e homens, que lavam os quintais e calçadas. Baldes e mais baldes da água que serviu para enxaguar a roupa. Consciência ecológica. Ou seria um olhar atento no relógio da Sabesp?

Texto escrito em 2004

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