terça-feira, 28 de junho de 2011

ser animal não é ser humano


Ao entrar no prédio onde moro, deparo-me com um senhor empurrando um carrinho de bebê. Só que no lugar destinado a uma criança, havia um cachorrinho. Não sei exatamente de qual “marca”.

Entendo a necessidade de algumas pessoas em dar todo o conforto aos seus bichinhos de estimação. Eu mesma faço isso. É muito gostoso ver a reação dos cachorros quando chegamos com algum petisco ou bolinha nova. E traz muita segurança saber que a medicina veterinária vem permitindo uma vida melhor aos nossos “amigos”. Mas não sei até que ponto o animal está pronto para aceitar todos esses mimos, principalmente quando são em excesso.

Pet shops, e até grifes famosas, faturam com a domesticação dos animais, ou melhor, com a dita humanização que queremos dar aos bichos. Hoje, há nas prateleiras sorvetes, chocolates, panetones e outras guloseimas na versão canina. Gatos também têm seus apetrechos. Sem contar os assessórios que enfeitam as demais espécies de animais que passaram a viver nas casas dos humanos, como furões, chinchilas e outros roedores. E nem vou mencionar o que está disponível para aves e peixes, os mais prejudicados dentre os pets.

Mas voltando aos bichinhos style. Passar perfume em cachorro faz mal. Dar migalhas do que comemos também faz mal. Achar que um cachorro é nosso filho faz mal. Passar nossos traumas para os animais não é legal.

Há uma apresentação que roda na internet que retrata bem a humanização. Ela compara alguns cachorros com seus donos. Incrível como se parecem. E mais incrível ainda é notar que no dia a dia a semelhança procede. Resolvo contrastar meus amigos com seus respectivos animais. E lá está a mesma forma de cerrar a boca quando contrariados. O mesmo aspecto largado e descuidado. A mesma ansiedade. O mesmo olhar perdido.

Até aí tudo bem, afinal cães são seres que sentem dor e sofrem. Que comemoram e que, eventualmente, imitam. Oras, são seres vivos como nós. Todavia, não são humanos. Principalmente, não são brinquedos nos quais, já adultos, depositamos nossas frustrações e “quererseroquenãosomos”.

Já tive muitos cachorros. Todos “maloqueiros”, como costumo dizer ao compará-los com os animais que passeiam graciosamente com seus donos no Parque do Ibirapuera. Às vezes, até sinto uma pontada de inveja ao ver que obedecem prontamente a todos os comandos e que não saem em disparada quando soltos. O que nunca aconteceu com minha “prole”. Mas o meu questionamento é a obsessão em querer dar ao bicho algo que não combina com ele. Como levá-lo para passear num carrinho para bebê (em tempo: o animal não tinha nenhum tipo de deficiência e podia locomover-se sem nenhum problema). O ato de enfeitar as cachorrinhas com lacinhos, peircings, brilhos, jóias, bijuterias, esmaltes e laquê merece uma receita psiquiátrica. Façam isso com vocês. Não transfiram para os cães o que gostariam de ser e ter.

No último fim de semana, vi uma reportagem que mostrava uma senhora cujo único passatempo é preparar a cachorra para os inúmeros campeonatos de beleza que existem nos Estados Unidos. Gasta alguns milhares de dólares na compra de vestidos, enfeites e tudo o que for necessário para conquistar os jurados. Sua infelicidade é que a cadela nunca ganhou nada além de um modesto segundo lugar. O marido diz que a mulher é mais feliz depois que adquiriu “essa atividade”. Talvez ele é que tenha ficado mais feliz, agora é fator secundário naquela casa. Menos atenção, mais liberdade, enfim. Xô, neurótica.

Certa vez, uma professora me questionou se não seria injusto manter cachorros em casa, confinados, muitas vezes, numa pequena parte do quintal ou da varanda. Concordo em parte com a observação. Digo em parte por conta dos animais abandonados, cujo destino conhecemos muito bem: atropelamentos, violência, eutanásia. Com certeza, muitos deles estão em melhores condições porque encontraram um lar. Alguém que realmente gosta dos animais e que não os transformam em seu alter-ego.

Infelizmente, muitas pessoas são atraídas pelas raças. Escolhem os filhotes em vitrines que, a exemplo das roupas e calçados, variam conforme a estação. Só que os filhotes crescem e, em alguns casos, perdem a graça e são dispensados. Ou acabam ficando “fora de moda”. Abandonados, não sabem viver sozinhos e sem os cuidados do homem. Também não são raros os casos dos donos que não abandonam os animais, mas que os doam a amigos, vizinhos e outros parentes porque “não se adaptaram” ao bicho. Será que foram mais benévolos?

Enquanto isso, que tal prestar atenção no olhar abaixo? Será que ele está mesmo esperando um “carrinho que o carregue?”

Pirulito, vira-lata sem adornos

segunda-feira, 27 de junho de 2011

sobre a televisão

Sob certas condições de Bourdieu

“Não se pode dizer grande coisa na televisão, muito especialmente sobre a televisão.” É assim que, diante das câmeras, Pierre Bourdieu inicia seu discurso contra o meio televisivo em dois programas apresentados, em 1996, com os recursos audiovisuais da Collège de France, da qual foi professor. E da transcrição dessas aulas surgiu “Sobre a Televisão”, livro que se tornou um best-seller e que chegou ao Brasil, em 1997, com tradução de Maria Lúcia Machado a partir da sexta edição francesa.

Aparentemente, não deve ter sido fácil para o sociólogo francês, crítico assíduo da mídia, submeter-se à televisão. Mas ele justifica a aparição no início de seu discurso: “sob certas condições”, somente desta forma um intelectual que se preze pode ir às telas. Bourdieu diz ter aceitado fazer um programa de televisão para falar sobre a televisão porque tinha em suas mãos todo o “domínio dos instrumentos de produção”, e porque tencionava propiciar uma reflexão verdadeira que extrapolasse os campos da faculdade.

Para aparecermos na televisão de uma forma digna, devemos ter algumas exigências: tempo não limitado, não permitir que nenhum assunto nos seja imposto e não deixar que nos ditem regras e técnicas para facilitar a compreensão do público, para preservar a moral e os bons costumes. É o que ele diz ter feito na transmissão pela Collège de France. Apenas cedeu num quesito: a simplificação. Para ser entendido por todos, é preciso recorrer à clareza e foi o que o sociólogo, conhecido por sua intransigente e rigor acadêmico, teve que fazer, mas, em suas palavras, sem perder a autonomia do discurso analítico e crítico.

Nos dois capítulos que compõem o livro, seguidos de dois textos adicionais, a televisão é apresentada como a vilã dos meios de comunicação, que põe em risco à população e todas as esferas da produção cultural, artística, literária, científica, filosófica e até judiciária. Ela expõe ao perigo a vida política e a democracia ao visar, sempre, os altos índices de audiência.

Como sociólogo, Bourdieu se sente na obrigação de mostrar o lado oculto das coisas. Talvez por isso o livro só veja o lado mais perverso da televisão. Ele não tem nenhuma intenção em elucidar os aspectos positivos e sua abrangência, mas apenas enfatizar as manipulações que não estão ao alcance de nossos olhos e da nossa percepção. Afirma que a televisão é dominada por uma censura invisível e que utiliza de vários artifícios para ser considerada um meio democrático e aberto, como o fato de ser “gratuita”. Já nos bastidores, ela impõe os assuntos que deverão ser discutidos pela sociedade e deixa pouco tempo para a reflexão do que está sendo difundido

Bourdieu fala, ainda, de um controle político, sobretudo pelos verdadeiros donos da televisão, em muitos casos as grandes organizações. Isso faz com que certos assuntos sejam proibidos a fim de não ferir a imagem dos reais patrocinadores das emissoras.

Jornalismo: receptáculo de ideias feitas

Embora o livro seja sobre a televisão, o que percebemos é uma crítica voltada, sobretudo, aos telejornais e, mais especificamente, aos jornalistas. O jornalismo é para o sociólogo um depósito de notícias de variedades dentro de uma sociedade em que “o sangue e o sexo, o drama e o crime sempre fizeram vender.” São notícias que elevam o índice de audiência e que distraem: os fatos-ônibus, assuntos de interesse comum, que não envolvem disputa e que geram consenso. Para facilitar a disseminação desses eventos, a televisão apela para a dramatização, exagerando um acontecimento e dando-lhe mais importância do que de fato ele tem, somam-se a isto os estereótipos. Outros assuntos sempre presentes são: esportes (com grande destaque), os rituais políticos, visitas de chefes de Estado, algumas gafes, acidentes e catástrofes naturais. Tudo o que pode instigar a curiosidade e que não exija nenhum conhecimento específico para que possa ser entendido ou questionado. Aliás, são todos assuntos que caem no lugar-comum, onde impera a uniformidade de opiniões e até sentimentos.

Este tipo de informação “é muito importante porque interessa a todo mundo sem ter conseqüências e porque ocupa tempo, tempo que poderia ser empregado para dizer outra coisa. Ora, o tempo é algo extremamente raro na televisão. E se minutos tão preciosos são empregados para dizer coisas tão fúteis, é que essas coisas tão fúteis são de fato muito importantes na medida em que ocultam coisas preciosas.” A denúncia é que, por ser a única fonte de informação para um grande número de pessoas, a televisão chega a ser um monopólio e ao preencher a tela com fatos-ônibus impede que o cidadão tenha acesso a dados que poderiam ser essenciais para que eles exerçam seus direitos democráticos.

Mesmo diante do lugar-comum, os jornalistas buscam, ou pensam buscar, o extraordinário, o extra-cotidiano e na ânsia de fazer diferente, de antecipar-se ao jornal concorrente, na eterna perseguição pelo furo de reportagem, acabam por caírem todos na mesma notícia. Como conseqüência, Bourdieu aponta a uniformização e a banalização dos conteúdos disseminados, tornando os produtos jornalísticos homogêneos. Na verdade, o que temos é uma produção coletiva. Cada jornal é pautado nos acontecimentos registrados na edição anterior do concorrente. Os jornalistas não podem deixar de noticiar o que foi noticiado “com sucesso” por seus pares nas outras emissoras e o que já é “sucesso na mídia.”

A crítica é amenizada quando o sociólogo sugere que a manipulação acontece sem que os envolvidos tenham consciência do que estão fazendo. É a “mentalidade-índice-de-audiência”, que atua inconscientemente ao exercer uma forte pressão econômica.  E é neste contexto que o livro aborda a violência simbólica, “que se exerce com a cumplicidade tácita dos que a sofrem e, também, com freqüência, dos que a exercem, na medida em que uns e outros são inconscientes de exercê-la ou de sofrê-la.”

Com tudo isso, a televisão forma fast-thinkers, ou seja, pessoas que pensam por “ideias feitas” e que são aceitas por todos, como dizia Flaubert. Assim, não há o risco de o receptor não entender a mensagem e a comunicação torna-se mais instantânea e vazia,  um verdadeiro fast food cultural ou “alimento cultural pré-digerido, pré-pensado.” Em outras palavras, a televisão dá opiniões prontas ao telespectador.

O campo jornalístico limita a produção cultural ao “selecionar” o que deve ficar em evidência. É por meio dos jornalistas que somos apresentados aos melhores de cada área: os “dez mais” da literatura, da arte, da medicina, entre outros. O único detalhe é que a escolha não é feita por quem domina profundamente o assunto, mas por quem tem apenas uma vaga idéia do que está sendo ilustrado.

Bourdieu ataca igualmente a utilização de falantes obrigatórios e os debates falsos, montados com dois amigos, mas que na televisão vão simular contratempos e idéias contraditórias. Tudo devidamente controlado e roteirizado para não ferir as regras, as técnicas televisivas, os produtores, as normas do canal, os donos, os anunciantes e todos os outros envolvidos neste jogo de entretenimento. São os “bons clientes”, que podem ser sempre convidados porque nunca "vão criar dificuldades, são conciliadores, dominam a oratória, mas sem causar embaraços.”

Quem influencia quem?

Todavia, a proposta do sociólogo francês é fazer emergir o espírito questionador conclamando os leitores para num esforço coletivo proteger a autonomia contra a influência da televisão, o que só é possível por meio da resistência e cumplicidade daqueles que atuam nos meios científicos e intelectuais. Ressalta que, quanto mais um profissional for reconhecido por seus pares, mais ele tende a resistir a pressões da mídia, ao contrário das pessoas pouco consagradas.

Apesar de terem sido levantados há mais de uma década, os temas ainda são atuais. Mesmo com a proliferação de vídeos caseiros e do YouTube, que permitem a “livre expressão” e o acesso às mais diversas informações pela Internet, a televisão continua sendo o mais abrangente meio de comunicação.

Como bem apontou Bourdieu, mesmo que tenha sido noticiado pelos veículos impressos, ou que tenha mais de 1 milhão de visualizações no YouTube, um fato só terá força após a sua aparição na televisão. Fica a pergunta para os jornalistas, em especial os da impressa escrita: vocês devem seguir este modelo dominante e apático ou vão optar pela diferenciação e questionamento verdadeiro, mesmo que tenham que abrir mão de um dia terem seu próprio “talk show” e consequente estrelato?

A grande ironia, ou fatalidade, é que a morte de Pierre Bourdieu, em 2002, foi seguida por homenagens em jornais, revistas e televisão. Era ele quem estava, desta vez, sob os holofotes da mídia, o principal alvo de seus ataques. Seria outra manobra midiática inconsciente?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

mil dias em veneza, mil dias na toscana

Dois mil dias na Itália

Tudo bem que o tema já é conhecido: mulheres que largam tudo para viver uma história diferente e depois escrevem um livro. Tudo bem que há a sensação de clichê quando nos deparamos com contos nos quais “o amor não tem idade”. Tudo bem que descrever lugares turísticos facilita a leitura. Tudo bem que sou vegetariana e não me envolvo com a maioria dos pratos descritos no livro. E tudo bem que as capas são chamativas e os dois livros são, praticamente, o mesmo.

Mas há algo cativante na leitura de Mil Dias em Veneza (2003) e Mil Dias na Toscana (2004). Ambos, que chegaram ao Brasil em 2010, retratam a vida conjugal de Marlena de Blasi e Fernando. O casal se conhece em Veneza durante uma visita de trabalho da mulher. Entre um jantar e outro, decidem se casar. Ela larga um café e uma casa recém-decorada nos Estados Unidos. Ele abre mão da individualidade e das coisasvelhasacumuladas para receber a noiva em seu pequeno apartamento, num bairro considerado anexo de Veneza.

Aos poucos vão aprendendo a lidar com manias, indecisões, estados de euforia e depressão. Mas nada que comprometa o amor e a cumplicidade existente na relação. Gosto muito de ler os passeios de Choe, como Marlena é conhecida, pela romântica cidade italiana. Ela se joga nas embarcações e nos mostra lojas, mercados e uma interessante visão da biblioteca que frequenta.

Entre piqueniques, fornadas de pães, taças de vinhos e muito alecrim, a dupla passa a amar uma vida na qual as informações mais importantes são: o tempo de colheita de cada especiaria, um eminente festival, e uma nova forma de assar a massa. As receitas culinárias no meio da leitura funcionam como anúncios publicitários que não comprometem o enredo e que podem atiçar o paladar (com restrições, no meu caso, aos pratos à base de carne).

Sugiro a leitura da forma que fiz. Comecem com Mil Dias na Toscana, que nas primeiras páginas traz a estrada que tirará o casal da rotina, já estabelecida em Veneza, rumo a um vilarejo calmo, com céu azul, um bar, moradores curiosos, fornos de lenha e muitos capuccinos. Lá pelas tantas, antes do inverno, quando o velho ranzinza e companheiro do casal, Barlozzo, resolve contar sua história, interrompam a leitura e peguem o outro livro.

A narrativa do velho “duque” funciona como pausa para reflexão do que foi o desenvolvimento da trama de Marlena e Fernando. Já em Mil Dias em Veneza, folheamos uma mulher de meia idade com dois filhos “criados”, que se deu bem na profissão e que, aparentemente, desistiu do amor. Do outro lado do restaurante, um veneziano que esperou por um ano até dar o primeiro passo rumo a mudança que o aguardava. Autobiográficos, eles podem ser iguais a outros livros do gênero, como “Comer, Rezar e Amar”, que veio depois. Mas, diferentemente desse, os dois mil dias na Itália trazem a paz e a certeza de que tudo pode ser resolvido com um bom prato à mesa. Sempre, e não apenas no começo de uma história.

noites brancas

Por oito anos ele vagava pela cidade. Observava tudo e ao mesmo tempo não via nada. Sem nome, sem origem, sem destino. Apenas a imaginação o fazia viver. Criava para si histórias que alimentava diariamente. Lá, existiam problemas, conflitos, amor, reconciliação e a emoção que não fazia parte da sua vida real, reduzida a paredes verdes desbotadas.

Numa bela noite clara, acorda e percebe que todos estão fugindo. Ele não foi comunicado e parece não ser bem-vindo ao novo cenário. Sem entender o que acontece, encontra uma moça que chora. A aproximação é dolorida como todas as hesitações que nos atormentam. Cheia de devaneios, ela também mostra-se sonhadora. Mas o que diferencia Nástienka do personagem sem identidade são os momentos de objetividade. De um encontro quase casual, surge uma poética amizade que só tem lugar às 22 horas. Aos sonhadores, qualquer laço onírico dentro da realidade pode ser suficiente para perturbar e confundir.

Solidão e fantasia. Este é o mote da obra Noites Brancas de Dostoiévski, escrita em 1848. O título é uma referência às “noites” de verão em São Petersburgo, nas quais não há pôr do sol e o dia se mistura com a noite.

A leitura pede certa despretensão. E será facilmente compreendida por aqueles que insistem em fantasiar instantes que nunca foram vividos. Faz lembrar uma obra impressionista, onde quase vemos o que quase nos é apresentado.

“Sou um sonhador; a minha vida real tão reduzida que momentos como estes que agora vivo são para mim de tal modo preciosos que não poderei evitar de os reproduzir nos meus sonhos.”