terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

como se faz uma tese

Todo estudante depara-se, em algum momento de sua vida acadêmica, com os famosos TCC´s, TGI´s e outras siglas que, na verdade, representam o famoso trabalho de conclusão de curso de graduação, pós-graduação ou mesmo MBA. Dissertação para o mestrado e tese para o doutorado.

Embora seja algo imposto, em especial para os graduandos (para os demais, espera-se que seja a razão de ser), também pode ser prazeroso. Basta pesquisar o que gosta. Essa é uma das observações feitas pelo italiano Umberto Eco, escritor e teórico em comunicação, em seu livro “Como se faz uma tese”.

Trata-se de um guia passo a passo para quem pensa ou tem que elaborar uma tese ou dissertação. Apesar de ele ser, por vezes, muito focado na realidade das universidades italianas dos anos 70, época em que foi escrito, não deixa de ser atemporal. E muitas regras e normas descritas são válidas, ainda hoje, para nós.

Convicção

Durante todo o seu discurso, Umberto Eco deixa prevalecer o orgulho científico, ou seja, a certeza de que ele fala com propriedade sobre o assunto que se propôs a investigar, mesmo que em determinados momentos surjam vozes que o conteste.

Aliás, uma de suas primeiras sugestões é deixar a modéstia de lado quando for falar sobre o trabalho que está desenvolvendo. Nunca diga: “Não estamos à altura de afrontar tal assunto, mas arriscaremos a hipótese...” A despretensão e o sentimento de inferioridade é algo que abomina. A ponto de gritar:

“Como não está à altura? Dedicou-se meses, às vezes anos, ao tema escolhido, leu talvez tudo o que era preciso ler sobre ele, meditou, tomou notas, e vem agora com essa conversa de não estar à altura? Mas que diabo esteve fazendo todo esse tempo? Se não se sentia qualificado, não apresentasse a tese.”

Assim, embasado em sua vasta experiência como acadêmico, Eco nos apresenta, com dose de humor e ironia (afinal, é preciso encontrar prazer naquilo que fazemos), tópicos que considera essenciais para o desenvolvimento de uma boa dissertação.

Tema

 “Cada um faz aquilo que lhe agrada.” O tema deve responder aos interesses do aluno/pesquisador, o que pode incluir sua atitude política, cultural ou religiosa.  Mais que difundir um pensamento ou defender uma causa, “uma tese serve, sobretudo, para ensinar a coordenar ideias, independentemente do tema tratado.” É o início da vida acadêmica e científica. Em outras palavras, as metodologias e as regras da ABTN, por exemplo, servem para ensinar o aluno a pesquisar, a investigar um assunto. Se bem aproveitada, a experiência pode trazer muito lucros, mesmo para quem não almeja por uma vida acadêmica.

Para começar

Escrever o título, a introdução e o índice. “Redigir logo o índice como hipótese de trabalho serve para definir o âmbito da tese.”

Vale lembrar que estes itens serão “continuamente reescritos”. O que é natural, caso contrário ficaria evidente que toda pesquisa que se segue não traz nenhuma novidade.

“O que distinguirá a primeira e a última redação da introdução? O fato de, na última você prometer muito menos que na primeira, mostrando-se bem mais cauteloso. O objetivo da introdução definitiva será ajudar o leitor a penetrar na tese: mas nada de prometer o que depois você será incapaz de cumprir. O ideal de uma boa introdução definitiva é que o leitor se contente com ela, entenda tudo e não leia o resto.”

Fontes

As fontes de pesquisa devem ser acessíveis. Ao alcance do candidato, dentro do seu contexto cultural.

Sempre que possível, recorra aos textos originais. Tradução não é fonte. “É uma prótese, como a dentadura ou os óculos, um meio de atingir de forma limitada algo que se acha fora de alcance.”

A orientação é que se conheça a língua sobre a qual se irá discorrer, principalmente a língua do autor do qual vamos tratar. É praticamente impossível fazer uma tese se não compreendemos a língua na qual a grande maioria das obras que precisamos foram escritas.

“Geralmente se aproveita a oportunidade da tese para começar o aprendizado de uma língua estrangeira.”

Antologia não é fonte. “É uma apanhado de fontes. Úteis apenas como referência num primeiro momento.”

Resenhas também não são fontes, mesmo que completas.

Em pesquisas históricas que exigem consultas a atas, documentos ou manuscritos é sempre importante recorrer a fontes de primeira mão: a edição original.

“A única coisa que não deverão fazer é citar uma fonte de segunda mão fingindo ter visto o original. E isto não apenas por razões de ética profissional: imaginem o que aconteceria se alguém lhe perguntasse como conseguiram consultar diretamente o tal manuscrito, quando todos sabem que o mesmo foi destruído em 1944.”

“O problema, quando se recorre a fontes de segunda mão (declarando-o), é controlar sua multiplicidade e averiguar se uma dada citação ou menção de um fato são confirmadas por diferentes autores. De outro modo, é preciso ter cuidado: ou se descarta aquele fato ou recorre aos originais.”

Se a tese obriga o estudante a consultar livros inacessíveis, sem que seja possível fotocopiá-los ou transcrevê-los “em cadernos em mais cadernos, a tese não serve para você.”

Quanto tempo é requerido para se fazer uma tese?

Entre seis meses e três anos é a resposta do autor. Uma tese que ultrapasse esse período apontará que o estudioso não foi hábil o bastante para ater-se a certos limites. Não adianta partir do princípio que podemos abordar tudo no trabalho.

Por outro lado, precisamos ter um tempo para nos certificarmos se estamos no caminho correto, se o orientador é o ideal, se as disciplinas que cursamos são as mais indicadas. “Uma escolha tão tempestiva não é nem comprometedora nem irremediável.”

Uma tese de seis meses também é possível, desde que o tema seja circunscrito, atual e que todos os documentos estejam num local de fácil consulta. Agora, “se quiser fazer uma tese de seis meses gastando apenas uma hora por dia, então é inútil continuar a discutir.” O conselho é “copiem uma tese qualquer e pronto.”

Tese científica ou tese política

Deixem de lado este dilema, que é falso.

“É possível conduzir de modo científico uma tese que outros definiriam, quanto ao tema, como puramente ‘jornalística’. E é possível conduzir de modo puramente jornalístico uma tese que, a julgar pelo título, teria todos os atributos para parecer científica.”

Há estudantes que acreditam que vão trair seus interesses políticos ao se debruçarem sobre uma tese acadêmica. Está aí uma excelente oportunidade para que ele aprimore seus conhecimentos sobre a causa que defende. O conselho é que não faça de sua tese um relato de suas experiências, mas que aproveite a dissertação para investigar fatos históricos, teóricos e técnicos.

O importante é que o estudo fale algo de determinado objeto que ainda não foi debatido ou que apresente sob nova ótica o que outros já fizeram. Mesmo um trabalho de compilação só será útil se ainda não existir nada parecido.

“Um trabalho matematicamente exato visando demonstrar com métodos tradicionais o teorema de Pitágoras não seria científico, uma vez que nada acrescentaria ao que já sabemos. Tratar-se-ia, no máximo, de um bom trabalho de divulgação, como um manual que ensinasse a construir uma casinha de cachorro usando madeira, pregos, serrote e martelo.”

“Um trabalho é científico se acrescenta algo que a comunidade já sabia, e se todos os futuros trabalhos sobre o mesmo tema tiverem que levá-lo em conta, ao menos em teoria.”

Também é importante que o trabalho forneça elementos para uma possível verificação e contestação das hipóteses apresentadas. De nada adianta falar sobre XYZ se ninguém, posteriormente, conseguirá localizar este objeto.

Pesquisas

Cuidado com pesquisas. Principalmente com “entrevistas” que não preenchem os requisitos de verificabilidade, e que no fim fornecem resultados óbvios que “poderiam muito bem ser imaginados sem necessidade de pesquisa alguma.”

“Nada mais fácil que prever, numa mesa de botequim, que entre doze pessoas a maioria prefere assistir a uma partida de futebol em transmissão direta. Portanto, apresentar uma pesquisa de trinta páginas para chegar a esse brilhante resultado é uma palhaçada. É, além do mais, um auto-engano para o estudante, que acredita ter obtido dados ‘objetivos’ quando apenas comprovou, de maneira aproximada, suas próprias opiniões.”

É fácil solucionar este equívoco:

- analise estudos sérios sobre temas afins.

- não comece um trabalho de pesquisa social sem ter tido alguma experiência ou pelo menos ter acompanhado a atividade de um grupo.

- procure conhecer a metodologia da pesquisa que vai realizar, desde a coleta de dados até a análise.

- não tente fazer o trabalho em poucas semanas.

Em que ordem ler os livros

Vindo de um estudante desorientado, é uma pergunta que faz sentido.

“A resposta mais sensata me parece esta: abordar em primeiro lugar dois ou três textos críticos dos mais gerais, o suficiente para formar uma ideia do terreno onde está se movendo, passar depois ao autor original, procurando entender algo do que ele diz, a seguir examinar o resto da literatura crítica, por fim, voltar ao autor original e reexaminá-lo à luz das novas ideias adquiridas.”

No mais, cada um segue seu ritmo e ordem de interesse. Mesmo porque os objetivos vão sendo alterados e alternados no decorrer da pesquisa. Mas ressalta que é imperioso ter uma “rigorosa rede de anotações pessoais, possivelmente sob a forma de fichas.”

As leituras também vão depender, ainda, se a pessoa é monocrônica (não consegue fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo) ou policrônica (só trabalha bem quando faz várias coisas juntas).

Fichamento

Umberto Eco abre seus próprios fichários para nos ensinar como devemos nos organizar. Um bom fichamento deve conter: informações sobre o autor, resumo do livro, citações, comentários pessoais, muitas cores e siglas para identificar os assuntos inerentes à dissertação.

“Quanto melhor elaborado for o fichário, mais um arquivo bibliográfico poderá ser conservado e integrado por pesquisas posteriores, ou emprestado (ou mesmo vendido): razões de sobra para elaborá-lo bem e de forma legível.”

Em complemento, acredita que sublinhar personaliza o livro, indicando o interesse do leitor, além de facilitar a compilação das informações.

“Se o livro for seu e não tiver valor de antiguidade, não hesite em anotá-lo. Não dê crédito àqueles que dizem que os livros são intocáveis. Maior respeito é usá-lo, não em pô-lo de lado. Mesmo se você os vender a um sebo, não obterá mais que alguns tostões, pouco importando se deixou nele ou não o sinal de sua posse.”

Humildade científica

Todos podem ensinar-nos alguma coisa. Umberto Eco dá um exemplo pessoal. Num certo momento de uma de suas pesquisas se deparou com a obra de um autor desconhecido, Abade Vallet. Resolve adquiri-lo, mas ao começar a leitura percebe que o “pobre diabo”, apenas se limitava a repetir o que já havia sido dito sobre determinado assunto. Continuou a lê-lo para fazer valer o seu investimento. Até que, lá pelas tantas, encontrou uma resposta que precisava para sua tese: a relação entre a teoria do juízo de São Tomás de Aquino e a Beleza.

Redação

Uma boa redação é seguida da pergunta: “a quem minha tese se destina?” Isto é, precisamos estabelecer como ela será exposta e qual o nível de clareza que terá. Neste ponto, nada de partir da ideia de que quanto mais difícil e técnico o texto utilizado na redação, mais acadêmico ele será.

“Eliminemos desde já um equívoco. Há quem pense que um texto de divulgação onde as coisas são explicadas de modo a que todos compreendam requer menos habilidade que uma comunicação científica especializada, às vezes expressa por fórmulas apenas acessíveis a uns bons iniciados. Isso do modo nenhum é verdade.”

“Em geral, os textos que não explicam com grande familiaridade os termos que empregam deixam a suspeita de que seus atores são muito mais inseguros do que aqueles que explicitam cada referência e cada passagem. Se você ler os grandes cientistas ou os grandes críticos, verá que, com raríssimas exceções, eles são sempre claros e não se envergonham de explicar bem as coisas.”

Tirando o que é óbvio, como a definição de filosofia numa tese de filosofia, é preciso começar o trabalho explicando os termos usados, “a menos que se trate de termos consagrados e indiscutíveis pela disciplina em causa.”

Dicas para uma boa redação: treinar sempre. Escreva o que vier à cabeça, mas apenas em rascunho, depois é só eliminar as divagações. Use o orientador como cobaia. Comece pelo capítulo que se sentir mais à vontade. Não use reticências ou pontos de exclamação, nem faça ironias. E abra parágrafos com freqüência.

“Não imite Proust. Nada de períodos longos. Se ocorrerem, registre-os, mas depois desmembre-os. Não receie repetir duas vezes o sujeito. Elimine o excesso de pronomes e subordinadas.”

Eco também faz um apelo aos poetas de plantão. Uma tese não é uma poesia de vanguarda, mesmo que este seja o tema.

 “Ao falar do estilo dos futuristas, evite escrever como um deles. Este é uma recomendação importante, pois hoje em dia muita gente se mete a fazer teses de ‘ruptura’, onde não se respeitam as regras do discurso crítico. A linguagem da tese é uma metalinguagem, isto é, uma linguagem que fale de outras linguagens. Um psiquiatra que descreve doentes mentais não se exprime como os doentes mentais.”

Citações e notas de rodapé

As citações devem ser utilizadas em duas ocasiões: depois de um texto interpretado e em apoio à interpretação.

“É difícil dizer se se deve citar com profusão ou com parcimônia. Depende do tipo de tese. Uma análise crítica de um escritor requer, obviamente, que se transcrevam e analisem longos trechos de sua obra. Outras vezes, a citação pode ser uma manifestação de preguiça. O candidato não quer ou não é capaz de resumir uma determinada série de dados e deixa a tarefa aos cuidados de outrem.”

Já em relação às notas, é categórico: “não apenas as teses, mas também os livros com muitas notas, denunciam um esnobismo erudito e, com frequência, uma tentativa de lançar fumaça nos olhos do leitor.”

Era da datilografia

O livro é fechado com um capítulo inteiro datilografado para que os leitores da década de 70 pudessem ter uma amostra real de como uma redação dever ser finalizada. Com suas margens, espaçamentos, parágrafos, aspas, pontuação, truques para inserção de notas que faltaram.

Felizmente, é um capítulo dispensável nos dias de hoje: era do computador e do Word. Com certeza, nos livramos de um grande infortúnio.

E aqui vai um recado do autor para todos que consideram as regras muito rígidas:

“Para violar regras ou opor-se a elas importa antes de tudo conhecê-las e, eventualmente, saber mostrar sua inconsistência ou função meramente repressiva. Antes de afirmar que não é necessário sublinhar o título de um livro, é mister saber se se sublinha e por que se sublinha.”

No mais, “fazer uma tese significa divertir-se.”  Então, mãos à obra.

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