quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

é do kiko!

Noite de junho de 2000. Estava diante do computador navegando pela Internet. Foi quando ouvi o choro de um filhote de cachorro. Não sei por que, mas fui para a calçada ver de onde vinha o ruído. Na época ainda morava com meus pais. Minha irmã me acompanhou. Subimos a rua e fomos em direção à avenida. O choro começou a ficar mais próximo. Vimos, então, um cachorrinho preto com manchas brancas no pescoço e peito, orelhas em pé, incansável. Deveria ter no máximo uns dois meses. Estava correndo de um lado para o outro. Andamos em sua direção. Ele parou, olhou para nós e quando nos aproximamos, começou a correr. Corremos também. Ele parou novamente e continuou a nos olhar. Parecia que queria brincar. Decidimos que seríamos amigos. Ele foi para casa conosco. Chegamos dizendo: “olhem o que achamos!”  “Mais um!”, foi o comentário da dona Tamiko. Mas não houve recusa. Todos se encantaram com o carisma do bichinho.

Na época, tínhamos três cachorros. O Goober, 5 anos. O Oliver, 3 anos. E a Tuti, 9 anos. A família era grande. Mas ainda cabia mais um: o Kiko, que se integrou rapidamente com a turma.  


Kikinho

Ele brincava. Corria. E chorava. Chorava a noite inteira quando ficava sozinho. Mesmo dormindo na sala, quando as luzes se apagavam, não dava sossego.

Lembro do Kiko brincando com o Goober. Eu dizia: “Gugu, pega ele! Pega ele!” E o Gugu saia correndo atrás do Kiko. Rodavam a mesa da cozinha. Passavam pelas cadeiras. Iam para os quartos. Não paravam. Isso aconteceu diariamente por uns seis meses. Pois, logo, o Kiko cresceu. E cresceu. E cresceu. Como ele estava na rua e aparentemente subnutrido, o veterinário receitou várias vitaminas e remédios para os ossos. Como diria minha irmã quando era criança, “ele cresceu grandão!” 


Renata e Kiko

Ficou o maior da turma. E não sei o que fizemos de errado, porque algo foi feito com certeza, mas o Gugu, que era o melhor amigo do ex-filhote, virou seu inimigo. Tanto que tivemos que separá-los. Cada um ficou numa ala diferente da casa. E quando, eventualmente, se encontram, a briga era certa. Quando vê o Goober, o Kiko se transforma, o pelo fica arrepiado, os dentes expostos. Foram vários confrontos, que chegavam a tirar o nosso sono. O último acabou com o Goober, três vezes menor, no veterinário com vários furos, orelha mordida e todo enfaixado. Por sorte, muito cuidado e muita preocupação, esses encontros violentos nunca mais ocorreram. Há três anos, o Kiko fica na casa da minha tia, bem ao lado da nossa casa. Foi triste levá-lo para lá, mas foi preciso para evitar um desastre maior. Principalmente porque o Kiko acabou se desentendendo com todos os outros cachorros, à exceção da Tuti. Ele queria o carinho só para ele.

Meu pai idolatrava o Kiko. Infelizmente, o acompanhou por um ano apenas, pois faleceu em 2001. Orgulhava-se em ver o cachorro se desenvolvendo e falava para todos que tinha um cachorro grande, forte e muito bravo. Na verdade, o Kiko não é bravo. Apenas não gosta muito de estranhos (e do Goober). Mas conosco é um doce. O mais meigo de todos. Sempre atencioso, não é afoito na hora da comida como os outros. Ouve atenciosamente o que falamos. Se falamos, “isso não é do Kiko”, ele respeita. Mesmo que seja sua comida preferida. De vez em quando e por brincadeira, cometemos um ato cruel.  Chegamos com petiscos que ele gosta e falamos “não é do Kiko”. Colocamos a comida no chão e ele não pega! Dá dó mas é engraçado. Rapidamente, consertamos. “Sim! É do Kiko!” Ele sorri (sim, cachorro sorri), pega o alimento e corre para a casinha de madeira. Dá cinco segundos e volta mostrando o petisco na boca.

Quando morava na minha mãe, todos os dias ao acordar eu abria a janela do meu quarto para cumprimentá-lo. Ele ficava em pé do outro lado, apoiado na parede, olhos caídos, preguiçoso e esperando o carinho no pescoço. Era um ritual. Acredito que ele sinta falta disso desde que me mudei.

Ele reconhece o barulho do meu carro. Toda vez que paro em frente à casa, ele vem correndo. Quando percebo que por um motivo ou outro ele não ouviu, o que é bem raro, dou ré e volto para fazer mais barulho. É batata! Lá vem o cachorro ao meu encontro, abanando o rabo, orelhas para trás, dando risada. É lindo.

Chego perto dele e falo: “faz cachorrinho!” É um código nosso. Quando digo isso, ele se agacha e fica esfregando o focinho de um lado para outro entre as patas dianteiras. O traseiro fica sempre para cima. É exatamente o que ele fazia quando era filhote.

Depois peço: “dá a pata”. Daí ele senta e dá a patinha. Falo: “a outra”. Ele olha para mim querendo dizer: “vou cair”. Olha para os lados, dá um impulso e coloca as duas patas na minha mão. Isso foi ensinado pelo meu irmão, que também o ensinou a andar na rua de forma sociável. Antes, poderia dar muita confusão. Aliás, no caso do meu irmão, o esperado é o  passeio. Vê meu irmão e já quer ir para a rua.

E vem a terceira parte. “Vou pegar do Kiko!” Ele corre em direção à casinha que fica no fundo da casa. O intuito é proteger vasilhas com ração ou algum outro petisco que esteja com ele. Pronto. Mais um delicioso ritual cumprido. E a minha alegria é maior quando ele desanda a correr, ou melhor, a galopar pelo quintal. Cachorro forte. Corpo musculoso. Pelo com muito brilho e sempre, sempre amoroso.

Hoje o Kiko está com 11 anos e há dois meses sofre com problemas no fígado. Foram várias visitas ao veterinário e inúmeros exames. Mas o diagnóstico não é favorável. E a cada dia vemos ele perder um pouco do seu brilho, entusiasmo e apetite. Sempre olho o nariz dos cachorros para saber se estão bem. Algum dia me disseram que quando o nariz está seco é porque o bicho está doente. Até uma semana atrás, o nariz do Kiko estava bem úmido. Estive há poucas horas com ele e está seco. É muito triste vê-lo emagrecer.

O que vejo agora é um cachorro triste que se esforça para parecer bem. Ele não come sozinho. Minha mãe bate a comida dele no liquidificador e força a alimentação. Caso contrário, ele ficaria ainda mais fraco. Minha irmã fez um cronograma dos horários para os mais de cinco remédios. O pior é que não pode tomar muita água pois ela se acumula na barriga. Para tirá-la, mais um procedimento dolorido. Mas ele tem muita sede. Logo ele que não parava de beber água. E tinha que ser do jeito dele. O pote cheio até a boca, para que não tivesse muito esforço. Apenas apoiava o focinho no pote e lambia. E lá tinha que ir alguém voltar a encher seu “copo”. Foi minha prima Cristiana que identificou essa particularidade.


A única coisa que ele come são os petiscos que levo quando vou visitá-lo. Minha mãe fala que é só para mostrar que de uma forma ou de outra está bem. Ou quem sabe para cultivar o pouco do Kikão, como meu irmão o chama, de antes. “Sim! É do Kiko!”

Kikão

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

como se faz uma tese

Todo estudante depara-se, em algum momento de sua vida acadêmica, com os famosos TCC´s, TGI´s e outras siglas que, na verdade, representam o famoso trabalho de conclusão de curso de graduação, pós-graduação ou mesmo MBA. Dissertação para o mestrado e tese para o doutorado.

Embora seja algo imposto, em especial para os graduandos (para os demais, espera-se que seja a razão de ser), também pode ser prazeroso. Basta pesquisar o que gosta. Essa é uma das observações feitas pelo italiano Umberto Eco, escritor e teórico em comunicação, em seu livro “Como se faz uma tese”.

Trata-se de um guia passo a passo para quem pensa ou tem que elaborar uma tese ou dissertação. Apesar de ele ser, por vezes, muito focado na realidade das universidades italianas dos anos 70, época em que foi escrito, não deixa de ser atemporal. E muitas regras e normas descritas são válidas, ainda hoje, para nós.

Convicção

Durante todo o seu discurso, Umberto Eco deixa prevalecer o orgulho científico, ou seja, a certeza de que ele fala com propriedade sobre o assunto que se propôs a investigar, mesmo que em determinados momentos surjam vozes que o conteste.

Aliás, uma de suas primeiras sugestões é deixar a modéstia de lado quando for falar sobre o trabalho que está desenvolvendo. Nunca diga: “Não estamos à altura de afrontar tal assunto, mas arriscaremos a hipótese...” A despretensão e o sentimento de inferioridade é algo que abomina. A ponto de gritar:

“Como não está à altura? Dedicou-se meses, às vezes anos, ao tema escolhido, leu talvez tudo o que era preciso ler sobre ele, meditou, tomou notas, e vem agora com essa conversa de não estar à altura? Mas que diabo esteve fazendo todo esse tempo? Se não se sentia qualificado, não apresentasse a tese.”

Assim, embasado em sua vasta experiência como acadêmico, Eco nos apresenta, com dose de humor e ironia (afinal, é preciso encontrar prazer naquilo que fazemos), tópicos que considera essenciais para o desenvolvimento de uma boa dissertação.

Tema

 “Cada um faz aquilo que lhe agrada.” O tema deve responder aos interesses do aluno/pesquisador, o que pode incluir sua atitude política, cultural ou religiosa.  Mais que difundir um pensamento ou defender uma causa, “uma tese serve, sobretudo, para ensinar a coordenar ideias, independentemente do tema tratado.” É o início da vida acadêmica e científica. Em outras palavras, as metodologias e as regras da ABTN, por exemplo, servem para ensinar o aluno a pesquisar, a investigar um assunto. Se bem aproveitada, a experiência pode trazer muito lucros, mesmo para quem não almeja por uma vida acadêmica.

Para começar

Escrever o título, a introdução e o índice. “Redigir logo o índice como hipótese de trabalho serve para definir o âmbito da tese.”

Vale lembrar que estes itens serão “continuamente reescritos”. O que é natural, caso contrário ficaria evidente que toda pesquisa que se segue não traz nenhuma novidade.

“O que distinguirá a primeira e a última redação da introdução? O fato de, na última você prometer muito menos que na primeira, mostrando-se bem mais cauteloso. O objetivo da introdução definitiva será ajudar o leitor a penetrar na tese: mas nada de prometer o que depois você será incapaz de cumprir. O ideal de uma boa introdução definitiva é que o leitor se contente com ela, entenda tudo e não leia o resto.”

Fontes

As fontes de pesquisa devem ser acessíveis. Ao alcance do candidato, dentro do seu contexto cultural.

Sempre que possível, recorra aos textos originais. Tradução não é fonte. “É uma prótese, como a dentadura ou os óculos, um meio de atingir de forma limitada algo que se acha fora de alcance.”

A orientação é que se conheça a língua sobre a qual se irá discorrer, principalmente a língua do autor do qual vamos tratar. É praticamente impossível fazer uma tese se não compreendemos a língua na qual a grande maioria das obras que precisamos foram escritas.

“Geralmente se aproveita a oportunidade da tese para começar o aprendizado de uma língua estrangeira.”

Antologia não é fonte. “É uma apanhado de fontes. Úteis apenas como referência num primeiro momento.”

Resenhas também não são fontes, mesmo que completas.

Em pesquisas históricas que exigem consultas a atas, documentos ou manuscritos é sempre importante recorrer a fontes de primeira mão: a edição original.

“A única coisa que não deverão fazer é citar uma fonte de segunda mão fingindo ter visto o original. E isto não apenas por razões de ética profissional: imaginem o que aconteceria se alguém lhe perguntasse como conseguiram consultar diretamente o tal manuscrito, quando todos sabem que o mesmo foi destruído em 1944.”

“O problema, quando se recorre a fontes de segunda mão (declarando-o), é controlar sua multiplicidade e averiguar se uma dada citação ou menção de um fato são confirmadas por diferentes autores. De outro modo, é preciso ter cuidado: ou se descarta aquele fato ou recorre aos originais.”

Se a tese obriga o estudante a consultar livros inacessíveis, sem que seja possível fotocopiá-los ou transcrevê-los “em cadernos em mais cadernos, a tese não serve para você.”

Quanto tempo é requerido para se fazer uma tese?

Entre seis meses e três anos é a resposta do autor. Uma tese que ultrapasse esse período apontará que o estudioso não foi hábil o bastante para ater-se a certos limites. Não adianta partir do princípio que podemos abordar tudo no trabalho.

Por outro lado, precisamos ter um tempo para nos certificarmos se estamos no caminho correto, se o orientador é o ideal, se as disciplinas que cursamos são as mais indicadas. “Uma escolha tão tempestiva não é nem comprometedora nem irremediável.”

Uma tese de seis meses também é possível, desde que o tema seja circunscrito, atual e que todos os documentos estejam num local de fácil consulta. Agora, “se quiser fazer uma tese de seis meses gastando apenas uma hora por dia, então é inútil continuar a discutir.” O conselho é “copiem uma tese qualquer e pronto.”

Tese científica ou tese política

Deixem de lado este dilema, que é falso.

“É possível conduzir de modo científico uma tese que outros definiriam, quanto ao tema, como puramente ‘jornalística’. E é possível conduzir de modo puramente jornalístico uma tese que, a julgar pelo título, teria todos os atributos para parecer científica.”

Há estudantes que acreditam que vão trair seus interesses políticos ao se debruçarem sobre uma tese acadêmica. Está aí uma excelente oportunidade para que ele aprimore seus conhecimentos sobre a causa que defende. O conselho é que não faça de sua tese um relato de suas experiências, mas que aproveite a dissertação para investigar fatos históricos, teóricos e técnicos.

O importante é que o estudo fale algo de determinado objeto que ainda não foi debatido ou que apresente sob nova ótica o que outros já fizeram. Mesmo um trabalho de compilação só será útil se ainda não existir nada parecido.

“Um trabalho matematicamente exato visando demonstrar com métodos tradicionais o teorema de Pitágoras não seria científico, uma vez que nada acrescentaria ao que já sabemos. Tratar-se-ia, no máximo, de um bom trabalho de divulgação, como um manual que ensinasse a construir uma casinha de cachorro usando madeira, pregos, serrote e martelo.”

“Um trabalho é científico se acrescenta algo que a comunidade já sabia, e se todos os futuros trabalhos sobre o mesmo tema tiverem que levá-lo em conta, ao menos em teoria.”

Também é importante que o trabalho forneça elementos para uma possível verificação e contestação das hipóteses apresentadas. De nada adianta falar sobre XYZ se ninguém, posteriormente, conseguirá localizar este objeto.

Pesquisas

Cuidado com pesquisas. Principalmente com “entrevistas” que não preenchem os requisitos de verificabilidade, e que no fim fornecem resultados óbvios que “poderiam muito bem ser imaginados sem necessidade de pesquisa alguma.”

“Nada mais fácil que prever, numa mesa de botequim, que entre doze pessoas a maioria prefere assistir a uma partida de futebol em transmissão direta. Portanto, apresentar uma pesquisa de trinta páginas para chegar a esse brilhante resultado é uma palhaçada. É, além do mais, um auto-engano para o estudante, que acredita ter obtido dados ‘objetivos’ quando apenas comprovou, de maneira aproximada, suas próprias opiniões.”

É fácil solucionar este equívoco:

- analise estudos sérios sobre temas afins.

- não comece um trabalho de pesquisa social sem ter tido alguma experiência ou pelo menos ter acompanhado a atividade de um grupo.

- procure conhecer a metodologia da pesquisa que vai realizar, desde a coleta de dados até a análise.

- não tente fazer o trabalho em poucas semanas.

Em que ordem ler os livros

Vindo de um estudante desorientado, é uma pergunta que faz sentido.

“A resposta mais sensata me parece esta: abordar em primeiro lugar dois ou três textos críticos dos mais gerais, o suficiente para formar uma ideia do terreno onde está se movendo, passar depois ao autor original, procurando entender algo do que ele diz, a seguir examinar o resto da literatura crítica, por fim, voltar ao autor original e reexaminá-lo à luz das novas ideias adquiridas.”

No mais, cada um segue seu ritmo e ordem de interesse. Mesmo porque os objetivos vão sendo alterados e alternados no decorrer da pesquisa. Mas ressalta que é imperioso ter uma “rigorosa rede de anotações pessoais, possivelmente sob a forma de fichas.”

As leituras também vão depender, ainda, se a pessoa é monocrônica (não consegue fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo) ou policrônica (só trabalha bem quando faz várias coisas juntas).

Fichamento

Umberto Eco abre seus próprios fichários para nos ensinar como devemos nos organizar. Um bom fichamento deve conter: informações sobre o autor, resumo do livro, citações, comentários pessoais, muitas cores e siglas para identificar os assuntos inerentes à dissertação.

“Quanto melhor elaborado for o fichário, mais um arquivo bibliográfico poderá ser conservado e integrado por pesquisas posteriores, ou emprestado (ou mesmo vendido): razões de sobra para elaborá-lo bem e de forma legível.”

Em complemento, acredita que sublinhar personaliza o livro, indicando o interesse do leitor, além de facilitar a compilação das informações.

“Se o livro for seu e não tiver valor de antiguidade, não hesite em anotá-lo. Não dê crédito àqueles que dizem que os livros são intocáveis. Maior respeito é usá-lo, não em pô-lo de lado. Mesmo se você os vender a um sebo, não obterá mais que alguns tostões, pouco importando se deixou nele ou não o sinal de sua posse.”

Humildade científica

Todos podem ensinar-nos alguma coisa. Umberto Eco dá um exemplo pessoal. Num certo momento de uma de suas pesquisas se deparou com a obra de um autor desconhecido, Abade Vallet. Resolve adquiri-lo, mas ao começar a leitura percebe que o “pobre diabo”, apenas se limitava a repetir o que já havia sido dito sobre determinado assunto. Continuou a lê-lo para fazer valer o seu investimento. Até que, lá pelas tantas, encontrou uma resposta que precisava para sua tese: a relação entre a teoria do juízo de São Tomás de Aquino e a Beleza.

Redação

Uma boa redação é seguida da pergunta: “a quem minha tese se destina?” Isto é, precisamos estabelecer como ela será exposta e qual o nível de clareza que terá. Neste ponto, nada de partir da ideia de que quanto mais difícil e técnico o texto utilizado na redação, mais acadêmico ele será.

“Eliminemos desde já um equívoco. Há quem pense que um texto de divulgação onde as coisas são explicadas de modo a que todos compreendam requer menos habilidade que uma comunicação científica especializada, às vezes expressa por fórmulas apenas acessíveis a uns bons iniciados. Isso do modo nenhum é verdade.”

“Em geral, os textos que não explicam com grande familiaridade os termos que empregam deixam a suspeita de que seus atores são muito mais inseguros do que aqueles que explicitam cada referência e cada passagem. Se você ler os grandes cientistas ou os grandes críticos, verá que, com raríssimas exceções, eles são sempre claros e não se envergonham de explicar bem as coisas.”

Tirando o que é óbvio, como a definição de filosofia numa tese de filosofia, é preciso começar o trabalho explicando os termos usados, “a menos que se trate de termos consagrados e indiscutíveis pela disciplina em causa.”

Dicas para uma boa redação: treinar sempre. Escreva o que vier à cabeça, mas apenas em rascunho, depois é só eliminar as divagações. Use o orientador como cobaia. Comece pelo capítulo que se sentir mais à vontade. Não use reticências ou pontos de exclamação, nem faça ironias. E abra parágrafos com freqüência.

“Não imite Proust. Nada de períodos longos. Se ocorrerem, registre-os, mas depois desmembre-os. Não receie repetir duas vezes o sujeito. Elimine o excesso de pronomes e subordinadas.”

Eco também faz um apelo aos poetas de plantão. Uma tese não é uma poesia de vanguarda, mesmo que este seja o tema.

 “Ao falar do estilo dos futuristas, evite escrever como um deles. Este é uma recomendação importante, pois hoje em dia muita gente se mete a fazer teses de ‘ruptura’, onde não se respeitam as regras do discurso crítico. A linguagem da tese é uma metalinguagem, isto é, uma linguagem que fale de outras linguagens. Um psiquiatra que descreve doentes mentais não se exprime como os doentes mentais.”

Citações e notas de rodapé

As citações devem ser utilizadas em duas ocasiões: depois de um texto interpretado e em apoio à interpretação.

“É difícil dizer se se deve citar com profusão ou com parcimônia. Depende do tipo de tese. Uma análise crítica de um escritor requer, obviamente, que se transcrevam e analisem longos trechos de sua obra. Outras vezes, a citação pode ser uma manifestação de preguiça. O candidato não quer ou não é capaz de resumir uma determinada série de dados e deixa a tarefa aos cuidados de outrem.”

Já em relação às notas, é categórico: “não apenas as teses, mas também os livros com muitas notas, denunciam um esnobismo erudito e, com frequência, uma tentativa de lançar fumaça nos olhos do leitor.”

Era da datilografia

O livro é fechado com um capítulo inteiro datilografado para que os leitores da década de 70 pudessem ter uma amostra real de como uma redação dever ser finalizada. Com suas margens, espaçamentos, parágrafos, aspas, pontuação, truques para inserção de notas que faltaram.

Felizmente, é um capítulo dispensável nos dias de hoje: era do computador e do Word. Com certeza, nos livramos de um grande infortúnio.

E aqui vai um recado do autor para todos que consideram as regras muito rígidas:

“Para violar regras ou opor-se a elas importa antes de tudo conhecê-las e, eventualmente, saber mostrar sua inconsistência ou função meramente repressiva. Antes de afirmar que não é necessário sublinhar o título de um livro, é mister saber se se sublinha e por que se sublinha.”

No mais, “fazer uma tese significa divertir-se.”  Então, mãos à obra.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

no meio de indianos, brasileira eu não sou

Quietinha. Do jeito que mandaram ela ficar. Lá estava Mariana Botega no setor VIP do estádio Salt Lake, em Calcutá, Índia. Final do Torneio IFA Shield, no qual o Palmeiras enfrentaria uma equipe indiana. Nas mãos, uma dúzia de câmeras que traziam o recado "filma tudo". O que não imaginava é que registraria muito mais que uma partida de futebol. Estava a pouco mais de trinta minutos de uma confusão capaz de tirar Mahatma Gandhi do sério.

A aventura havia começado cinco meses antes. Inscrita num programa de estágio internacional, Mariana embarcou para a Índia. Com 22 anos, tinha acabado de concluir o curso de jornalismo. A oportunidade de trabalhar num país distante era um sonho do qual não abriria mão. E lá foi ela. Visto de estudante. Escala de um dia na África do Sul. E uma vaga de seis meses na ONG indiana Emmanuel Ministries Calcutta.

Ao chegar, o choque foi intenso. Comida. Roupa. Língua. Cultura. Mas nada que um jeitinho brasileiro não resolvesse. "Me infiltrei na cultura, na multidão". Após cinco meses longe de casa, quase não tinha contato com o Brasil. A exceção era a mãe, que ainda não acreditava que a filha estava na distante Índia. Já estava tropeçando no português quando uma amiga da Romênia, que trabalhava num hotel, disse:

- Tem um time de futebol do Brasil no hotel.

- Nossa! Que legal!

- É um tal de Polmero, Polmaro.

- Palmeiras?!?!

- Isso mesmo!

- Ai, meu Deus! Eu sou palmeirense. Não acredito! Meu time aqui!

- Já falei sobre você para eles...

Não precisou ouvir a frase toda. Quando se deu conta, já estava no lobby do hotel.  "Assim que cheguei vi uma galera e fui logo me apresentando. Conheci todo mundo. Fiquei amiga da comissão técnica, dos jogadores". O time era o Palmeiras-B, convidado a participar do Torneio IFA Shield, um dos mais tradicionais da Índia, e que já estava em sua 107ª edição. Após cumprir toda a tabela do campeonato, o "verdinho" estava na final.

"A equipe vai receber as boas vindas do governo de Calcutá", informaram. "Vamos?" "Claro!" No dia seguinte, Mariana voltou ao hotel, de onde sairia um ônibus levando a comitiva. Enquanto se dirigiam ao local do evento, a garota observava o movimento na rua. O veículo escoltado. Motos. Polícia. Sirenes. E uma multidão acompanhando o trajeto. Estava fascinada.

Ao descer do ônibus, fechou os olhos diante dos flashes. Microfones. Imprensa. Gritos. Os palmeirenses distribuindo autógrafos. Poses para fotos. Acenos. Logo descobriu o quanto o futebol brasileiro é venerado no país que tem o críquete como principal esporte. Única mulher no meio dos jogadores, atraiu a atenção das pessoas. "Pensavam que eu era esposa ou namorada de um dos jogadores. Uma celebridade." Mãos empurravam papéis e canetas em sua direção. Queriam seu autógrafo também. "Gente, o que eu faço?" Alguém gritou, "escreve aí qualquer coisa". Agradecendo aos "fãs na maior cara-de-pau", pegou os papéis e registrou "Beijos, Mariana". Sempre sorrindo para as câmeras.

Por cinco dias a brasileira do interior de São Paulo fez parte do time. "Eles ficaram com pena de mim. Ali, sozinha". Então me convidavam para jantar. Hospedados no Hindusthan International, hotel cinco estrelas, os jogadores trouxeram um cozinheiro do Brasil. "Foi muito bom comer feijão depois de tanto tempo".

"Chegou o dia da grande final". O time adversário é o indiano East Bengal. "Você vai com a gente". Já estava pronta. Tinha, literalmente, vestido a camisa do time, presente que acabara de receber. Entrou no ônibus. Mais uma vez escoltado. Motos. Polícia. Sirenes. Multidão. No estádio, foi conduzida para uma arquibancada, ainda vazia, que logo identificou como sendo a ala VIP. "Você fica sentadinha aqui", alertaram. Jogadores atiraram em suas mãos várias câmeras. "Vai filmando". Aos poucos, outras "celebridades" foram chegando. Jogadores da África do Sul, de Bangladesh e, para sua surpresa, um amigo. Indiano fanático pelo futebol canarinho que, não se sabe como, também conseguiu um convite VIP.

O jogo começa. "Eu filmava. Tirava foto. Um pouquinho em cada câmera. Meu amigo ajudava". No campo, os palmeirenses marcam o primeiro gol. O jogo continua. Falta cometida por um brasileiro. Ferve o sangue indiano. Os jogadores "se estranham". A pancadaria começa. Da arquibancada, uma assustada Mariana olha a cena sem entender o que esta acontecendo. "Não dava para acompanhar tudo. Só sei que o pessoal levantou do banco e começou a brigar também". Técnicos. Banda de música. Polícia. Todos no campo. Jogadores palmeirenses correm para não apanhar. A torcida grita. Agitada. Xingando. O jogo é interrompido. 36 minutos do primeiro tempo.

Uma das poucas mulheres no estádio, e branca, não demorou para que sua presença fosse notada. "Estava muito nervosa. Senti que eles viriam em minha direção". Sem pensar, ela segurou no braço de um rapaz que estava sentado ao seu lado. "Pelo amor de Deus, me ajude". O amigo indiano, com um ar irônico, alertou "esse cara é de um time de Bangladesh. Brigou com o Brasil na semana passada durante uma partida". Pronto. Pane total. Trêmula, ela assistia a torcida gritando cada vez mais alto. Centenas de homens com os olhos arregalados. As mãos dando murros no ar. "A única coisa que pensei foi em tirar a camiseta do Palmeiras". Os torcedores começaram a caminhar rumo à ala VIP. Gritavam em hindi. Suavam enfurecidos. "Nunca passei tanto medo". Os olhos de Mariana iam de um lado para o outro a procura de alguém do time. Ninguém. "Volta para o lugar de onde você veio! Volta para o lugar de onde você veio!", ouvia em inglês. "O que eu faço?", gaguejou para o amigo, que continuava filmando. Neste momento, a polícia aproximou-se. Foi, finalmente, conduzida por um corredor cercado de grades até o vestiário. E o amigo atrás. No meio da confusão, o técnico lembrou da menina que estava sozinha e pediu que a polícia fosse ao seu socorro. Ao vê-la escoltada, alguns indianos se desculparam "a gente pensou que você fosse brasileira". "Eu? Brasileira? Imagina!"

No vestiário viu os jogadores sangrando. Revoltados. Parecendo não se dar conta da confusão, o amigo indiano não parava de insistir "pega um autografo para mim". "Ah, eu não posso, não posso...", respondia uma fraca e pálida Mariana. Mesmo com várias lesões pelos corpos, o time ensaiou um pagode. Precisavam esperar até que o estádio estivesse vazio. Duas horas depois, quando estava tudo "limpo", saíram. De cabeça baixa. Em silêncio. Fila indiana até entrar no ônibus. Agachados durante o percurso até o hotel. Do lado de fora, um batalhão de homens garantia a segurança.

No hotel, um jantar aguardava a comitiva verde. Entre os convidados, autoridades locais e jogadores indianos. Todos já estavam recompostos e com roupas limpas. Menos a Mariana. Entre as "celebridades", era a única que ainda trazia no corpo e nas roupas o suor. A marca que selava a sua participação no Palmeiras-B.

O episódio repercutiu nos jornais de todo o mundo. No Brasil, os indianos foram apontados como culpados. Na Índia, os brasileiros como desordeiros. O fato é que ainda não há vencedor para o torneio. Os palmeirenses, por terem feito um gol durante a partida, se declararam campeões. Sem hesitar, compraram, ainda em Calcutá, uma taça que serviu para comemorar a vitória, irritando a imprensa indiana. Já o comitê organizador do torneio deu o título ao East Bengal, desclassificando o Palmeiras por ter começado a briga. O caso está com a FIFA.

Três anos depois, Mariana recorda o episódio com um suspiro. Os olhos brilham e divagam ao lembrar das cenas relatadas. "Os indianos são assim mesmo. Quando provocados, ficam nervosos. Mas é um povo fascinante". Ela quer voltar. "Morro de saudades", diz com o olhar perdido. Talvez no Ganges. Talvez no Salt Lake.

Texto escrito em 2004.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

um festim para o amor

Um elogio ao amor. Esta foi a proposta para "O Banquete" relatado por Platão três séculos antes de Cristo. Um diálogo entre Aristodemo, Ágaton, Sócrates e outros filósofos gregos. Neste debate, é consenso de que "Amor é entre os deuses o mais antigo. E sendo o mais antigo é para nós a causa dos maiores bens." Se até para os grandes pensadores não existe "maior bem para quem entra na mocidade do que um bom amante, e para um amante, do que o seu bem-amado", o que dizer dos sonhadores aqui na Terra? Que no meio de expectativas, frustrações e conquistas efêmeras aguardam o par perfeito.

Dentro deste público, que crê no Amor (assim mesmo, com A maiúsculo) e ainda espera por um príncipe encantado, está Roberta Maria Fabbri.

Fé. Esta é a palavra que define a paulistana de 28 anos. Pele clara, olhos verdes, cabelos louros ondulados até o ombro e nariz preponderante caracterizam a nossa personagem. Roberta também é, quase sempre, uma mulher de poucas palavras.  Expressão calma assinalada com um sorriso velado e desconfiado. A voz suave ganha força com pausas precisas, no compasso dos olhos. Cerra as pálpebras e movimenta o globo ocular antes de pronunciar algo importante. Uma característica explícita: não age sem pensar.

A vaidade é disfarçada pela simplicidade. Constantemente adota o jeans e uma blusa em tom pastel para compor seu visual. São raras as ousadias. Exceção para os sete furos na orelha, e mais recentemente ao piercing no dente canino, do qual orgulha-se: "É azul claro, minha cor preferida." É a típica menina de família. Não são raros os momentos em que entra no carro com os pais e o irmão, onze anos mais novo, para almoços, passeios e visitas aos parentes mais próximos. Católica praticante, ela pode ser facilmente encontrada aos domingos, a partir das dezoito horas, na Paróquia São João Batista, no bairro Itaim Paulista, em São Paulo. Amiga das beatas, dos padres e seminaristas, seus aniversários são sempre acompanhados de uma oração ligada pelo terço.

No entanto, a aparência tranqüila esconde uma mulher decidida, que não gosta de perder tempo. Não hesita em tomar todas as iniciativas quando está diante do que quer. Ou melhor, do que desperta o coração. Neste momento, ela se revela uma outra pessoa.

Capaz de arriscar. Explodir. É quando escolhe a arma mais poderosa e parte para a guerra. Sem escudo ou armadura. Pois o importante é ser vista e, quem sabe, atingida.

Mas o que é o amor para a jovem que tem na religião e na família a base de seus valores? "É tudo. Se não tiver amor na vida você não é nada", afirma ela. "É também sacrifício. Um fazendo a vontade do outro."

Roberta acredita convictamente que há uma pessoa em algum lugar do planeta que é a sua outra metade. "A gente só não se cruzou ainda." Espera pelo príncipe encantado. "Ele vai aparecer do nada. Quando eu menos esperar", declara. E se o destino tardar, "a gente dá um empurrãozinho. Apronta algumas." Por amor, ela já estrelou várias cenas dignas de novela.

Uma das mais inusitadas começou no restaurante da tia, no Shopping Internacional de Guarulhos, em São Paulo. No caixa, ela viu um rapaz que atraiu sua atenção. Passou a ir ao local com mais freqüência. Contudo, faltava oportunidade para um primeiro contato. Sem saber nem mesmo o nome dele, recorreu a uma amiga "mais extrovertida". O telefone do estabelecimento era o único arsenal. Mas foi suficiente para o plano. A amiga ligou para o garoto e disse ser uma admiradora secreta. Descobriu nome, estado civil e aguçou a curiosidade do alvo. Depois de um mês de telefonemas foi marcado um encontro. Às escuras. Para ele, é claro, que esperava encontrar uma pessoa para depois descobrir que ela era outra. Confuso? Não mais que os pensamentos de Roberta. "Eu ficava imaginando o que falaria. Ele nunca poderia imaginar que seria eu. A sobrinha da patroa dele". Durante todo o dia, "aquele negócio ficava matutando na cabeça", confessa. Mesmo assim, ela se mantinha otimista em relação à reação do rapaz. Chegou meia hora antes no lugar combinado. A entrada principal de um Shopping Center na zona leste da capital paulista.

"Dei uma volta pelas lojas até ele chegar. Porque ele tinha que chegar primeiro. Eu tinha de ir ao encontro dele." Quando o avistou, todos os sintomas do nervosismo apareceram. Frio na barriga. Suor. Pernas tremendo. E agora? Bem, não tinha mais jeito. Era pegar ou largar. Caminhou até o rapaz e o abordou:

- Nossa! Você por aqui. Que coincidência.

- Pois é, você também por aqui.

- O que você esta fazendo por estes lados?

- Eu estou esperando uma amiga.

- Interessante. Eu também estou esperando um amigo.

Silêncio constrangedor. Roberta percebeu que ele não parava de olhar no relógio. Ela precisava criar coragem para dizer a verdade.

- Aconteceu uma coisa muito estranha comigo - ele confessa, constrangido e hesitante. Ligou uma menina falando que queria me conhecer de qualquer jeito. E marcou um encontro aqui. Eu vim só para ver quem é essa menina. Agora, estou aqui pensando. Foi loucura minha ter vindo.

- Nossa! Aconteceu isso com você. Que história louca. E você tem coragem de vir ao encontro de uma pessoa que você nem conhece - diz demonstrando seriedade.

- Pois é, eu não sei o que eu estou fazendo aqui.

Com receio de perder a oportunidade, Roberta solta:

- E como é que chama esta amiga sua?

- Michelle - ele responde citando o nome da amiga, que se identificou pelo nome verdadeiro desde o início.

 Não poderia mais esconder. Disfarçando a ansiedade, contraindo todos os músculos e sentindo que o momento de dizer a verdade chegara, ela suspira:

- Olha... E seu eu te disser que a Michele sou eu?

- Ahnn... Sério?? - responde com um olhar espantado.

E este foi o começo de uma relação que durou duas semanas. Logo, o príncipe virou um sapo. Não foi desta vez que Roberta encontrou sua cara-metade. Decepções acontecem. "Mais vale a certeza de um não do que a dúvida de um sim." Com esta máxima, ela defende suas empreitadas, que não pararam por aí.

Sem medo de continuar sua busca, decidiu fazer uso da tecnologia. Internet. Amigos on-line. Após uma rápida pesquisa, seleciona alguns rapazes "interessantes". Com uma mensagem padrão, dispara e-mails para os pretendentes. Encontra outro príncipe, que literalmente a enfeitiça. O encontro real aconteceu quinze dias após o encontro virtual.

Apesar de saber que não haveria progressos, deixou a magia a conduzir por um ano. "Ele foi sincero. Abriu o jogo no início. Então, se em algum momento eu pensei que fosse dar certo, logo vi que estava enganada." Confessa que foi difícil resistir. E não insistir. Mesmo sabendo que não haveria futuro nesta relação, prensou o rapaz contra a parede. Outra característica sua é a persistência. Às vezes, exagerada. Como ela mesma define.

Hoje, ela está abraçada a uma nova causa. Ou caso. Já faz um ano que conheceu, na igreja, uma pessoa que atraiu sua atenção pela timidez e aparente solidão - sempre sozinho nas missas. Nunca conseguiu se aproximar. "Nem um sorriso ele dá." Tudo o que sabe dele, além de que o encontrará na missa todos os domingos, é a placa do carro. Onde está história vai parar, só o tempo poderá dizer. Entretanto, se depender da menina de rosto angelical e atitudes selvagens, ela não vai ficar estacionada. "Já perdi muito tempo. Preciso fazer alguma coisa."

Será este o príncipe, finalmente? "Não. Até agora não apareceu príncipe nenhum. Não tem nada de concreto. Só há a expectativa." Ela não se arrepende de nada que tenha feito, apesar de descrever todos os amores que teve como encrencas. Inclui neste ranking um namoro de seis anos.

Formada em Processamento de Dados pela Universidade da Cidade de São Paulo, hoje ela trabalha na Academia Paulista de Direito Criminal, escritório de advocacia na capital paulista. Não são raras as mensagens codificadas com citações jurídicas. Mas a sentença que mais aguarda é o amor. Sonha em casar, ter filhos. Tudo com pompas e circunstâncias.

No banquete filosófico eles já afirmavam que o amor é "aquilo que, com efeito, deve dirigir toda a vida dos homens, dos que estão prontos a vivê-la nobremente." Ela está pronta. Resta encontrar alguém disposto a compartilhar. Candidatos?

Texto escrito em 2004.



Michelangelo

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

na liquidação: uma pechincha de marido

“Não posso perder o marido. Foi muito difícil achar um. Ele me custou R$ 119,00!” Esta frase surgiu enquanto Pricila Varela separava os materiais para uma viagem de trabalho e explicava por que teria que voltar logo. Seu destino: Fortaleza. Tratava-se de reunião na qual teria que ficar praticamente um fim de semana longe de casa. Sua preocupação maior era o marido, que não ficou contente com o trabalho externo. “Ah, ele não gostou. Chiou. Tenho que voltar no sábado mesmo, assim que acabar o evento.”

Tanta insegurança tem um motivo. Pricila, assim como muitas moças afoitas por um par, vinha de várias buscas e iniciativas frutadas.


Ela queria casar. Não economizava nas promessas e simpatias. Santo Antônio já deveria estar abdicando da criança que lhe foi tirada, tamanha era a pressão.

Na verdade, ela era divorciada. Casou nova. Tinha apenas 20 anos. Mas o rigor militar não combinou com seu jeito espontâneo, extrovertido e falante. Aliás, muito falante. Resolveu abandonar a farda, ou melhor, o marido que era das forças armadas, e partir para a carreira solo. Depois de um tempo curtindo a vida de recém solteira, estava no mercado novamente. Com o passar do tempo e nada acontecendo, o desespero começou a rondá-la.

Jornalista de formação e profissional de relacionamento por vocação e experiência, Pricila cuida do intercâmbio de informações entre os associados da empresa em que atua. Lá todos a conhecem. Por onde passa, despeja sorrisos e conversas.

Mas o cara perfeito, ou mesmo que um pouco imperfeito, não aparecia. Estava, como costumam dizer por aí, a perigo. Pedia ajuda a todos. Aos amigos. Aos amigos dos amigos. E nada. Vendo sua situação, uma amiga sugeriu que ela entrasse num site de relacionamento.

- Eu não acredito nestas coisas. Isto não dá certo.

- Neste você pode confiar. É ótimo.

- E você está nele? 

- Não.

- Viu? Nem você confia!

- Mas é que não tenho tempo nem paciência para preencher o cadastro de afinidade.

E o papo morreu. Até que chegou outro sábado à noite. Os solitários de coração costumam dizer que é aí que mora todo o desamparo. “Estava completamente desesperada! Resolvi tentar o site. Afinal tinha tempo de sobra para preencher o tal questionário, que realmente era muito extenso e detalhado.”

Quando terminou de inserir seus dados, logo começaram a chegar respostas dos possíveis pretendentes. Mas ainda havia outro passo: pagar. “Ah, eu não queria pagar, mas ao mesmo tempo fiquei super curiosa para ler o que estava chegando. Sem pagar eu não conseguia entrar nos perfis.”

Sem cartão de crédito, pediu ajuda à irmã. Explicou toda a história e deu prosseguimento àquela que seria sua história de amor.

“Na verdade, quem paga o cartão da minha irmã é minha mãe. Quando ela viu o valor, foi logo perguntando do que se tratava. Minha irmã simplesmente disse que eu havia comprado uma bolsa”, diz Pricila rindo e comentando que ainda deve este valor à matriarca.

Vieram várias propostas. Chegou até a sair com um publicitário. “Todos os contatos foram muito sérios”, faz questão de enfatizar. Mas nada vingou. Até que surgiu Armandinho.

Chegou testando sua inteligência. O e-mail que ele mandou precisava de alguns passos antes que pudesse ser aberto. “Esse Armandinho...”, suspira.

Proativa e sem querer perder tempo, Pricila, entre um e-mail e mensagem no MSN, foi logo dando o telefone da sua casa. “Ele ficou desconfiado. Achou que eu era muito precipitada. Mas eu não podia ficar ali só teclando e teclando.”

Poucos dias depois foi ganhando a confiança do moço, que lhe deu o telefone da casa e do trabalho. Numa tarde, mais uma vez a proatividade ganhou. Pegou o telefone e perguntou o que ele iria fazer no fim da tarde.

- Nada.


- Então vamos tomar um café?

Combinado. E lá foram eles para o primeiro encontro, que foi sucedido por um almoço, por um jantar e, quatro meses depois, por um apartamento compartilhado. “Ele vive dizendo que me pegou numa liquidação”, conta, lembrando o valor pago para entrar no site de relacionamento.

“Agora só falta o pedido oficial de casamento. Com anel e tudo mais”, fala com os olhos brilhando e abraçando os dois banners enrolados que vão para Fortaleza com ela.

Moças, o negócio é pechinchar!

Romero Brito

fama e anonimato

A cidade das formigas

Retrato romântico de uma cidade que parece não ter freios. São os anônimos, os personagens obscuros que fazem com que essa grande locomotiva urbana esteja sempre em movimento. Dando ênfase às “coisas despercebidas”, Gay Talese nos apresenta uma metrópole rica em detalhes que, por conta da ansiedade e agitação, características impregnadas nas ruas e pessoas, dificilmente são notados. Pormenores que fazem de Nova Iorque simplesmente Nova York.

A forma como o jornalista descreve as formigas e o fato de ninguém saber ao certo como elas conseguem escalar os prédios nos remete aos milhares de imigrantes que habitam a cidade. Muitos trazidos pelos ventos e que ainda tentam descobrir o porquê deste destino.

Os gatos representam os nova-iorquinos e suas manias. Gestos estereotipados em Seinfeld e em Friends, seriados de TV conhecidos no mundo inteiro. Sem contar os neuróticos retratados por um não menos neurótico Woody Allen. Os maiores, do topo dos prédios de Manhattan, ditam as regras. No outro extremo, os selvagens sobrevivem, seguindo as margens do rio de forma a não se perderem por completo. Como ponte entre estes dois pólos, existem os boêmios. Lucro por meio da malandragem, ora inocente, ora premeditada. Espontaneidade da capital do mercantilismo. Há também os que dão meio expediente e os full time. Trabalhadores-Combústivel-Autorrenovável.

Desta forma, com metáforas baseadas no pequeno para retratar o grande, Talese desvenda Nova York, destacando as particularidades que fazem dela um local único. E esse é apenas um dos textos de “Fama e Anonimato”, que ainda traz diversos perfis de personagens da cidade, como o de Frank Sinatra, feito sem que o autor o tenha entrevistado. Somente um olhar atento dentro da madrugada e dos porões escondidos consegue ver. Somente quem vive, sente e respira seu ar consegue entender. Assim é Gay Talese.

sônia ferreira: dança inconsciente dos números

Carros estacionados. Pessoas nas calçadas. Cachorros latindo. Fogos de artifício. Alguém parece ter mais um motivo para estar feliz. Samba, MPB, rock n'roll. Na trave. Um gol. É preciso muita atenção para identificar os diversos sons que vêm das casas, dos automóveis, dos transeuntes. Uma lona preta cobre o portão da casa de número 5. Batata! É mais uma festa de aniversário num domingo ensolarado. Lá, as pessoas utilizam a lona para esconder dos xeretas as festas realizadas na garagem.

Sônia Ferreira é uma rua típica da periferia. Cravada na zona leste de São Paulo. Os vizinhos são todos conhecidos, companheiros. Como numa cidade pequena, todos sabem o que acontece na casa ao lado. E na da frente. E na do outro lado. E na da esquina também. Fatos atualizados diariamente pelas senhoras que saem para a caminhada matinal às 7h15, pontualmente. Somente têm folga nos finais de semana.

São apenas quatro quarteirões e três travessas. O colorido das residências quebra a monotonia do asfalto remendado e das calçadas irregulares. Fios entrelaçados são sustentados por sete postes. Uma enorme torre pode ser vista de longe. Telefonia celular. Tecnologia de ponta. Referência para quem visita o local pela primeira vez.

De um lado 138, 3, 20, 5, 110A, 49, 8. Do outro, 4, 119, 6, 14. E por aí adiante. Esta é a sequência dos números das casas. Para desespero dos carteiros novos. A explicação vem da dona de casa Olinda, há 29 anos morando no número 6. "Faz tempo que veio uma cartinha da prefeitura falando o número certo da casa.” Nem todos concordaram ou pareceram se importar com a intimação. "Meu número novo é 113. Eu não gosto do 13. Então fico com o 6 mesmo. E depois dá trabalho. Tem que ir até a prefeitura levar as papeladas. Dá preguiça.”

Há quatro décadas, a rua não era uma rua. Fazia parte de uma chácara. Assim como todo o bairro. Quem comenta é a moradora mais antiga, Dona Zulmira, portuguesa de 75 anos. "Ah, eu sou a mais velha daqui, sim. Já faz bem mais que trinta anos que cheguei. Aqui era tudo mato. Não tinha asfalto. Para ir até as lojas e mercados a gente tinha que seguir por uma trilha. Se agora ela está melhor ou pior eu não sei. Mas que está diferente está.” Hoje restam apenas cinco árvores e meia. Um tronco ainda resiste ao concreto. Sem galhos, sem folhas ou flores. Ele está fincado num pedaço de calçada que ainda não ganhou cimento. Na esquina. Bem no meio da rua. Se hoje ainda está ali, deve suas raízes intactas a um carro da prefeitura que passou no momento exato em que um dos moradores quase consumava sua extração. “Leva multa quem arranca árvore.”

Nas noites de terça, quinta e sábado o programa é certo. Público garantido. Silêncio. Apenas o som de um ou outro carro que insiste em descer a rua. Todos aguardam o espetáculo. Os mais velhos se prepararam horas antes. Os mais novos ajudaram. Um, dois, três. Os cachorros alertam. Latidos fortes, agudos. Há sopranos, contraltos, tenores e baixos. Alguns arriscam um solo. Cada um no seu tom, no seu momento, no seu infinito fôlego. Irritante para aqueles que tentam assistir ao Jornal Nacional. Importante para aqueles que por algum motivo estavam distraídos. Tudo para anunciar que o lixeiro está chegando. Um minuto depois o caminhão se aproxima. Homens de macacão laranja com listras brancas recolhem sacos pretos, azuis, de papelão. Cheios. Todos cuidadosamente postos em frente aos portões. O caminhão não para e eles precisam pegar um saco aqui e outro ali. Correr e depositá-los no caminhão. Voltar dois passos. Recolher outros sacos e correr. Abaixam, levantam, pulam, esticam os braços. Assim, num ritmo frenético. Como se estivessem dançando ao som do coral canino. Personagens de um musical que acontece três vezes por semana.

Na manhã do outro dia, ainda há vestígios da festa. Pedaços de papéis, potes de iogurte, casca de ovos são recolhidos pelas mulheres, e homens, que lavam os quintais e calçadas. Baldes e mais baldes da água que serviu para enxaguar a roupa. Consciência ecológica. Ou seria um olhar atento no relógio da Sabesp?

Texto escrito em 2004

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